6 de nov. de 2010

A Melancolia e o gosto de ser triste

Quero aqui, num lugar hermo e sobrio,
Como nocturno pássaro ficar 
De meus olhos fazendo um grande rio. 
Fernão Correia de Lacerda 

Claude-Gilbert Dubois lembra que a melancolia constitui “um dos temas mais específicos da época”, ela é “uma obsessão” já presente no início do século XVI. À melancolia maneirista, faz-se acompanhar do saturnismo, 102 daí a conseqüente avalanche de poesias saturnianas, expressando a visão desencantada do real, a exacerbação do tédio existencial, o non sense do mundo, a irracionalidade humana. 
Estado de alma que revela inquieta tristeza, a melancolia manifesta-se não somente entre os artistas como entre os escritores, alastrando-se como uma epidemia, uma espécie de doença da moda. Enfim, fazia parte do pathos maneirista o gosto de ser triste, um certo culto à tristeza, tantas vezes e por vários modos expressados na lírica dos poetas do período, muitos dos quais exaltam a tristeza como a quinta-essência do bem, mórbida e masoquisticamente fruída. 
André Falcão de Resende, na poesia que se segue, descreve muito bem esse mal vivenciado por ele próprio, subjugado à tirania dos seus fantasmas interiores: 

Melancolia é mal, que segue aquilo 
De que foge e se aparta a outra gente. 
Os lugares contrários a ter gosto, 
Nesses sente algum gosto, se o sente, 
E pois eu vim a dar nesta doença 
No cabo de mil outras, e mil nojos, 
Que d’ alegre e contente me fizeram 
Melancólico, triste e pensativo, 
Não é muito também que busque parte. 103

É oportuno lembrar que o melancólico é sempre um ser infeliz e solitário, em estado de absoluta inaptidão para viver normalmente a experiência do cotidiano. Ensimesmado, o seu discurso gravita preferencialmente em torno do “eu”, privilegiando uma linguagem pejada de corrosivo pessimismo e de outros elementos que denunciam a sua natureza saturniana, de ser condenado a irremediável infortúnio. 
O soneto, que se segue, exemplifica com justeza uma outra faceta da expressão poética da melancolia: aquela em que a atitude solipsista do sujeito traduz o seu visceral repúdio à convivência humana, aos lugares aprazíveis. Daí a conseqüente busca de isolamento em um cenário árido e áspero, adequado ao estado de tristeza que ensombra o espírito do poeta: 

Onde acharei lugar tão apartado 
E tão isento em tudo da ventura, 
Que, não digo eu de humana criatura, 
Mas nem de feras seja habitado?

Algum bosque medonho e carregado, 
Ou selva solitária, triste e escura, 
Sem fonte clara ou plácida verdura, 
Enfim, lugar conforme a meu cuidado?

Porque ali, nas entranhas dos penedos, 
Em vida morto, sepultado em vida, 
Me queixe copiosa e livremente:

Que, pois a minha pena é sem medida, 
Ali triste serei em dias ledos 
E dias tristes me farão contente. 104

Outro exemplo da busca de mórbido isolamento derivado de estados melancólicos oferece Frei Agostinho da Cruz, quando põe nas palavras pronunciadas por Limabeu o discurso da rejeição à “humana gente”, em meio à natureza selvagem , junto à qual desabafa a amargura resultante do seu desengano com os homens e o mundo: 

Testemunhas sois vós das queixas minhas, 
E porque quero, mais antes que gente, 
As feras e serpentes por vizinhos. 105

Deixei de conversar humana gente 
Para me afeiçoar cá no deserto 
A brutos animais mais brutamente. 106

Embora não sejam exclusividade do Maneirismo, a melancolia e a angústia avultam como estados psicológicos comuns aos maneiristas. De tal forma ela se alastrou que se pode falar nela como “o mal do século”. Os objetos tristes, os lugares apartados, agrestes e sombrios, a solidão e a tristeza tornam-se uma nova fonte de prazer. Há, por assim dizer, uma espécie de volúpia com os estados depressivos e uma nova forma de hedonismo: o prazer masoquista da dor, donde o uso dos tópicos do “fartar-se de tristeza” e “do gosto de ser triste” presentes na poesia de tantos poetas maneiristas.

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4 de nov. de 2010

Poesia Maneirista: Elementos Retóricos e Estilísticos


Dentre os elementos retórico-estilísticos mais essenciais da lírica maneirista, destacam-se o gosto pela antítese, pelo paradoxo; a preferência pelos oxímoros e pela metáfora conceituosa. A estes estilemas, podem ainda ser acrescentados a metonímia, a comparação, a interrogação, a anáfora e outros de uso menos intensivos.
O soneto que se segue exemplifica tanto esse gosto maneirista pelas antíteses como a imagem idealizada da mulher, tal como Camões a projetou na amada a quem o dedicou:

