8 de fev. de 2013

Desconstrução do mito do amor-paixão na ficção do século XX- (Parte XVI)



As evidentes e multifacetadas alterações que caracterizam a experiência humanas no século em curso também se fazem sentir no tratamento que é dado ao tema AMOR na literatura. 
Dentre as muitas formas de abordagem literária, sobressai a desestruturação do modelo mítico tradicional, como ocorre em “Teorema”, de Herberto Helder, no qual se pode observar uma outra versão desmistificadora do drama de Inês de Castro. O assassinato de Inês, sempre evocado para alimentar a ideologia dominante, neste conto é encarado sob uma outra perspectiva: o assassino conta a sua morte, e impregna toda a narrativa com um tom de crítica às tradições da “velha ordem”

TEOREMA.

Herberto Helder, mais de cinco séculos depois do tragédia amorosa de D. Inês de Castro e D. Pedro de Portugal, escolhe-a como tema de um conto: Teorema. Esta palavra, dicionarizada, significa qualquer proposição que, para ser admitida ou se tornar evidente, precisa ser demonstrada. Quem faz a proposição e quem a demonstra é o que pretendemos descobrir. 
O conto é narrado em primeira pessoa. O narrador é Pero Lopes Coelho, um dos assassinos de Inês. 
A narrativa começa qualificando D. Pedro com o epíteto “o Cruel”. Coelho, o narrador, gosta do Rei “louco, inocente e brutal” e todos os adjetivos são no sentido de caracterizar D. Pedro em clima de violência suavizado por termos como “rosto melancólico” e “meu pobre senhor” e ainda “o rei olha para mim com simpatia”. 
O narrador matara Inês, o que é uma demonstração de crueldade e selvageria semelhante à do Rei, que agora o mata. Não estaria o narrador igualando-se ao Rei e esta não seria a razão de trocarem-se simpatias? Ou ainda – o matar o matador de Inês não seria a complementação de uma mesma obra?
O Narrador declara: “matei-a para salvar o amor do Rei. D. Pedro sabe-o”. É uma narrativa tranqüila em que a selvageria não chega a perturbar-nos. O que nos perturba é exatamente a tranqüilidade, como se a fatalidade histórica estivesse a desfiar seus fatos, isenta de qualquer responsabilidade no desenrolar deles. Inês era a amada-amante do Rei. Coelho mata-a para salvar aquele amor. O Rei sabe disso, é, portanto conivente no crime. E o narrador continua:
“O que este homem trabalhou na nossa obra!”
É de D. Pedro que Coelho fala. O Rei conhece o jogo: trata-se de construir um amor. E ele colabora grandemente: 
“Levou o cadáver da amante de uma ponta a outra do país, às costas da gente do povo., entre e cantos fúnebres. Foi tochas um terrível espetáculo que cidades e lugarejos apreciaram”.
É tudo calmo, tudo pensado, tudo consciente. Coelho, que vai morrer, agradece ao Príncipe a sua morte. E oferece-lhe a de Inês: necessária para que aquele amor se salvasse. Mas aqui a pergunta ao teorema que está sendo demonstrado: se salvasse como, se o grande amor estava sendo construído? A morte de Coelho em praça, era mais um detalhe da construção. E quem era o arquiteto desse amor? O “coração fumegante” aparece e D. Pedro o come. Pedro, “triste, embora, ao mesmo tempo se possa ver nele uma luz muito interior de triunfo”. Tudo se completando, tudo interligado. Pouco a pouco, aquele arquiteto ainda anônimo completando sua obra. E Coelho sabe que vai para o inferno: seu país é católico. Assim, o contexto em que alguma coisa muito grande está sendo construída fica pronto. Faltava o católico inferno. As personagens podem ser colocadas, então, ou no céu ou no inferno, as duas localizações das almas que pertencem ao paradigma do mundo católico. Aquele “matar por amor do amor” , do espírito demoníaco, coloca Coelho no inferno. Mas também Pedro e Inês, “criaturas infernais” ;lá estão. E estão, por que? Se o narrador diminui a paixão de Pedro classificando Inês “amante favorita” e se Inês não matara ninguém e ele nada diz a respeito dos sentimentos dela, por que razão também é colocada nas chamas eternas? Mas, estamos em meio da demonstração de um teorema. Deixemos que ela se complete.
O Rei está “à altura de seu cargo”. Seu povo é um povo “de alma obscura, religiosa”. É cheio de fé: “fé na guerra, na justiça, na crueldade, no amor, na eternidade”. E ele, o Rei, é um exemplo vivo disso tudo. Mas, diz ainda o narrador: “somos todos loucos”. A partir dessa última afirmação, raciocinemos: em primeiro lugar, temos um rei à altura de seu cargo – o de rei. Assim, o rei está de um lado, comandante, e o povo está do outro, os comandados. Mas, a descrição do povo, cheio de fé, demonstra que rei e povo são iguais. E aí une os dois elementos. Vem, então, a frase que o faz juntar-se a rei e povo – “somos todos loucos”. Agora, sim, pode-se questionar essa loucura coletiva: estariam todos, a partir da fé-loucura, construindo o amor de Pedro, parte fundamental do teorema em demonstração?
O narrador vê o azul do céu e vê uma pomba passar. A justiça estava feita. E a justiça é aqui vingança, a colocação das peças em seus lugares próprios. A vingança fecha o círculo, completa o trabalho: por amor ao amor Coelho matara e por amor Pedro completará a obra. A vingança é o instrumento da tranqüilidade e, assim, a pomba e o azul do céu são coerentes no contexto.
A pomba passa em frente à “janela manuelina”, chamada “relíquia” em outra parte do conto. Mas que “relíquia” se D. Manuel ainda viria a pertencer ao contexto histórico?

