18 de abr de 2015

Os Gestos, conto de Osman Lins


Do leito, o velho André via o céu nublar-se, através da janela, enquanto as folhas da mangueira brilhavam com surda refulgência, como se absorvessem a escassa luz da manhã. Havia um segredo naquela paisagem. Durante minutos, ficou a olhá-la e sentiu que a sua grave serenidade o envolvia, trazendo-lhe um bem-estar como não sentia há muito. “E eu não o posso exprimir – lamentou”. Não posso dizer. “Se agitasse a campainha, viria a esposa ou uma das filhas, mas seu gesto em direção à janela não seria entendido”. E ele voltaria a cabeça, contendo a raiva.
Para sempre exilado – pensou. Minhas palavras morreram, só os gestos sobrevivem. Afogarei minhas lembranças, não voltarei a escrever uma frase sequer. Igualmente remotos os que me ignoram e os que me amam. Só os gestos, pobres gestos...
Os pensamentos fatigaram-no. Veio, como de outras vezes, a ideia de que tudo aquilo poderia cessar, restituindo-o à companhia dos seus, mas ele recusou a esperança. Nunca mais - insistiu. Nunca. Esta é que é a verdade. “Súbita, febril impaciência fê-lo agitar-se, trazendo-lhe à mente o seu despertar um mês antes e o horror ao perceber que estava sem voz, mas ele tentou afastar a lembrança. “Esquecer todas as palavras”. Resignar-me ao silêncio.
Um casal de pássaros esvoaçou, além da árvore, dando a impressão de que as asas tocavam o céu cinzento, levantando um ondular de ondas que se cruzavam e extinguiram-se. A ilusão embalou-o, durante segundos achou-se debruçado ante uma paisagem lacustre, vinculada à sua juventude, ignorava por que laços; mas quando um vento agitou a mangueira, o instante presente retomou-o com tal suavidade e de modo tão repentino, que não o surpreendeu: a aspereza da barba sobre o dorso da mão, o desapontamento abafado, o calor do leito e os sons vadios ressurgiram sem choque, como se o distante lago não houvesse fremido e se dissipado num segundo.
Na sala de jantar, a mulher gritou para que apanhassem a roupa estendida no quintal: ele ouviu a irritada exclamação da filha mais nova e seus pés descalços afastarem-se correndo. Sorriu: distraía-se agora imaginando grandes panos brancos soprados pelo vento – uma fila interminável de lençóis túmidos, camisas bracejantes e lenços -, nítidos, reais, arrebatados uma a um por invisíveis que os faziam desaparecer. Algumas pancadas extinguiram-nos: ele reencontrou o céu mais escuro, a copa mais virente: mas só percebeu que haviam batido à porta da rua, quando a mulher cruzou o corredor, magra, lépida, sem olhar para o quarto.
“Uma visita. Inútil imaginar-lhe o rosto. É uma visita. “E ficou a olhar para a entrada, coração aos saltos, buscando reconhecer a voz masculina que se alternava com a da esposa e se avizinhava”. “Rodolfo”! Cinco ou seis dias talvez mais!” Queria abraçar o recém-chegado e quando este se aproximou, ele não conteve o impulso: estendeu os braços e o reteve junto a si, emitindo um gemido nasal, a suportar uma onda de felicidade transbordante, cujos motivos desconhecia. Antes, os encontros com Rodolfo lhe davam prazer, mas não provocavam efusões. Agora, o rosto largo, de maçãs salientes, o semblante sem malícia, o torso amplo, a alva roupa de linho e o ar de vida que ele desprendia, eram coisas inestimáveis e André continuava a estreitá-lo, gemendo, até que o olhar indecifrável da esposa, visto por sobre a nuca do amigo fê-lo afrouxar o amplexo.
Sentado junto à cama, o rapaz se esforçava para não fazer perguntas nem ficar em silêncio: o rosto móbil oscilava entre a gravidade e o riso, detendo-se, às vezes a olhá-lo entre apreensivo e cismático – a expressão que deveria ter ante um filho doente – e o homem indagava se era a sua vitalidade ou a roupa branca o que o fazia repousante. Rodolfo lembrava um marinheiro, sua presença tinha uma amplitude de viagens. Como era diferente daquela mulher por trás dele, em seu vestido escuro, fria e vigilante, pronta a insinuar que a visita se alongava!

