23 de abr de 2011

A Mística do Ccorpo Liberto.



A revolução sexual, hoje em curso no mundo, tem raízes bem mais profundas do que pode parecer [...]. Há uma “mística do corpo” que é preciso redescobrir, e que vai além da performance. (Nelly Novaes Coelho) 

A partir da década de 70, a liberdade da linguagem acentua-se. As escritoras tomam as rédeas do seu discurso, libertam a linguagem feminina de todas as interdições e tabus milenares, dão expressão poética ao erotismo, enriquecem o repertório temático da poesia com temas transbordantes de sentimento estético da sensualidade, do desejo, da fruição dos prazeres do corpo. Talvez pela primeira vez na poesia portuguesa feminina a mulher tenha ousado expressar o seu encantamento com o corpo do homem (canto as tuas ancas / as tuas coxas magras / duras e compridas), com a beleza das formas masculinas (De ti só quero as rosas amarelas / que há nos teus olhos cor de ventanias). Já não é mais o homem o único a falar do seu desejo, da sedução do corpo da mulher amada, do mágico delírio que o seu toque desata. A retórica da sensualidade, da luxúria e do homoerotismo, na lira de Judith Teixeira que foi motivo de escândalo e choque para a falsa moral do seu tempo, as expressões do desejo carnal, do amor sensual na poesia de Florbela Espanca, causa do desprezo e da rejeição social sofridas pela musa dos anos trinta, são resgatadas pelo discurso das mulheres que as sucederam, como faz Maria Teresa Horta no poema Canto o teu corpo: 

Canto o teu corpo 
Passados estes anos: 
o prazer que me 
acendes 
o espasmo que semeias 
a seara das pernas 
o peito 
os teus dentes 
a língua que afago 
e as ancas estreitas 

Canto a tua 
Febre 
Fechada no meu ventre 
Canto o teu grito 
E canto as tuas veias 
Canto o teu gemido 
Teu hálito 
Teus dedos
Canto o teu corpo 
Amor que me encandeia. 

Com efeito, os movimentos que visam a emancipação das mulheres, sempre ocorrem par a par com uma tomada de consciência acerca da repressão que cerceia a sexualidade feminina, resultando invariavelmente em um processo de libertação do corpo. No que se refere à mulher escritora, essa consciência tem sido o ponto de partida para uma liberdade crescente da linguagem no que diz respeito à criação de textos eróticos. Inegavelmente, a mulher emancipou-se, também, literariamente, reivindicou e legitimou a sua maioridade literária. A expressão poética da sensualidade e do erotismo femininos na literatura do século XX torna-se importante, principalmente, por representar um grito de contestação da mulher contra a repressão que permeia toda a sua história. 
Na abalizada opinião de Georges Bataille, um dos mais conceituados críticos do tema, “a vida oferece ao homem a volúpia como um bem incomparável. (...) A perfeita imagem da felicidade.”[1] E a expressão dessa felicidade e da volúpia que a proporciona não é criação do século XX. A literatura de cunho erótico é tão antiga e disseminada quanto a própria humanidade: ela está no texto bíblico do Rei Salomão (Cânticos dos Cânticos), na obra de muitos poetas da Grécia Antiga, nas obras dos romanos, atravessou séculos e séculos até chegar aos dias atuais, contando com uma infinidade de autores de extraordinário valor artístico que cederam também espaço ao erotismo em suas obras poéticas e ficcionais. 
Afrânio Coutinho chama atenção para o fato da doutrina da Igreja não ter perseguido e condenado os fiéis por causas relacionadas à prática do sexo ou à sua expressão literária, a censura recaía sobre livros que veiculassem heresias contra a fé religiosa. O autor acusa o “estúpido século XIX” de ter implantado a censura aos livros e obras de arte sob o argumento de ofensa à moral e bons costumes, tendo em vista evitar a corrupção da juventude.[2] Obviamente, os responsáveis pelas medidas coercitivas oitocentistas não estavam isentos de suspeitas, pois todo tipo de infrações dos bons costumes eram praticados e permitidos no âmbito da classe dominante, desde que fosse às escondidas. Era, portanto, um falso moralismo tipicamente burguês que só serviu para estimular a lucrativa e florescente prática clandestina da pornografia. Acontece que esta mesma ideologia da hipocrisia transitou para o século XX, fincou suas raízes no fértil terreno da média e alta burguesia da primeira metade dessa centúria, encontrando no regime ditatorial de Salazar o clima ideal para o seu florescimento. Daí a ação persecutória da censura salazarista que confiscou obras consideradas atentatórias à moral e aos bons costumes, meteu no índice das proibições outras tantas, além de processar e levar aos tribunais os seus autores, conforme já foi referido anteriormente. Na verdade, os “esbirros” modernos pouco ficaram a dever aos censores do “Santo Ofício”, da mesma forma que seus métodos coercitivos e punitivos estavam bem próximos dos adotados pela Inquisição. 
Não fora a tenaz convicção das escritoras, poetisas e ficcionistas, de que não podiam nem deviam deixar-se intimidar, nem permitir que silenciassem pela força a liberdade de expressão literária, à duras penas conquistada, muitas dentre elas teriam silenciado e desistido de desafiar a censura. Nas obras poéticas das poetisas portuguesas, escritas no século XX, dificilmente não encontramos poesias eróticas.
_______________________

Notas

[1] G. Battaille, Op. cit., p. 62. 
[2] Afrânio Coutinho, O erotismo na literatura, p. 30. 
[3] G. Bataille, O erotismo, p. 56.


By Zenóbia Collares Moreira. A Lírica feminina sob o signo do modernismo. In: O Itinerário da poesia feminina portuguesa: Século XX. Cap. II 

Um comentário :

  1. Professora Zenóbia,

    Sou Tayza Codina de Souza mestranda em Literatura e Vida Social pela Unesp/Assis, e estou trabalhando em uma pesquisa com a poética de Judith Teixeira. Encontrei o seu blog e com ele descobri a publicação do Dicionário de Escritoras Portuguesas - das origens à atualidade, gostaria de saber se o O Itinerário da poesia feminina portuguesa: Séculos XX/XXI encontra-se dentro do dicionário ou é um outro livro. Pois, gostaria de comprá-lo, por fazer referência a obra de Judith Teixeira.
    Agradeço a atenção.
    Abraços,

    Tayza Codina.
    E-mail: tayza.codina.s@gmail.com

    ResponderExcluir