Análise do texto

Principiemos a nossa análise pelo título do conto, pista consistente para a ambigüidade que o percorre, já que pode ser analisado em dois sentidos. Na sua acepção mais evidente, como a veicularam as ciências matemáticas, “teorema” significa uma proposição demonstrável a partir de axiomas, ou seja, uma proposição que, para ser admitida, precisa de demonstração que comprovará a evidência da tese. Mas existe uma forma de perturbar a lógica deste procedimento, por redução do teorema ao absurdo, inversão de caminho que, no entanto, chegará à mesma verdade. Para que se tenha um exemplo, seria provar que “duas retas paralelas não se encontram” através de uma demonstração que começasse assim: “sejam A e B duas retas paralelas, cujo ponto de encontro é X.” . Ao se verificar que “retas que têm ponto em X são concorrentes e não paralelas”, teríamos a verdade alcançada via absurdo. Ora , é em torno de algo semelhante que gira o “Teorema” de Herberto Helder, aproveitando ao máximo aquele andamento, próprio do conto, rumo ao desfecho e ao epílogo: com as frases “Matei-a para salvar o amor do rei. D. Pedro sabe-o”, ditas por Pero Coelho e colocadas logo no primeiro parágrafo, opera-se a inversão da “verdade histórica”, ou daquilo que se tem tomado como tal – um crime praticado por razões políticas. O que sempre pareceu barbárie e manifestação de instintos primários, adquire altíssima finalidade, em última instância comprometida com o modo de ser do povo português. Esta é a proposição que o conto visa demonstrar.
Atentemos para a estrutura e o significado das orações supracitadas, a falar pela intenção de ser exato: o primeiro período, composto por subordinação, contém uma oração reduzida de infinito, subordinada adverbial final, que dispõe sobre a intencionalidade, a premeditação do objetivo. O segundo período, simples, de verbo no presente, taxativo na redução do sentido essencial a sujeito e predicado, instaura uma estranha conivência entre o rei e sua futura vítima. A estranheza advém não só do ângulo adotado para justificar o crime, mas, acima de tudo, da inesperada aquiescência de D. Pedro. As orações, separadas entre si e do resto do parágrafo por ponto simples, fazem pensar em móbiles, que, embora presos a um ponto comum, flutuam independentes. Ápice do raciocínio que se desenvolve ao longo do parágrafo, dele vão sendo fornecidos indícios que garantem a coesão das idéias: “Gosto deste rei louco, inocente e brutal”, onde “inocência” e “brutalidade”( veja-se a ordem das palavras) são atributos de essência antagônica, a explicar a “loucura” e a tornar obscuros os motivos que levam a vítima a “gostar” de seu algóz. Em seguida, “O rei olha para mim com simpatia” gesto tão menos compreensível quando se considera a violência do castigo que sua real vontade impingirá ao condenado. Nessa seqüência, aquelas orações – “Matei-a para salvar o amor do rei. D. Pedro sabe-o”- adquirem plausibilidade, referendadas pela realidade heterodoxa que o conto instaura. É a “lógica do absurdo”, o primeiro dos sentidos que parece ter a palavra “teorema”.
A segunda acepção vincula-se à etimologia do vocábulo: theorema ( latim), significando “o que se pode contemplar” e, por extensão, “espetáculo”, “festa em geral”. 
Dois pormenores sugerem ter sido o conto concebido como um “espetáculo” que se oferece à “contemplação” das personagens e do leitor : 1) a disposição do cenário como um pequeno circo ( “El-rei D.Pedro, o Cruel, está na janela sobre a praceta onde sobressai a estátua municipal do marquês Sá da Bandeira”), para onde acorrem o “barbeiro de bigode louro” e o populacho curioso e anônimo. Além disso, é evidente a teatralidade de toda a cena: o moço do rei que espera com a bandeja de prata e que, mais tarde, sobe escadas; D. Pedro a erguer ante a multidão o coração que sangra; o banquete sinistro; os soldados que se dispersam, etc.. 2) A incidência do verbo ver ( “vejo”, vê-se”, vendo”, etc) e de seus correlatos ( “olho”, “verifico”, “percebo”,etc), muito notória até meados do conto e escasseando rumo ao epílogo, como se a insistência se fosse tornando desnecessária à medida que progride a “demonstração”.
Considerando-se que “a visão se propõe como inalienável ao conhecimento do ser, podemos conceber os vários apelos às várias formas de ver nos coloca diante de uma realidade ainda ignorada e que precisamos “aprender” a conhecer, “lição” de que se incumbe o conto Teorema.
Dessa perspectiva, juntam-se ambos os significados de “Teorema”: a revisão que o conto se propõe – de um episódio mítico-lendário e, por extensão, de todo o passado histórico português - exige argumentos convincentes, embora de lógica própria, para que o leitor (e/ou espectador) descortine ( e/ou veja) a verdade por trás das aparências.
Outra vez, dois aspectos parecem apelar de imediato para essa fusão de sentidos: 1) além de a perspectiva adotada para o conto ser a do narrador homodiegético ( da chamada 1ª pessoa) , o que implica uma visão da realidade a que se tem de amoldar quem está de fora, aqui no caso ele é Pero Coelho, assassino e assassinado, que reivindica intenção nobre para o seu crime e que bendiz e “compreende” o do seu algoz. Essa equação absurda insere-se num a-tempo, porque a narração acompanha os momentos finais do “morto”, antes, durante e depois do suplício; 2) tanto o raciocínio vai num crescendo, proporcional à ampliação da capacidade de “ver”, que, no instante climático de sua morte, diz o narrador: “Percebo como tudo isto está ligado, como é necessário que todas as coisas se completem”. O verbo “perceber” significa “conceber pelos sentidos, “abranger com a inteligência”, “conhecer”- ato supremo do entendimento, portanto, a indicar que o mistério foi intuído ( decifrado?). A partir deste ponto-chave , que muito significativamente é o da morte, Pero Coelho, com a segurança de quem “conhece”( ou de quem vê”), passa às generalizações: atente-se que no resto do parágrafo predomina o verbo SER e, no seguinte, a primeira pessoa do plural, quando “eu” e “nós” se dissolvem na mesma “loucura”. 

