
Dentre os elementos retórico-estilísticos mais essenciais da lírica maneirista, destacam-se o gosto pela antítese, pelo paradoxo; a preferência pelos oxímoros e pela metáfora conceituosa. A estes estilemas, podem ainda ser acrescentados a metonímia, a comparação, a interrogação, a anáfora e outros de uso menos intensivos.
O soneto que se segue exemplifica tanto esse gosto maneirista pelas antíteses como a imagem idealizada da mulher, tal como Camões a projetou na amada a quem o dedicou:
Um mover d’ olhos, brando e piedoso,
Sem ver de quê; um riso brando e honesto,
Quase forçado; um doce e humilde gesto,
De qualquer alegria duvidoso;
Um despejo quieto e vergonhoso;
Um repouso gravíssimo e modesto;
Ua pura bondade, manifesto
Indício da alma, limpo e gracioso;
Um encolhido ousar; uma brandura;
Um medo sem ter culpa, um ar sereno;
Um longo e obediente sofrimento:
Esta foi a celeste formosura
Da minha Circe, e o mágico veneno
Que pôde transformar meu pensamento.116
Vale também notar o uso da anáfora na construção do texto, conseguida pela repetição do artigo indefinido no início de sucessivos versos.
Os maneiristas podem ser vistos “como a própria encarnação do conflito humano, da contradição e da dúvida expressos nos paradoxos que denotam o labirinto em que se vêem envolvidos”.117 Assim, o gosto pelas antíteses e pelos paradoxos na poesia maneirista não se deve apenas à sedução pela imitação da lírica de Petrarca, mas sim porque estes estilemas se ajustam plenamente à essência do Maneirismo, ou seja, à tensão entre elementos opostos e inconciliáveis, à consciência da propensão do homem para a contradição.
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O paradoxo pode ser encarado como mero recurso de estilo usado para causar efeito da mesma forma que pode ser usado para expressar uma experiência vivenciada, a certeza das coisas ou dos sentimentos que se deseja comunicar. Frei Agostinho da Cruz, por exemplo, usa uma expressão paradoxal para exprimir a dimensão da grandeza de Deus: Ele he nada tudo . Ou ainda, para demonstrar a veneração merecida por tal grandeza, lança mão de expressões como: Sem vós a vida é morte, o prazer mágoa / o descanso trabalho, a glória pena. Por seu lado, Diogo Bernardes, em um dos seus sonetos, lança-se, perplexo, em questionamentos acerca da situação paradoxal em que as complicadas teias do amor o envolvem e aprisionam:
Porque, se nasci livre, me cativo?
E se o quero ser, por que não quero?
Como m’ engano mais com desenganos?
Se já desesperei, que mais espero? 118
Baltazar Estaço foi pródigo no uso das antíteses e dos paradoxos, notadamente em poesias de teor religioso. Em algumas composições, utiliza uma estrutura anafórica de grande efeito em razão do realce que esta concede aos paradoxos e antíteses, através da reiteração expressiva dos elementos que deseja pôr em relevo, como bem exemplifica os quartetos de um soneto deste poeta:
Com vosso amor, he sábio o que he ignorante,
Sem vosso amor, he nescio o que he prudente,
Com vosso amor, se absolve o delinquente,
Sem vosso amor, varia o mais constante.
Com vosso amor, o barbaro he elegante,
Sem vosso amor, tem culpa o que he inocente.
Com vosso amor, he ledo o descontente,
Sem vosso amor, o humilde he arrogante.
Com vosso amor, he claro o mais escuro,
Sem vosso amor, he vil o que he mais nobre,
Com vosso amor, he justo o mais iniquo,
Sem vosso amor, he torpe o que he mais puro,
Com vosso amor, he riquo o que he mais pobre,
Sem vosso amor, he pobre o que he mais riquo.119
O oxímoro, um tipo especial de antítese, nada mais é que a ligação entre duas idéias ou pensamentos que se excluem. “Trata-se, portanto, de uma antítese ad absurdum, tocando no paradoxo,”120 que ocupa lugar de destaque na poesia maneirista, rivalizando com a antítese e o paradoxo no gosto dos poetas.
