
SÓROR VIOLANTE DO CÉU
Apesar de rodeadas de muros conventuais, as mulheres que escreveram ao longo dos anos de seiscentos foram permeadas pelas preocupações dominantes do tempo.
(Isabel Allegro Magalhães)
Nem todas as ordens religiosas isolavam do mundo suas professas, propiciando-lhes convivência com pessoas de ambos os sexos no interior dos conventos, nos quais eram organizadas reuniões que atraíam poetas, artistas e intelectuais, seduzidos pelas atividades também culturais que ali eram realizadas, inclusive a boa música, o canto e a recitação de poesias. Exemplifica bem a liberdade que era dada às religiosas o caso de Sóror Mariana Alcoforado e seu ardente amor – por um cavalheiro francês – revelado nas célebres Cartas portuguesas.[1]
Se as poetisas religiosas chegaram aos nossos dias com o prestígio que lograram alcançar no seu tempo, o mesmo não se deu com as demais poetisas, especialmente com Bernarda Ferreira de Lacerda e Maria de Lara e Meneses. Seus nomes e suas obras ficaram relegados ao esquecimento.
Sóror Violante do Céu nasceu em 1602 e faleceu em 1693, despedindo-se duma longa trajetória existencial, quase toda ela transcorrida entre os faustos da fama conquistada pela qualidade literária de sua obra. Antes de ingressar no convento, atendia pelo nome de Violante da Silveira, ou Violante de Montesino e cultivou a poesia profana, inclusive o lirismo amoroso. Após vestir o hábito, passou a investir o seu talento poético na poesia religiosa, revelando-se uma das mais prestigiadas representantes femininas do Barroco português, conquistando inúmeros prêmios e louvores das academias literárias do seu tempo. Sua produção literária é considerada pela crítica da atualidade um dos momentos altos do conceptualismo barroco português. Dentre as escritoras suas contemporâneas, nenhuma teve a obra mais celebrada que a dela, nem atingiu a culminância do seu sucesso entre os altos representantes da nobreza, da intelectualidade da época e dos próprios soberanos. As sucessivas edições dos seus livros logo se esgotavam, dentro e fora de Portugal.
Sóror Violante do Céu publicou as seguintes obras: Rimas várias (Ruão, 1646); Parnaso lusitano de divinos e humanos versos (Lisboa, 1633, dois volumes); Romance a Cristo crucificado, Solilóquios para antes e depois da Comunhão (Lisboa, 1668); Oitavas a Nossa Senhora da Conceição em aplauso da vitória de Montes Claros (1665); Meditações de missa e preparação afectuosa de uma alma devota (1689), La transformacion por Dios (s/d); El hijo esposo y hermano (comédia, s/d); La vitória por la cruz (comédia, s/d).
Alguns aspectos biográficos de Sóror Violante do Céu merecem uma atenção especial, notadamente no tocante à sua vida sentimental, que ela mesma relata em um “romance” endereçado a Nise, uma amiga íntima da religiosa e também sua fiel confidente. Tal “romance”, que tanto espicaçou a curiosidade dos biógrafos de Sóror Violante, dá conta da sua mal sucedida relação afetiva com um homem a quem amara desde a adolescência e que ela supunha ser merecedor dos seus sentimentos. Desalentada, tomada pela tristeza, escreve:
Considero la prudência
Impossibles lãs venturas,
Forçosos los precipícios,
Lãs esperanças defuntas...
Desiludida com o amor e com os homens, Violante decide entrar para o convento. Ela mesma conta a Nise os sofrimentos que padeceu por causa das decepções amorosas, conflitos, dúvidas, ciúmes e incertezas:
Hizo loucuras por outra,
Fue, sino em las astúcias,
Marcias Ariano em finezas,
Adonis tambien em culpas.
Y dexando-me um retrato
Porque em la muerte futura
No me faltasse la imagem,
Fuesse com falsas desculpas...
Si quede triste, si muerta,
Tu que lo sabes lo julga,
Que tantas vezes me hallaste,
Entre paracismos muda...
Mas, pensando en los agrabios,
Tanto me vencio la furia,
Que admití devertimentos,
Veras amorosas nunca...
O retorno do homem amado, depois de uma breve ausência, ao mesmo tempo em que fez renascer o amor no coração de Violante, encheu-a de dúvidas em relação ao destino que tal sentimento daria à sua vida:
Despues de um lustro de ausência,
Despues de tanta fortuna,
El que negava respuestas
Me haze agora perguntas.
Matarme quiere de nuevo,
Porque como al fim se oculta,
No teme ser homicida,
Y mas de vida que es suya.
Yo, que sujeta me veyo
A correspondencias justas
De un hombre que son finezas
Triunfar de mi amor procura,
Renovadas las heridas,
No sé que elija confusa,
Si buscar a quien me dexa,
Si dexar a quien me busca...
Confrontada com o dilema que exigia de si mesma uma atitude decisória, Violante recorre aos conselhos de Nise, para que consiga livrar-se da indecisão que a angustia:
Si asseguro quien me olvida,
Si olvido quien me asegura,
Obedezco a mis deseos,
Pero sugetome a culpas.
[...]
Oh dame consejo, Nise,
si de que muera no gustas.
Dime, que haré, Nise mia,
Dime, pues mi pena escuchas!
Se Nise deu-lhe ou não o conselho pedido, não se sabe. Todavia Violante achou a solução para o conflito que a torturava na renuncia ao amor, mesmo com algum sofrimento:
Determinada em mi daño,
Em mi ofensa resoluta,
Para um tumulo de vidas
Huy de tantas fortunas.
Ay, que ignorante prudencia!
Ay, que imprudente cordura!
Ay, que furioso delirio!
Ay, que delirante furia!
Levada a tomar o hábito de freira dominicana, no Convento de Nossa Senhora da Rosa, aos 29 anos de idade, e a exilar-se na vida claustral, não motivada por uma imperiosa vocação, mas para proteger-se dos sentimentos que a arrebataram e fizeram sofrer, Violante voltou as costas para o mundo e para o amor. No entanto, em sua poesia, a temática amorosa desponta aqui e ali, como uma força oculta que não consegue, ou talvez não quer sufocar. Mesmo nas poesias de temática religiosa, nas quais suplica ao Criador o perdão para os seus erros passados, é freqüentemente o amor que emerge do seu discurso.
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