14 de nov de 2013

Lidia, conto de Maria Teresa Horta



Levou os dedos de novo às costas e tacteou um pouco. Mexeu de cá para lá a ver se descobria alguma grossura, mas não sentiu nada; absolutamente nada. Vestiu a blusa mais fina a abotoar à frente, praticamente translúcida e durante o resto do dia quase se esqueceu fresca e leve daquela impressão, daquela comichão.
Ao fim da tarde, quando já fazia escuro, o ardor voltou: docemente, num incômodo sem causa. Lídia nem sabia afinal o que sentia. E quando o marido chegou para jantar encontrou a casa às escuras e fria. Como que vazia na escuridão opaca dos quartos. Gritou: “Lídia!”, mas ela não lhe respondeu logo, entorpecida, entontecida, como se tivesse bebido um pouco.
Realmente Lídia sentia muita sede.
A mãe vomitara sangue quando ela era muito pequena. Vira-a levar os dedos à boca e eles saírem sujos de sangue enquanto tossia sem conseguir parar. Num desespero sem nome. Agarrara-lhe um dos braços abaixo do cotovelo e não o largara mais até a hemoptise acabar, pouco a pouco, de forma surda e equívoca.
O avô que era médico deitara a mãe num cadeirão baixo e largo na casa de jantar, dera-lhe um comprimido, um copo de água gelada. Pusera-lhe um saco de água quente aos pés e sentara-se numa cadeira em frente, hirto, à espera.
Estava muito branco e silencioso, como que a escutar aquele pequeno silvo que saia da boca da mãe, aquele borbulhar contínuo no peito da mãe enquanto tossia e levava um guardanapo de linho à boca e ele voltava sempre manchado de encarnado vivo. A mãe inclinava a cabeça para trás no espaldar forrado do cadeirão e de olhos fechados tentava dominar aquele pequeno repuxo de sangue que lhe subia do corpo a aflorar os lábios cerrados e lívidos; a perderem os contornos.
Lídia lembrou-se da mãe e teve medo, inexplicavelmente, ao lembrar aquelas marcas que julgara perceber nas costas quando olhara no espelho. Simétricas. Totalmente simétricas: em cada omoplata numa pequeníssima dor que começava agora a descer pelos braços, à flor da pele. Um formigueiro, era isso. Como um formigueiro na parte exterior dos braços que prendeu ao pescoço do marido inclinado sobre a cama ainda de casaco vestido tal como chegara da rua.
“Teus braços tão quentes!” – admirou-se ele, beijando-a na boca. Mas ela recuou porque lhe era insuportável o contacto do seu corpo. Nauseada. Percebeu então que asfixiava; as janelas fechadas da casa pareceram-lhe por momentos terem grades.
Lídia recuou enrodilhando a colcha de renda da cama e disse baixo, como se estivesse a perder as forças: “Sufoco”. E não se levantou para fazer o jantar. Dormitou um pouco antes de o marido começar a despir-se para se deitar. Mas quando ele se estendeu a seu lado ela gritou. Um grito estrídulo e modelado.
A meio da madrugada, Lídia acordou, aterrada. “Foi um sonho”, pensou, mas logo percebeu que realmente não sentia os braços. Estavam tão leves que mal os sentia. Sentou-se na cama banhada por um suor morno que lhe corria pelas axilas, num cheiro a erva seca, a palha. Um suor que lhe colava os cabelos ao pescoço, lhe escorria pela cara, à volta da cintura. Nas virilhas também: pequenas bagas de suor a descerem pelas pernas que limpou devagar com a ponta dos dedos trêmulos. Levantou-se cambaleando e foi vomitar, curvada na retrete, um líquido amarelo, sujo, nauseabundo. Depois, quando lavou a boca à torneira do lavatório, olhou-se novamente no espelho e reparou nos olhos: afastados, de um azul lívido. Esgarçado, que não conhecia. Confusa, voltou a olhar e não se reconheceu no rosto no rosto que viu refletido no espelho: comprido e lívido, malares muito salientes, os olhos separados e sem cor.
