18 de abr de 2015

Comentário do conto Os Gestos, de Osman Lins.

Osman Lins ocupa um lugar muito especial no panorama da ficção brasileira contemporânea. Com uma produção literária dicotomizada em duas fases distintas, uma tributária da tradição inovadora e outra, a derradeira, absolutamente revolucionária, ímpar e sem precedentes na literatura produzida no Brasil até então. Resumindo: Osman Lins deixou uma obra extraordinária, digna de merecer destaque entre os mais importantes e notáveis escritores de sua geração, como Guimarães Rosa e Clarice Lispector.
Os Gestos pertence à primeira fase da escrita linsiana. Nessa fase, o autor já produz uma literatura avançada, com componentes bem individualizadores de um estilo rico, que apresenta sensibilidade para o intimismo, psicologismo e “ascendeu à fusão clima regional” e “sondagem interior”, conforme sentenciou A. Bosi
No conto, Os gestos, Osman Lins revela de forma altamente sensível à condição existencial do homem – André - enclausurado no reduzido limite de um quarto, dependente dos familiares, incapacitado para comunicar-se verbalmente, por ter perdido a voz. Ele é um ser solitário e carente de afeto. A impossibilidade de comunicação tem alterado as suas relações com a família e com o mundo. O personagem protagonista André, um homem velho, doente, exilado em si mesmo, contra o silêncio que o angustia e também o desprende, passa a manifestar-se somente através de gestos, às vezes, não entendidos.
André é um homem que fez do silêncio sua linguagem dentre a estranheza dos acontecimentos externos “Do leito o velho André via o céu nublar-se, através da janela, enquanto as folhas da mangueira brilhavam com surda refulgência, como se absorvessem a escassa luz da manhã. Havia um segredo naquela paisagem” (O. Lins, 1994, Os gestos, p. 11). Ele habituou-se a ouvir os sons ao redor, dentro e fora da casa. Os resmungos da mulher e o desespero das filhas, mediante a sua mudez, e desinteresse pelos seus gestos, que não eram lidos.
André encontrava-se derrotado desde que perdera a voz. “Para sempre exilado” (OG, p. 11), era assim que se sentia. Exilado em si mesmo, sem retorno aparente. A ausência da comunicação transita para o ambiente familiar onde ele vive. Na família ninguém esconde ou disfarça a irritabilidade gerada por tanta lida e pela permanência de visitas, como a do amigo Rodolfo: “Queria abraçar o recém-chegado e, quando este se aproximou, ele não conteve o impulso: estendeu os braços e o reteve junto a si, emitindo em gemido nasal, a suportar uma onda de felicidade transbordante, cujos motivos desconhecia” (OG, p 12). O Contato físico funciona como demonstração de aproximação e vínculo comunicativo. O abraço representa uma manifestação de carinho entre as pessoas.
O diálogo não parece ser comum naquela casa, cada um parecia que falava para si, cada um fechado em seu mundinho individual. Essa atmosfera fria do ambiente leva o próprio André a manifesta-se interiormente “Minhas palavras morreram, só os gestos sobrevivem. Afogarei minhas lembranças, não voltarei a escrever uma frase sequer. Igualmente remotos os que me ignoram e os que me amam. Só os gestos, pobres gestos...” (OG, p. 11). A reação das pessoas era a mesma diante daquele quadro. Segundo o narrador, o protagonista preferia essa situação “Nunca mais” (OG, p. 11). Era a sua decisão “Esquecer todas as palavras. Resignar-me ao silêncio” (OG, p. 11). André reconstrói o seu estar no mundo solitário e quase ignorado, numa linguagem que se reduz aos gestos. Não quer saber dos membros da família “Veio-lhe então o desejo de estar só, sem aquelas presenças inúteis, escorraçou-as com um gesto brutal e deitou-se” (OG, p. 13).