No célebre soneto Amor é fogo que arde sem se ver, Camões, através do uso intensivo do oxímoro, procura conceituar o amor, definindo-o como um sentimento contraditório:
Amor é fogo que arde e não se vê;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata a lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor? 121
Observe-se que além do uso reiterado do oxímoro, Camões trabalha a sua definição do amor lançando mão de outros recursos comuns à lírica maneirista, dentre os quais, se destaca a anáfora da forma verbal “é”, no início de sucessivos versos.
Os três estilemas pontificam tanto na poesia profana como na poesia religiosa. O uso conceptista das antíteses e dos paradoxos é levado à prática intensivamente, constituindo esses elementos estilísticos os mais específicos da poesia religiosa maneirista e também os que mais aproximações estabelecem com o Barroco, para cuja poesia transitaram.
A metáfora resulta de uma comparação implícita, isto é, em que não surge como evidente o elo ou palavra de ligação: Ondados fios de ouro reluzentes (cabelos louros, ondeados e brilhantes); Olhos [...] em mil divinos raios incendidos (intensamente brilhantes); Honesto riso [...] de perlas e corais (dentes alvos e lábios vermelhos). Nos versos abaixo, tem-se um exemplo de construção em linguagem intensamente metafórica:
Pode um desejo intenso
Arder no peito tanto,
Que à branda e à viva alma o fogo intenso
Lhe gaste as nódoas do terreno manto
E purifique em tanta alteza o espírito
Com olhos imortais
Que faz que leia mais de que vê escrita.122
Sabe-se com Aguiar e Silva que “a metáfora tipicamente maneirista é uma metáfora conceituosa, que envolve um complicado e sutil jogo cerebral de agudeza, de alusões obscuras e imprevistas, de contrastes paradoxais, transformando-se muitas vezes numa técnica virtuosista que dificulta em alto grau a compreensão de um texto”.123
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O soneto que se segue exemplifica tanto esse gosto maneirista pelas antíteses como a imagem idealizada da mulher, tal como Camões a projetou na amada a quem o dedicou:
Um mover d’ olhos, brando e piedoso,
Sem ver de quê; um riso brando e honesto,
Quase forçado; um doce e humilde gesto,
De qualquer alegria duvidoso;
Um despejo quieto e vergonhoso;
Um repouso gravíssimo e modesto;
Ua pura bondade, manifesto
Indício da alma, limpo e gracioso;
Um encolhido ousar; uma brandura;
Um medo sem ter culpa, um ar sereno;
Um longo e obediente sofrimento:
Esta foi a celeste formosura
Da minha Circe, e o mágico veneno
Que pôde transformar meu pensamento.116
Vale também notar o uso da anáfora na construção do texto, conseguida pela repetição do artigo indefinido no início de sucessivos versos.
Os maneiristas podem ser vistos “como a própria encarnação do conflito humano, da contradição e da dúvida expressos nos paradoxos que denotam o labirinto em que se vêem envolvidos”.117 Assim, o gosto pelas antíteses e pelos paradoxos na poesia maneirista não se deve apenas à sedução pela imitação da lírica de Petrarca, mas sim porque estes estilemas se ajustam plenamente à essência do Maneirismo, ou seja, à tensão entre elementos opostos e inconciliáveis, à consciência da propensão do homem para a contradição.