Abriu a torneira toda, deixou correr a água e mergulhou nela a cara sem no entanto conseguir acalmar aquela febre. Aquele tremor, aquela chama a queimar-lhe o corpo todo. E ficou ali durante muito tempo, desorientada, sem conseguir entender o que se passava consigo. Sentindo-se desesperadamente só. Agachada a um canto da banheira.
“Tem graça – disse o marido quando se levantou de manhã -, cheira a rio, aqui.” –Ergueu um pouco a cabeça, olhando à roda. Lídia encolheu-se debaixo dos lençóis, os pulsos latejantes e novamente com aquela impressão esquisita e aguda nas costas, no pescoço, nos ombros. Encolheu-se mais, os joelhos unidos quase ao pé da boca, a sentir os braços dormentes. Ou melhor: ausentes.
“Acho-te com um ar estranho” – disse-lhe o marido parando para se despedir dela mesmo junto à cama. Lídia encolheu-se mais, muda. E sem a beijar, distraído, perguntou-lhe por que não ia ao médico da parte da tarde.
Lídia abanou a cabeça que sim e fechou os olhos depressa, na pressa de se afastar do seu olhar inquiridor, aterradoramente perto, como se de um momento para o outro a fosse agarrar. Então soube que não suportaria que ele a tocasse e fingiu que havia adormecido de novo. Mas logo que o ouviu sair, bater com a porta da rua, saltou num movimento único e ficou de pé no meio do quarto tremendo muito. Em desequilíbio. Entreabriu os braços naquele gesto largo que vinha fazendo por gosto há umas semanas e logo os seus pés tocaram por inteiro o chão, equilibrando-a.
Foi até ao espelho grande do guarda-vestidos e virando-se tentou novamente ver. As manchas lá estavam, maiores mesmo, dois pequenos círculos rosados e grossos. Tocou primeiro um, depois o outro e soube-lhe bem acariciar-se assim, aliviando um tudo nada aquele ardor. Aquela comichão. Aquela comichão dormente.

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Lídia ficou ali praticamente o resto do dia: entre a cama e o espelho. Ora morrendo de sede ora de fome, ora asfixiando, janela escancarada por onde entrava todo o calor de um Verão sufocante que a banhava em suores entorpecedores que a febre fazia queimar sobre o corpo nu, enrodilhado no chão.
No primeiro dia ainda conseguiu beber algum leite, mas logo o vomitava, espumoso. Mais uma baba, um suco ácido que lhe abria gretas nos lábios ressequidos. Depois, a pouco e pouco ficou a beber só água que engolia em goles pequenos erguendo o pescoço que parecia cada vez mais esguio à medida que ela perdia peso e os ossos iam surgindo sob a pele de um tom levemente rosado; cada vez mais áspera. O marido fugia dela, espantado primeiro e depois repugnado. Teimando em chamar o m édico que quando veio diagnosticou uma depressão e lhe receitou uns comprimidos que ele foi buscar à farmácia e Lídia fingia tomar para logo os cuspir fora quando o via afastar-se.
Na segunda noite disse ao médico que não o queria a dormir a seu lado; mas ele também não desejava ficar, aterrado com o aspecto desfeito do rosto dela, agoniado com o suor que lhe banhava o corpo e foi dormir para a sala, dizendo alto, admirado: “esquisito, há um cheiro esquisito lá em casa”.
- Era um odor a prado; a erva seca e a água corrente por entre as pedras e os cardos, soube Lídia desde o princípio, quando secou os primeiros suores de febre no seu corpo nu, tremendo sobre a cama.
Na terceira noite tornou a acordar de madrugada, enrodilhada aos pés da cômoda de mogno preto que lhe dera a mãe. A cômoda da casa do avô, posta ao canto do quarto grande ao fundo do corredor por onde ela deslizava a medo quando era pequena, em bicos de pés, durante as horas da sesta e todos estavam deitados, nos meses de férias.