Maria Terezinha do Prado Valadares

Conto Teorema, de Herberto Helder (Parte XVII)




El-rei D. Pedro, o cruel, está na janela sobre a praceta onde sobressai a estátua municipal do marquês Sá da Bandeira. Gosto deste rei louco, inocente e brutal. Puseram-me de joelhos, com as mãos amarradas atrás das costas, mas levanto a cabeça, torno o pescoço para o lado esquerdo, e vejo o rosto violento e melancólico do meu pobre Senhor. Por debaixo da janela onde se encontra, existe uma outra em estilo manuelino, uma relíquia, obra delicada de pedra que resiste ao tempo. D. Pedro deita a vista distraída pela praça fechada pelos seus soldados. Vê a igreja monstruosa do Seminário, retórica de vidraças e nichos, as pombas que pousam na cabeça e nos braços do marquês e vê-me em baixo, ajoelhado, entre alguns dos seus homens. O rei olha para mim com simpatia. Fui condenado por ser um dos assassinos da sua amante favorita, D. Inês. Alguém quis defender-me, dizendo que eu era um patriota. Que desejava salvar o Reino da influência espanhola. Tolice. Não me interessa o Reino. Matei-a para salvar o amor do rei. D. Pedro sabe-o. Olho de novo para a janela onde se debruça. Ele diz um gracejo. Toda a gente ri. 
— Preparem-me esse coelho, que tenho fome.
O rei brinca com o meu nome. O meu apelido é Coelho.
O que este homem trabalhou na nossa obra! Levou o cadáver da amante de uma ponta a outra do país, às costas da gente do povo, entre tochas e cantos fúnebres. Foi um terrível espetáculo, que cidades e lugarejos apreciaram. 
Alguém ordena que me levante e agradeça ao meu Senhor. Levanto-me e fico bem defronte do edifício. Vejo no rés-do-chão o letreiro da Barbearia Vidigal e o barbeiro de bigode louro que veio à porta assistir ao meu suplício. Vejo a janela manuelina e o rei esmagado entre os blocos dos dois prédios ao lado. 
— Senhor — digo eu —, agradeço-te a minha morte. E ofereço-te a morte de D. Inês. Isto era preciso, para que o teu amor se salvasse. 
— Muito bem — respondeu o rei. Arranquem-lhe o coração pelas costas e tragam-mo. 
De novo me ajoelho e vejo os pés dos carrascos de um lado para o outro. Distingo as vozes do povo, a sua ingénua excitação. Escolhem-me um sítio das costas para enterrar o punhal. Estremeço de frio. Foi o punhal que entrou na carne e cortou algumas costelas. Uma pancada de alto a baixo do meu corpo, e verifico que o coração está nas mãos de um dos carrascos. Um moço do rei espera com a bandeja de prata batida estendida sobre a minha cabeça, e onde o coração fumegante é colocado. A multidão grita e aplaude, e só o rosto de D. Pedro está triste, embora, ao mesmo tempo, se possa ver nele uma luz muito interior de triunfo. Percebo como tudo isto está ligado, como é necessário que todas as coisas se completem. Ah, não tenho medo. Sei que vou para o inferno, visto que sou um assassino e o meu país é católico. Matei por amor do amor — e isso é do espírito demoníaco. O rei e a amante também são criaturas infernais. Só a mulher do rei, D. Constança, é do céu. Pudera, com a sua insignificância, a estupidez, o perdão a todas as ofensas. Detesto a rainha. 
