23 de abr de 2011

A LÍRICA FEMININA SOB O SIGNO DO MODERNISMO - Cap. II


A Ausência da Mulher no Movimento Modernista Português.

A maneira como o movimento modernista instaurou-se em Portugal foi sui generis, primeiramente porque não foi de um só golpe certeiro que fizesse implodir os códigos estéticos do Simbolismo, herança do século XIX ainda sobrevivente no espaço literário do século XX, que só uma revolução com a força e a audácia reveladas pela geração do Orpheu iria fazer recrudescer. Sobre esta ação instauradora do Orpheu, comenta Luiz Francisco Rebello: 
O Orpheu aparecera em 1915 – e com ele morre o século XIX e nasce o século XX nas letras e nas artes nacionais. Nos versos de Sá-Carneiro e de Pessoa ouvem-se ainda os últimos ecos do Simbolismo – e irrompem já os primeiros acordes da poesia a que, em termos englobantes, chamaremos modernista, e de que o Simbolismo continha aliás as sementes.[1]
Vale salientar que em todas as etapas do processo de modernização da literatura portuguesa, apenas participavam homens. Orpheu, Presença e Neo-Realismo foram movimentos essencialmente masculinos. A razão da ausência das mulheres é um caso a ser pensado e pesquisado, porquanto, uma poetisa do quilate da extraordinária Florbela Espanca já se impusera no meio literário pela qualidade de sua obra poética, desde 1918, publicando os seus livros de poesias paralelamente aos poetas do Orpheu da Presença. 
Outras poetisas dignas de menção também surgem neste período: Virgínia Vitorino, Maria de Carvalho, Laura Chaves, Branca da Conta Colaço, Virgínia da Mota Cardoso, Marta Mesquita da Câmara e Maria Helena, dentre outras relegadas ao esquecimento. 
Somente após o ano de 1940, outras revistas surgiram, algumas delas expondo poesias de autoria feminina. Neste sentido merecem menção especial Cadernos de Poesia e Poesia 61. 
A primeira série dos Cadernos de Poesia circulou entre 1940 e 1942, sob a direção de Tomaz Kim, José Blanc de Portugal e Rui Cinatti, tendo como lema: “A poesia é uma só”, enunciado emblemático que vinha estampado na capa da revista cujo objetivo era defender a vocação ecumênica da poesia e admitir ecleticamente a colaboração de artistas das mais diversas tendências estéticas. Entre os colaboradores da revista figuram quatro poetisas: Fernanda Botelho e Maria de Lourdes Belchior Pontes, Sophia de Melo Brayner Andresen e Irene Lisboa (João de Falco). 
A atitude eclética da 1a série dos Cadernos de Poesia representava a vanguarda literária em Portugal, em 1945. Na opinião de E.E. de Melo e Castro, os cadernos de poesia assinalam um momento importante no processo Poético do Após-Guerra, no qual passou “a ocupar um lugar de relevo a procura de uma adequada especificidade da Poesia como escrita e como agente crítico do contexto social português”.[2]
Em 1961, instaura-se em Lisboa o movimento Poesia 61, com pretensões vanguardistas e influenciado pelo concretismo brasileiro. Seus filiados preocupavam-se com o que denominavam Poesia experimental, que se traduz na busca de experimentar técnicas inovadoras, algumas delas voltadas para a metalinguagem, com textos que se refletem ou que refletem o ato poético, bem como procuram veicular denúncias e questionamentos de ordem social. 
Nestes termos, a poesia do grupo põem em prática dois tipos de engajamento: com a própria literatura – reflexividade -, procurando incorporar à sua poética as contribuições não somente da moderna teoria da comunicação, do estruturalismo lingüístico e do informalismo das artes plásticas, como também a preocupação com o social: denúncia e crítica. Além dos poetas, participaram da Poesia 61 poetisas como Fiama Hasse Pais Brandão, Luísa Neto Jorge, Maria Teresa Horta e Alberta Rovisco Menéres, Nathalia Correia, Ana Hatherly. 
Desse movimento vanguardista, liderado por E.M. de Melo e Castro, surgiu a Antologia da Moderníssima Poesia Portuguesa, em 1959 e em 1961(em 2a. edição). Sobre o movimento de reestruturação da própria arte poética que animava o meio literário diz Melo e Castro: “A inquietação lingüística que se sentia no início dos anos 60 não era no entanto apanágio exclusivo dos poetas de Poesia 61”, também os poetas revelados no surto de 1956/57 participaram activamente na renovação do interesse pelo poema como texto e como base exclusiva da comunicação do poético”.[3] Dentre estes poetas incluem-se Natália Correia, Salette Tavares, Ana Hatherly, Maria Alberta Menéres que, segundo julga Melo e Castro, chegaram a uma poesia cujo denominador comum poderá ser entendido como um novo tipo de barroco (...) que nada tem a ver com as implicações históricas e religiosas do Barroco do século XVII 
Em 1977, já livres do jugo da censura ditatorial e com a árdua missão de levarem adiante as conquistas das gerações passadas em prol da modernização da literatura portuguesa, os escritores puderam, enfim, produzir em clima de liberdade absoluta. Em 1979, Maria Alberta Menéres e E.E. de Melo e Castro organizaram e publicaram a Antologia da poesia portuguesa 1940-1977. A esta altura, os tempos eram outros, já não sopravam na terra de Camões e de Pessoa as sombrias e ameaçadoras ventanias da opressão e da censura. 
O Modernismo triunfante prosseguiu, abrindo suas largas portas e um imenso espaço para abrigar as mais ecléticas formas de expressão, em coexistência pacífica, na cena literária do país. 
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Zenóbia Collares Moreira. O Itinerário da poesia feminina em Portugal - Século XX. 


NOTAS
[1] Luiz Francisco Rebello, O Teatro Simbolista e Modernista, p. 54.
[2] E.E. de Melo e Castro, Antologia da poesia portuguesa 1940-1977, vol. I, p. 33.
[3] E. E. de Melo e Castro, Op. cit., vol. I, p. 36.


CONTINUA


Um comentário :

  1. Mas uma vez, faço uma ressalva. A Poesia 61 não foi um movimento como as vanguardas, mas sim um grupo, ou seja, deveria está escrito, Grupo Poesia 61.

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