Na terceira noite voltou a acordar de madrugada debatendo-se com algo que ela julgou ser um pesadelo. A comichão nas costas aumentara e os braços voltaram a ficar dormentes e sem peso. Passou neles os dedos trêmulos e sentiu pela primeira vez que lhe estava a nascer uma espécie de penugem pelo lado de fora, até aos ombros; uma penugem áspera e doce ao mesmo tempo. Correu tropeçando a abrir a luz e ficou a olhar-se durante muito tempo, com o coração a bater descompassadamente, a olhar o corpo liso e macio que percorreu com as mãos. Ao de leve.
Na manhã seguinte o marido foi encontrá-la dormindo febrilmente, deitada perto da janela. A receber a brisa da manhã já acesa de calor àquela hora. Os cabelos espalhados na alcatifa, tão louros que faziam doer os olhos.
Ficou a olhar assustado a magreza do corpo despido a seus pés. A beleza do corpo despido a seus pés. Curvou-se devagar e aproximou a boca dos seios que beijou ao de leve sentindo aquele odor adocicado que se desprendia da mulher adormecida, lábios entreabertos e hálito queimado, ácido.
Curvou-se e tocou-lhe com a ponta dos dedos nos bicos erectos dos seios docemente em repouso. Mas ela acordou logo e fugiu-lhe dos braços naquele grito estrídulo e modelado que estava a tornar-se um hábito da sua parte.
“Eu não te faço mais – disse baixo levantando-se e olhando-a aterrado, querendo de qualquer forma acalmá-la. E afastou-se até a porta. Foi então que viu as fezes a um canto do quarto. Fugiu enojado. Ao passar na sala reparou que ela deixara de se preocupar de todo com a casa: o pó começava a tomar altura nos móveis, na alcatifa. Só os cinzeiros estavam estranhamente limpos. E apenas nesse instante se apercebeu que Lídia não voltara a fumar.
Deixara até de comer: o leite, o pão, os ovos que trazia todos os dias estavam na cozinha, intactos.
Antes de sair fez um café forte que bebeu agoniado com aquele cheiro doce que estava a tomar conta de tudo. Um cheiro a água estagnada. Ou antes , a animal. Em cima da mesa de mármore da cozinha estava a fruta: golpeada, decepada, caroço à mostra
Debicada? Ficou ali parado sem saber o que pensar. Desnorteado. Com uma repugnância que sem ele querer lhe começava a ser insuportável, a empurrá-lo dali para fora.
Ao fim da tarde voltaria a procurar o médico, decidiu. Lídia havia enlouquecido.
Sentada no parapeito da janela, joelhos subidos à boca, Lídia estremeceu quando o escutou bater a porta da rua depois de andar de cá para lá entre a cozinha e a sala. Ouviu-o ainda a falar ao telefone para o médico a combinar um encontro e adivinhou o perigo.
Lídia adivinhou o perigo.
Naquele dia sentia-se melhor – a febre não voltara, mas a noite fora atormentada e terrível. Só conseguira adormecer já de manhã, horas e horas tentando acalmar aquela comichão nas costas cada vez maior.
No espelho redondo da casa de banho viu que as manchas nas omoplatas haviam crescido muito: eram agora dois círculos largos, imensos, de um rosa intenso, brilhante. Rugosos.
Fascinada voltou a acariciar-se e a acariciar-se, braços cruzados sobre os seios a embrulharem o tronco, mãos tacteando as omoplatas, tentando apagar aquela comichão macia agora quase boa.
Baixou-se sobre o lavatório para beber água da torneira.Deixara de se servir dos copos: inclinava o tronco, recebia a água na boca e em seguida engolia-a , cabeça erguida, o pescoço ondeando ternamente.