O moço sobe a escada com a bandeja onde o meu coração é um molusco quente e sangrento. Vê-se D. Pedro voltar-se, a bandeja aparecer perto do parapeito da janela. O rei sorri delicadamente para o meu coração e levanta-o na mão direita. Mostra-o ao povo, e o sangue escorre-lhe entre os dedos e pelo pulso abaixo. Ouvem-se aplausos. Somos um povo bárbaro e puro, e é uma grande responsabilidade estar à frente de um povo assim. Felizmente o nosso rei encontra-se à altura do seu cargo, entende a nossa alma obscura, religiosa, tão próxima da terra. Somos também um povo cheio de fé. Temos fé na guerra, na justiça, na crueldade, no amor, na eternidade. Somos todos loucos. 
Tombei com a face direita sobre a calçada e, movendo os olhos, posso aperceber-me de um pedaço muito azul de céu, acima dos telhados. Vejo uma pomba passar em frente da janela manuelina. O claxon de um carro expande-se lìricamente no ar. Estamos nos começos de junho. Ainda é primavera. A terra está cheia de seiva. A terra é eterna. À minha volta dizem obscenidades. Alguém sugere que me cortem o pénis. Um moço vai perguntar ao rei se o podem fazer, mas este recusa. 
— Só o coração — diz. E levanta de novo o meu coração, e depois trinca-o ferozmente. A multidão delira, aclama-o, chama-me assassino, cão, e encomenda a alma ao Diabo. Eu gostaria de poder agradecer a este povo bárbaro e puro as suas boas palavras violentas. 
Um filete de sangue escorre pelo queixo de D. Pedro, e vejo os seus maxilares movendo-se ligeiramente. O rei come o meu coração. O barbeiro saiu do estabelecimento e está a meio da praça com a sua bata branca, o seu bigode louro, vendo D. Pedro a comer o meu coração cheio de inteligência do amor e do sentimento da eternidade. O marquês Sá da Bandeira é que ignora tudo, verde e colonialista no alto do seu plinto de granito. As pombas voam à volta, pousam-lhe na cabeça e nos ombros, e cagam-lhe em cima. D. Pedro retira-se, depois de dizer à multidão algumas palavras sobre crime e justiça. Aclama-o o povo mais uma vez, e dispersa. Os soldados também partem, e eu fico só para enfrentar a noite que se aproxima. Esta noite foi feita para nós, para o rei e para mim. Meditaremos. Somos ambos sábios à custa dos nossos crimes e do comum amor à eternidade. O rei estará insone no seu quarto, sabendo que amará para sempre a minha vítima. Talvez não termine aí a sua inspiração, e ele se torne cada vez mais cruel e mais inspirado. O seu corpo ir-se-á reduzindo à força de fogo interior, e a sua paixão será sempre mais vasta e pura. E eu também irei crescendo na minha morte, irei crescendo dentro do rei que comeu o meu coração. D. Inês tomou conta das nossas almas. Ela abandona a carne e torna-se uma fonte, uma labareda. Entra devagar nos poemas e nas cidades. Nada é tão incorruptível como a sua morte. No crisol do inferno manter-nos-emos todos três perenemente límpidos. O povo só terá de receber-nos como alimento, de geração para geração. Que ninguém tenha piedade. E Deus não é chamado para aqui. 

HELDER, Herberto. "Teorema", in: Os Passos em Volta. 3a ed. Editorial Estampa, 1970