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Devido à chuva próxima, ela não teve que intervir. O rapaz levantou-se, estendeu a mão num gesto franco. André fê-lo curvar-se e abraçou-o outra vez, com força, tornando a gemer. Com as duas mãos, apertou-lhe ainda o braço, deixando-o ir e ficou a olhar com gratidão o dorso forte, à espera de um aceno final: Rodolfo perguntava pelas moças, foi embora sem voltar-se.
A mulher tornou ao quarto, com o invariável gesto de enfado que se sucedia às visitas, mesmo breves, o que era a sua maneira de se mostrar solidária. Indagou, com acento imperativo, se ele queria leite, cerrou a janela e saiu.
André ficou só, olhando as rótulas fechadas. Quisera pedir à esposa que as soltasse, deixando-lhe algumas nesgas de céu, mas nem ao menos esboçou o gesto. Imobilizava-o novo acesso de fadiga e ele ficou a ouvir os passos da mulher – um caminhar sorrateiro, em que os pés se encurvavam nos chinelos, contidos, pousando aos poucos no solo, de modo que ao fim do corredor já não eram escutados, embora ele os acompanhasse ainda em imaginação.
A chuva anunciada chegou, banhando o arvoredo invisível, alguém correu na calçada, as primeiras gotas bateram na janela, ressoaram nas telhas. Ele sorriu, enleado, mas uma visão trespassou-o: Rodolfo alcançado pela chuva, a mão protegendo a fronte, a roupa de linho a molhar-se. Foi como se o visse esmagado: oprimiu-o uma compaixão violenta; soergueu-se, tomou a campainha e agitou-a, frenético, até que a mulher voltou-se e pôs-se a fazer-lhe perguntas, com tal rapidez que seria impossível entende-la. As duas filhas surgiram à porta, assustadas; voltou-se para elas e entrou a gesticular, ainda aflito. Veio-lhe então o desejo de estar só, sem aquelas presenças inúteis; escorraçou-as com um gesto brutal e deitou-se.
De olhos cerrados, ouviu-as murmurar. Três mulheres espantadas queriam que lhes dissesse algo. Deviam saber que isto era impossível; sua voz estava morta. Quando pereceriam os olhos? Quando seria a morte da memória?
Afastaram-se os passos confusos, entrelaçando-se como os fios de uma trança. Mariana. Lise e a mulher fundiram-se numa sombra vaga, dispersaram-se e mergulharam na chuva, que as dissolveu.
Ele corre na manhã invernal, os pés descalços cortando poças de água. A prima chama-o, à janela; voam cabelos sobre o rosto infantil, que sorri. A viagem do barco de papel repousa nas mãos da menina. Ele toma-o, curva-se, entrega-o à enxurrada. Nascem veleiros, alvíssimos, libertos do mar.
Mas haveria raízes penetrando-o? Seria ele um campo, um vasto campo sob a chuva, guardado pela noite? Buscava-o uma voz familiar, longínqua, vencendo corredores infindos. Ele reconheceu aquela pressão em seu ombro, voltou-se; cingiu o punho da filha mais velha, encontrando inesperado prazer em sentir-lhe as pulsações.
O rosto inclinado olhava-o, frágil, pálido, fosco. Os anos tinham alongado seus traços, definira-os, mas a infância permanecera na boca e nos olhos, misteriosa, com o seu espanto e sua malícia contida.
André soltou o punho delgado; e enquanto via a sua filha se preparar para servir o leite sem dirigir-lhe a palavra, voltou a lembrar-se de Rodolfo, percebendo, com súbita lucidez, que todas as visitas evitavam agora as frases de esperança e falavam o menos possível com ele. “Todos já aceitaram a mudez como um fato consumado. Lise também, também. Eu não tenho ilusões, mas desejaria que eles, pelo menos... Consumado.”
Ela estendia um biscoito que mergulhara no leite. Isso afastou as preocupações e ele se entregou àquele prazer que não estava só no alimento, mas na curvatura da filha, no modo como os dedos finos se moviam e no riso que ele sentia pairar, fugidio, em algum ponto do rosto apreensivo.
“Lise é um anjo. Ao menos isso, eu...” E mais uma vez lamentou não poder desculpar-se pelo que havia feito, quando ela tivera a idéia de trazer-lhe uma folha de papel com o alfabeto, para que ele indicasse as letras dos nomes que procurava dizer. “Talvez ela tenha compreendido que eu não pude expressar-me e que isto me irritou.” Mas ele gostaria de contar-lhe que, ao lhe arrebatar das mãos o papel e rasga-lo, obedecera a um impulso irresistível, a um violento rancor contra aqueles sinais que pareciam esquivar-se ao seu entendimento e cuja profusão o irritara como um enxame de moscas. E que os momentos seguintes, enquanto alguém soluçava e todos se afastavam do quarto, tinham sido os mais dolorosos de sua vida. “Eu pensava nos gestos. Em não falar, não escrever. Gesticular, apenas. Eu pensava nos gestos."