Já havia nascido a manhã quando se deitou sob a janela escancarada. A frescura da madrugada a descer-lhe no corpo a secar-lhe da pele os últimos suores da febre que baixara. A sossegar-lhe o cansaço. E o torpor cresceu adormecendo-a finalmente. Fazendo-a esquecer tudo à volta. O próprio corpo.
O medo que ainda aparecia de vez em quando perfurando aquele enevoado, aquele universo difuso, brumoso, onde passara a habitar.
Foi a última vez que dormiu deitada.
“Ela também deixou de falar” – explicou o marido ao médico quando o procurou no consultório ao fim da tarde. E contou-lhe dos dejetos, dos objetos derrubados, da fruta decepada na mesa da cozinha, dos ruídos estranhos e agudos que ouvia vindos do quarto. Do cheiro de animal que enchia a casa.
“Ela também deixou de se vestir” – lembrou-se.
Lídia sabia que tinha de se apressar, acabar aquele percurso de dor e de medo; cada dia menores. Perdidos à medida que mergulhava mais fundo na penumbra, dia após dia. Ficava horas alisando o corpo com a ponta dos dedos, passando a língua nos braços, pelos joelhos, pelos pulsos.
No princípio do mês viera-lhe a menstruação: deixara-a correr livremente pelas coxas, pelas pernas, naquele encarnado vivo de rubi. Debaixo do chuveiro masturbara-se até se sentir exausta. A seus pés a água era nacarada, rosa e sanguínea. Depois frente ao espelho do quarto voltara a acariciar-se, lentamente, entreabrindo os lábios da vagina e vendo o pequeno clitóris tumefacto, erecto e húmido.
Sabia que lhe restavam poucos dias, atenta nos curtos momentos de lucidez que ainda surgiam, aos ruídos e às modificações à sua volta. Tudo o resto lhe era indiferente. Ou melhor, o resto do seu tempo perdia-se informe e feroz. Lídia não se lembrava de alguma vez ter sido voraz. De ter sentido algum dia aquela voracidade.
Corria a defender-se atrás da cama quando o marido entreabria a porta e espreitava para dentro da penumbra onde se abrigava. Naquele fim de tarde o marido trouxe com ele o médico. Tentaram agarrá-la. Mas ela guinchou, mordendo. Arranhando; unhas na direcção dos olhos dos dois, que logo recuaram atemorizados. Aterrados.
“Tem de ser internada” – disse o médico.
Nessa noite Lídia sonhou com as árvores. Pela primeira vez sonhou com as árvores e com o imenso azul do céu, à sua frente. Sentia o ar fresco abrindo-se para a receber: um vento tépido e envolvente passando no seu corpo ágil, em movimento.
Pela primeira vez nessa noite Lídia sonhou com as árvores. Tomou elas o cheiro e as sementes do chão, por entre as ervas macias.
Pela primeira vez nessa noite Lídia sonhou com as árvores, matou a sede no ribeiro e a fome na mata deixando correr na garganta o suco dos frutos e das flores.
Acordou cedo, desceu do espaldar da cama onde se aninhara e foi até a janela escancarada. Olhou para fora, atenta. Mas apenas viu os prédios enormes, à volta, mesmo até lá longe. E por entre os intervalos, lá no cimo, um pouco de céu onde passavam as naves, silenciosas.
Encostou a cabeça aos vidros. Os cabelos caídos pelas costas, tão louros que faziam doer os olhos. Nessa noite Lídia sonhou com rosas: carnudas e vermelhas, sanguíneas. Rosas-chá, pálidas, de pétalas quase transparentes. Rosas cor-de-rosa, mais pequenas, que ela lembrava da quinta do avô, perto do muro que na parte de trás da casa dava para o rio que corria ali perto.
Nessa noite Lídia recuperou a memória. Em movimentos muito leves andou pelo escuro da casa sem tropeçar nos móveis, a tocar, a tactear os objectos, a louça, os contornos dos móveis.