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O conto pode ser classificado como uma narrativa lírica. Os componentes líricos da mesma emanam não apenas das sentimentais, profundas e angustiadas reflexões da personagem André, quase sempre vasadas em termos poéticos, advindos da sua visão sensível do mundo que percebe pela janela, ou das suas lembranças do passado mais remoto. A comunicação fria, distante, indiferente, sem afeto com seus familiares, somada à sua mudez, e consequente impossibilidade de expressão, desencadeia a série de reflexões que constitui a maior parte da narrativa.
Como escreve Paulo Antônio F. Gonçalves, “Enquanto as (Mulher, filhas e Rodolfo) são personagens marcadas por uma ou poucas características, André pode ser classificado como personagem esférica: ser complexo, com vários traços característicos, e pontos profundos que podem constituir momentos de mistério e desconhecimento, que podem vir a tornarem-se grandes revelações. Por outro lado, parte dessa pouca cristalização ou definição da personalidade das personagens, constitui parte da coerência interna do conto, limitando ou convencionalizando a caracterização da personagem de acordo com a proposta do conto, no caso, a impotência do ser humano, e sua incapacidade de expressar sua interioridade.
A construção da ambientação em Os gestos, constitui também importante participação na concepção do conto. Sobretudo no parágrafo inicial, com a descrição da paisagem que a personagem vê da janela de seu quarto, imagem descrita dentro do início da primeira cena do conto, ocorrida no inicio da manhã. Unidade essa que inclusive marca o tempo da história da narrativa: uma manhã. “Do leito, o velho André via o céu nublar-se, através da janela, enquanto as folhas da mangueira brilhavam com surda refulgência, como se absorvessem a escassa luz da manhã”. Havia um segredo naquela paisagem". Osman Lins denota nessa passagem o ambiente básico da vida de André na ocasião: o leito, a janela, o céu e a mangueira. E demonstra a já aguçada sensibilidade do protagonista, que percebe detalhes minuciosos daquela singela paisagem. Esse pode ser considerado o espaço real da narrativa. No decorrer do conto, há passagem em que o espaço amplia-se, mas no âmbito imaginário: aos demais cômodos da casa e ao quintal, onde "grandes panos brancos soprados pelo vento – numa fila interminável de lençóis...", e a lugares amenos, lacustres e marítimos, ligados à sua juventude.
O tempo manifesta-se no conto de forma similar ao da ambientação. O tempo da história é de uma manhã, mas as incursões do protagonista por suas reflexões, por seus fluxos de consciência, remontam a um tempo e espaço psicológicos, tornando essa manhã um período mais rico e preenchido, o que pode causar ao leitor a impressão de um tempo decorrido maior que o tempo da história, ou seja, de uma manhã.
Dentre os demais elementos utilizados usualmente para a análise de narrativas, o foco narrativo é um dos mais explorados pelo autor no conto. A narração é feita em 3ª pessoa, por um narrador onisciente seletivo, em razão do uso da exposição direta ou simultânea da análise do pensamento de uma personagem central, sem indícios da presença de um narrador (discurso indireto livre), e da larga utilização da cena. A utilização deste tipo de narrador possibilitou ao autor atingir o lirismo encontrado em toda a obra. A análise dos fluxos de consciência e dos pensamentos da personagem central permitiram a realização de uma dicção intimista, sensível e verossímil, e um grande aprofundamento psíquico na construção da personagem.
Por esse foco narrativo – narrador onisciente seletivo, em detrimento ao onisciente múltiplo seletivo –, tudo o que é transmitido ao leitor é feito através das sensações, pensamentos e sentimentos da personagem central. A caracterização das demais personagens é concebida através do olhar do protagonista, ou seja, um enfoque parcial.
O conteúdo e o enredo formam também elementos fundamentais para o conto Os gestos. Osman Lins utilizou neste a mudez – uma impotência humana frente à rudez da vida, assim como outras incapacidades humanas são utilizadas nos demais contos da obra: a impossibilidade do amor, a psicose, a morte etc. –, como elemento desencadeador de novas percepções e novos sentidos, que possibilitam à personagem vislumbrar novos sentimentos – em relação à vida e a seus parentes próximos –, novas imagens e sons, e memórias antes escondidas.