Segurou o braço da filha, com ânsias, a olhá-la e o sorriso pressentido aflorou, difuso, remoto, evanescente, surpreendendo-o e ferindo-o por não corresponder à sua aflição. Esforçando-se para conter as lágrimas, ele voltou a cabeça.
A chuva continuava firme e apaziguou. Junto, Lise permanecia em silêncio, tão imóvel que André se imaginou sozinho e voltou-se. Ela ofereceu-lhe outro biscoito, como se nada houvesse acontecido.
Mariana apareceu depois, cinto justo, queixo para cima, alteando os seios novos:
- Papai agora virou menino.
Foi à janela, soltou as fasquias; o quarto ficou mais claro, um vento úmido agitou a lâmpada pendente e a irmã repreendeu-a:
- Está louca?
- Por quê?
- Não vê que essa frieza pode fazer mal a ele. Mas pelas frinchas que se sobrepunham, cada vez mais delgadas, até se anularem no alto, apareciam agora a fronde, a chuva e o céu escuro – retalhados e ainda assim atraindo-o com uma sedução tão forte, que ele agitou as mãos, protestando.
-É o vento, papai. Está frio.
Ele se obstinou, as rótulas ficaram abertas. Mariana deixou a janela, foi ao toucador, abriu e fechou as gavetas, sem procurar coisa alguma, escrutando disfarçadamente o espelho, com enlevo. Para ela, a adolescência ainda era uma espécie de conquista nova e absorvente – pensou ele – cegando-a para tudo que não fossem as suas próprias belezas ou as que julgava possuir.
Lise tirou-lhe o guardanapo do pescoço, cobriu seus braços com o lençol e deixou-o. Mariana seguiu-a, petulante, ajeitando os cabelos. A chuva insistia, o vento sacudia a lâmpada. A enxurrada engrossava, pingavam as biqueiras e os rumores se fundiam num som único, manso, que lembrava um caudal.
Do silêncio que se fizera em seu espírito, ele sentiu, à maneira de reflexo que abandonasse um espelho, destacar-se um outro ser, ligado aos seus sentidos, mas alheio às paredes. Modelou toda a copa da árvore semi-invisível, o tronco, a inchação das raízes; as pedras úmidas, além; outras folhagens, um telhado escuro, a erva rala junto ao muro rachado – coisas fugidias, a fasciná-lo com sua consistência de sonho. Fechou os olhos, isto não alterou a contemplação. Com aterrorizada alegria, sentiu-se disperso, livre na vastidão da manhã.
Como dizer? – perguntava. Seria possível? A pergunta continha a certeza de que não chegariam a entendê-lo. Como de outras vezes, descreveria visões para cegos, com termos profanos, que as degradariam. Impossível.
Os rumores da chuva refluíam, levando a paisagem; quando tornaram, vieram sós, desencantados. O velho André abriu os olhos. Mariana estava de costas para a janela, os cotovelos no peitoril e as mãos cruzadas sobre o ventre. Por trás dela, na linha exterior das fasquias, cintilavam gotas de água; cresciam trêmulas, deslizavam, uniam-se, caíam. Uma claridade opalina subia do pescoço, tocava o queixo da moça, banhava sua face direita e extinguia-se na penugem da fonte. O resto das feições, mal se percebia; mas era evidente que algo se anunciava, um evento único, secreto – e ele conteve a respiração. A parte do colo sobre que incidia a luz pálida fremiu, palpitou, os lábios se entreabriram, estremeceram as narinas. Soprou um vento forte, que agitou seus cabelos e precipitou o tombar das gotas de água. Ela moveu a cabeça em direção à luz, lenta, com um suspiro ansioso. O rosto era belo e se renovava, como um ser adormecido que enriquecesse no deslumbramento de um sonho. O pai não se enganara, aquele era um momento único, ela cruzara um limite: quando se afastasse, os últimos gestos da infância estariam mortos.
Isto é inexprimível – pensou. E que não o é? Meus gestos de hoje talvez não sejam menos expressivos que minhas palavras de antes. Fechou os olhos, para conservar durante o maior tempo possível aquela visão. Quando tornou a abri-los, Mariana se fora, a chuva passara e ele viu que estivera dormindo, sem haver sonhado.

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