Recuperou a memória. Entendeu que tinha de se apressar e foi encostar-se à janela esperando pela madrugada, que ela aparecesse por entre os prédios enormes à sua frente. E pensou naquela fotografia onde estava no meio das hortências azuis, sorrindo para o pai e para a mãe à sua frente. Porque nessa noite Lídia sonhara com a ilha onde vivera quando era pequena, o mar sombrio todo à roda, a terra a tremer debaixo dos pés, uma, três vezes por dia... E as hortências num colorido intenso. Como os olhos da mãe.
Lídia ficou ali muito tempo. Ouviu o marido levantar-se lá dentro. Percebeu depois que a espreitava entreabrindo a porta. Escutou em seguida o seu telefonema para o médico.
Quando ele saiu foi até à sala, à cozinha, ao escritório. Depois regressou ao quarto e ficou à espera.
Levantou-se um vento quente por volta do meio-dia: mais um bafo afinal pesado e tenso, que quase nem fazia inquietar os ramos das árvores. As cortinas do quarto de Lídia moveram-se um pouco mas logo se aquietaram. Ela estremeceu, sentiu uma ligeira tontura, estremeceu mas não saiu de onde estava, fitando-se e ao quarto através do espelho grande do guarda-vestidos pesado, a um canto. Alisou os ombros e as costas com as unhas durante algum tempo, os braços cruzados à altura do peito, as mãos atiradas para trás, os dedos longos esticados, as unhas compridas a adoçarem no gesto.
Parecia adormecida se não fosse o movimento das mãos quebradas pelos pulsos delgados, de criança.
Agora o seu tempo era estar ali à espera, vigilante a todos os ruídos. Ainda sabendo como era chorar mas já não conseguindo sequer imaginar-se chorando. Porque Lídia perdera para sempre a faculdade de chorar. Mesmo assim o soluço formou-se-lhe no peito à altura do coração. Mas os olhos continuaram secos, sem cor nenhuma, com aquele cintilar agudo do vidro que de longe se poderia confundir com lágrimas.
Lídia recuperara a memória mas não o choro. Não o choro.
Agachou-se, mãos e pés no chão, quando ouviu o marido meter a chave à porta da rua. Recuando para perto da janela aberta. Os olhos fitos na maçaneta de porcelana branca com pequenas flores pintadas a cor-de-rosa e verde.
Ele hesitou um pouco antes de deixar entrar os enfermeiros. Na sala percebeu que ela havia ali estado pelos objectos derrubados, pelo vidro partido da fotografia grande colorida à pena: as hortências tão azuis com os olhos dela, o pequeno casaco de malha encarnado subido na cintura, os joelhos magros e um pouco esfolados de brincar sozinha no pátio, as tranças e o risco ao meio no cabelo ainda cor de mel.
E o cheiro. Ele soube que Lídia havia ali estado pelo cheiro: a terra molhada, a palha, o riacho. A erva seca pelo calor. A animal, também.
Levou devagar a mão à maçaneta da porta do quarto e rodou-a.
Lídia viu a maçaneta rodar. Num golpe de rins saltou para o parapeito da janela a olhar sempre para dentro, a espreitar para dentro da penumbra do quarto. Acocorada. Os cabelos tombados para a frente, soltos, a baterem abaixo dos ombros.
Viu a maçaneta rodar e a porta abrir-se tão lentamente que ao princípio até poderia parecer ter continuado fechada.
Primeiro reparou nele e em seguida nos dois homens, bata branca abotoada atrás. Os três parados à entrada do quarto a olharem para ela, sem um gesto. Nem uma palavra. Apenas ali parados, excessivamente imóveis para serem reais. Só passado algum tempo o marido deu o primeiro passo em sua direcção.
Lídia deixou que pouco a pouco ele se aproximasse mais: cauteloso. A medo. Pés silenciosos postos atrás um do outro. Passos medidos. Olhar astuto.
Como quem caça.