A incapacidade humana explicita-se nos momentos em que André é incapaz de exprimir-se, como na cena em que contempla a paisagem pela janela no início da manhã, ou na passagem em que rasga o papel oferecido pela filha para escrever o que tencionava dizer num momento em que gesticulava freneticamente, ou na cena em que percebe a transformação da filha de menina para adolescente. Fatos que levam André a um sentimento de indignação em relação à sua condição, ou talvez em relação à condição humana em geral – a incapacidade de expressão dos sentimentos – concluindo tristemente: "‘Isso é inexprimível’, pensou. ‘E que não é? Meus gestos de hoje talvez não sejam menos expressivos que minhas palavras de antes’". Osman Lins deixa claro que a interioridade do ser humano é quase inexprimível. Pode-se fazer algum esboço, nada mais. Isso em razão da disparidade da interioridade dos seres humanos. Seria possível essa troca de impressões somente se houvesse uma grande afinidade entre os seres, como explicitado em uma passagem de Elegíada, conto da mesma obra: "Isso eles não saberão. É íntimo demais, exige um nível de compreensão mútua demasiado grande para ser revelado. Não lhes contarei". Ou seja, não é possível expressar um sentimento interior, mas é possível falar sobre ele, trocar-se impressões, desde que seja um sentimento comum, presente em ambos os interlocutores.
Essa impossibilidade de expressão culmina em uma situação de incompreensibilidade e isolamento entre as personagens, presente em quase todo o enredo do conto. André é despertado de sua reflexão descrita no início do conto – fluxo de consciência – com a chegada de Rodolfo, pessoa por quem André tem afeição, por sentir nele uma compreensão de sua situação interior, e por sentir nele características que se afinam com as suas, como sensibilidade, gosto pela alegria e pela liberdade. Em contrapartida, os amigos são observados pela esposa, inquieta com a presença da visita, não percebendo a simpatia entre os dois, nem a alegria do marido. Com a saída de Rodolfo inicia-se o fato mais central e desencadeador do enredo: a chuva apanha Rodolfo de surpresa na rua, e André torna-se frenético, buscando alguma forma de ajudar o amigo, e toca a sineta chamando todos da casa, que ao chegarem não compreendem suas intenções. André tem uma reação colérica ante essa incompreensão dos familiares, e as três mulheres saem do quarto confusas. André volta à reflexão, e só é despertado com a chegada de Lise para servir-lhe um lanche. A atitude carinhosa da filha o faz arrepender-se de sua anterior reação colérica, e angustiar-se por não poder pedir-lhe desculpas. Mariana entra no quarto, demonstrando suas características de distância em relação ao pai, egoísmo e vaidade – "Papai agora virou menino", "abriu e fechou as gavetas, sem procurar coisa alguma, escrutando disfarçadamente o espelho com enlevo". As filhas saem do quarto, e André retorna aos fluxos de consciência e fecha os olhos. Ao abri-los, depara-se com Mariana em sua frente, de costas para a janela. André inicia a contemplação do que ele chama de um momento único: "ela cruzava um limite: quando se afastasse, os últimos gestos da infância estariam mortos".
No parágrafo final do conto, André parece querer concluir a lição que aprendera naquela manhã. Conclui explicitamente que as sensações, impressões, sentimentos, enfim, a interioridade de cada um, não é exprimível em palavras, mas talvez em gestos. Talvez os gestos transmitam mais significado que as palavras. E por isso devam ser guardados, na memória, no coração, na alma, "Fechou os olhos, para conservar durante o maior tempo possível aquela visão".
Texto de apoio do comentário da autoria de Paulo Antônio F. Gonçalves, Escritor e Pesquisador em Ciências Humanas.


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