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O paradoxo pode ser encarado como mero recurso de estilo usado para causar efeito da mesma forma que pode ser usado para expressar uma experiência vivenciada, a certeza das coisas ou dos sentimentos que se deseja comunicar. Frei Agostinho da Cruz, por exemplo, usa uma expressão paradoxal para exprimir a dimensão da grandeza de Deus: Ele he nada tudo . Ou ainda, para demonstrar a veneração merecida por tal grandeza, lança mão de expressões como: Sem vós a vida é morte, o prazer mágoa / o descanso trabalho, a glória pena. Por seu lado, Diogo Bernardes, em um dos seus sonetos, lança-se, perplexo, em questionamentos acerca da situação paradoxal em que as complicadas teias do amor o envolvem e aprisionam:
Porque, se nasci livre, me cativo?
E se o quero ser, por que não quero?
Como m’ engano mais com desenganos?
Se já desesperei, que mais espero? 118
Baltazar Estaço foi pródigo no uso das antíteses e dos paradoxos, notadamente em poesias de teor religioso. Em algumas composições, utiliza uma estrutura anafórica de grande efeito em razão do realce que esta concede aos paradoxos e antíteses, através da reiteração expressiva dos elementos que deseja pôr em relevo, como bem exemplifica os quartetos de um soneto deste poeta:
Com vosso amor, he sábio o que he ignorante,
Sem vosso amor, he nescio o que he prudente,
Com vosso amor, se absolve o delinquente,
Sem vosso amor, varia o mais constante.
Com vosso amor, o barbaro he elegante,
Sem vosso amor, tem culpa o que he inocente.
Com vosso amor, he ledo o descontente,
Sem vosso amor, o humilde he arrogante.
Com vosso amor, he claro o mais escuro,
Sem vosso amor, he vil o que he mais nobre,
Com vosso amor, he justo o mais iniquo,
Sem vosso amor, he torpe o que he mais puro,
Com vosso amor, he riquo o que he mais pobre,
Sem vosso amor, he pobre o que he mais riquo.119
O oxímoro, um tipo especial de antítese, nada mais é que a ligação entre duas idéias ou pensamentos que se excluem. “Trata-se, portanto, de uma antítese ad absurdum, tocando no paradoxo,”120 que ocupa lugar de destaque na poesia maneirista, rivalizando com a antítese e o paradoxo no gosto dos poetas.
No célebre soneto Amor é fogo que arde sem se ver, Camões, através do uso intensivo do oxímoro, procura conceituar o amor, definindo-o como um sentimento contraditório:
Amor é fogo que arde e não se vê;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata a lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor? 121
Observe-se que além do uso reiterado do oxímoro, Camões trabalha a sua definição do amor lançando mão de outros recursos comuns à lírica maneirista, dentre os quais, se destaca a anáfora da forma verbal “é”, no início de sucessivos versos.
Os três estilemas pontificam tanto na poesia profana como na poesia religiosa. O uso conceptista das antíteses e dos paradoxos é levado à prática intensivamente, constituindo esses elementos estilísticos os mais específicos da poesia religiosa maneirista e também os que mais aproximações estabelecem com o Barroco, para cuja poesia transitaram.
A metáfora resulta de uma comparação implícita, isto é, em que não surge como evidente o elo ou palavra de ligação: Ondados fios de ouro reluzentes (cabelos louros, ondeados e brilhantes); Olhos [...] em mil divinos raios incendidos (intensamente brilhantes); Honesto riso [...] de perlas e corais (dentes alvos e lábios vermelhos). Nos versos abaixo, tem-se um exemplo de construção em linguagem intensamente metafórica:
Pode um desejo intenso
Arder no peito tanto,
Que à branda e à viva alma o fogo intenso
Lhe gaste as nódoas do terreno manto
E purifique em tanta alteza o espírito
Com olhos imortais
Que faz que leia mais de que vê escrita.122
Sabe-se com Aguiar e Silva que “a metáfora tipicamente maneirista é uma metáfora conceituosa, que envolve um complicado e sutil jogo cerebral de agudeza, de alusões obscuras e imprevistas, de contrastes paradoxais, transformando-se muitas vezes numa técnica virtuosista que dificulta em alto grau a compreensão de um texto”.123
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