E na altura em que ele ia começar a formar o salto para a agarrar, lançou-se da janela.

Abriu as asas. Cintilantes ao sol da tarde.
E voou.

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Maria Teresa Horta. Lídia: In: VVAA, Contos. Ed. Caminho, 1975.

Comentário sobre o conto Lidia, de Maria Teresa Horta.



O extraordinário conto de Maria Teresa Horta é conduzido por uma narradora heterodiegética, omnisciente, que, com ostensiva liberdade, devassa a interioridade da personagem principal – Lídia – desvendando os seus pensamentos e sentimentos, sem nenhum tipo de controle. Tal estatuto narrativo permite que tenha domínio pleno dos fatos narrados.Uma leitura do texto que flutuasse apenas em volta do seu sentido manifesto, seria, decerto, tão limitada quanto é a compreensão do marido de Lídia para o fenômeno da radical mudança de comportamento dela, interpretada como loucura. Nestes termos, o final do conto seria visto como uma tragédia, desencadeada pelo suicídio da personagem, que, convicta de que se tornara uma ave, abre os braços (asas) e pula da janela para a morte.
Só uma leitura atenta para o sentido latente do texto dá conta da riqueza da mensagem por ele veiculada. Assim, dentre as várias formas de compreender o conto, optamos pela leitura do mesmo enquanto alegoria da libertação da mulher. Assim, a aparente loucura de Lídia nada mais é que um signo da “metamorfose interior” pela qual passa a personagem. A aparente loucura de Lídia pode ser vista como a metáfora da mudança gradativa, realizada por meio de um processo de transformação interior da personagem, que a conduz para uma tomada de consciência acerca da sua condição existencial, do seu estar na vida presa a convenções altamente limitadoras e repressoras, originadas de costumes milenares que subalternizam e tratam a mulher de forma desigual e injusta no contexto social e familiar.
A parte final do conto, com a imagem de Lídia alçando o Vôo, representa metaforicamente o ponto culminante desse processo. O salto para o alto representa literariamente um salto de uma situação negativa e repressora para uma outra oposta e libertadora, feita por opção do sujeito. Vale observar que a mudança de Lídia, sendo interior, não se processa de forma brusca e imediata. Ela ocorre lenta e gradativamente.
Lídia não percebe que lhe nascem asas, apenas vê uma mancha vermelha, porque as asas eram simbólicas, significando a mudança interior, logo não poderiam ser percebida através do espelho. Este não poderia refletir o que se passa no interior da personagem: as mudanças de ordem psicológicas, a reviravolta dos sentimentos, a subversão dos valores, as mudanças em sua visão de mundo, as rupturas com os padrões de comportamento vigentes.
O conto, de orientação feminista, se afirma como uma alegoria do despertar da mulher para a sua condição na sociedade, para o papel que lhe é destinado no âmbito das limitadas possibilidades possíveis.
O texto sugere, através de uma alegoria das asas, a libertação da mulher que vive de acordo com os padrões convencionais da sociedade, à medida que ela rejeita o lugar que lhe é marcado no grupo social e parte para a busca de “um lugar não-marcado”, o qual não seria, necessariamente, o de esposa e dona de casa, limitado ao espaço do lar e da família. Como mulher da classe média, casada, ela ocupa o lugar que lhe é marcado, onde deve permanecer e cumprir os seus deveres. É isto o que se espera dela, esse é o comportamento que deve ter, dentro dos princípios da normalidade estabelecidos pelo grupo social.
O processo de transformação de Lídia avança por etapas, é doloroso e alvo da incompreensão dos que a rodeiam. Todavia, uma vez iniciado, não tem caminho de volta... prossegue até à libertação ser conseguida.
O final do conto é de uma tocante poeticidade, com a imagem do vôo da personagem rumo a libertação e ao recomeço de uma vida até então vivida em função do que dela esperava a família e o grupo social, tal como viveram sua avó, sua mãe ...