Um mover d’ olhos, brando e piedoso,
Sem ver de quê; um riso brando e honesto,
Quase forçado; um doce e humilde gesto,
De qualquer alegria duvidoso;
Um despejo quieto e vergonhoso;
Um repouso gravíssimo e modesto;
Ua pura bondade, manifesto
Indício da alma, limpo e gracioso;
Um encolhido ousar; uma brandura;
Um medo sem ter culpa, um ar sereno;
Um longo e obediente sofrimento:
Esta foi a celeste formosura
Da minha Circe, e o mágico veneno
Que pôde transformar meu pensamento.116

Vale também notar o uso da anáfora na construção do texto, conseguida pela repetição do artigo indefinido no início de sucessivos versos.
Os maneiristas podem ser vistos “como a própria encarnação do conflito humano, da contradição e da dúvida expressos nos paradoxos que denotam o labirinto em que se vêem envolvidos”.117 Assim, o gosto pelas antíteses e pelos paradoxos na poesia maneirista não se deve apenas à sedução pela imitação da lírica de Petrarca, mas sim porque estes estilemas se ajustam plenamente à essência do Maneirismo, ou seja, à tensão entre elementos opostos e inconciliáveis, à consciência da propensão do homem para a contradição.

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O paradoxo pode ser encarado como mero recurso de estilo usado para causar efeito da mesma forma que pode ser usado para expressar uma experiência vivenciada, a certeza das coisas ou dos sentimentos que se deseja comunicar. Frei Agostinho da Cruz, por exemplo, usa uma expressão paradoxal para exprimir a dimensão da grandeza de Deus: Ele he nada tudo . Ou ainda, para demonstrar a veneração merecida por tal grandeza, lança mão de expressões como: Sem vós a vida é morte, o prazer mágoa / o descanso trabalho, a glória pena. Por seu lado, Diogo Bernardes, em um dos seus sonetos, lança-se, perplexo, em questionamentos acerca da situação paradoxal em que as complicadas teias do amor o envolvem e aprisionam:

Porque, se nasci livre, me cativo?
E se o quero ser, por que não quero?
Como m’ engano mais com desenganos?
Se já desesperei, que mais espero? 118

Baltazar Estaço foi pródigo no uso das antíteses e dos paradoxos, notadamente em poesias de teor religioso. Em algumas composições, utiliza uma estrutura anafórica de grande efeito em razão do realce que esta concede aos paradoxos e antíteses, através da reiteração expressiva dos elementos que deseja pôr em relevo, como bem exemplifica os quartetos de um soneto deste poeta:

Com vosso amor, he sábio o que he ignorante,
Sem vosso amor, he nescio o que he prudente,
Com vosso amor, se absolve o delinquente,
Sem vosso amor, varia o mais constante.

Com vosso amor, o barbaro he elegante,
Sem vosso amor, tem culpa o que he inocente.
Com vosso amor, he ledo o descontente,
Sem vosso amor, o humilde he arrogante.

Com vosso amor, he claro o mais escuro,
Sem vosso amor, he vil o que he mais nobre,
Com vosso amor, he justo o mais iniquo,

Sem vosso amor, he torpe o que he mais puro,
Com vosso amor, he riquo o que he mais pobre,
Sem vosso amor, he pobre o que he mais riquo.119

O oxímoro, um tipo especial de antítese, nada mais é que a ligação entre duas idéias ou pensamentos que se excluem. “Trata-se, portanto, de uma antítese ad absurdum, tocando no paradoxo,”120 que ocupa lugar de destaque na poesia maneirista, rivalizando com a antítese e o paradoxo no gosto dos poetas.
No célebre soneto Amor é fogo que arde sem se ver, Camões, através do uso intensivo do oxímoro, procura conceituar o amor, definindo-o como um sentimento contraditório:

Amor é fogo que arde e não se vê;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata a lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor? 121

Observe-se que além do uso reiterado do oxímoro, Camões trabalha a sua definição do amor lançando mão de outros recursos comuns à lírica maneirista, dentre os quais, se destaca a anáfora da forma verbal “é”, no início de sucessivos versos.
Os três estilemas pontificam tanto na poesia profana como na poesia religiosa. O uso conceptista das antíteses e dos paradoxos é levado à prática intensivamente, constituindo esses elementos estilísticos os mais específicos da poesia religiosa maneirista e também os que mais aproximações estabelecem com o Barroco, para cuja poesia transitaram.
A metáfora resulta de uma comparação implícita, isto é, em que não surge como evidente o elo ou palavra de ligação: Ondados fios de ouro reluzentes (cabelos louros, ondeados e brilhantes); Olhos [...] em mil divinos raios incendidos (intensamente brilhantes); Honesto riso [...] de perlas e corais (dentes alvos e lábios vermelhos). Nos versos abaixo, tem-se um exemplo de construção em linguagem intensamente metafórica:

Pode um desejo intenso
Arder no peito tanto,
Que à branda e à viva alma o fogo intenso
Lhe gaste as nódoas do terreno manto
E purifique em tanta alteza o espírito
Com olhos imortais
Que faz que leia mais de que vê escrita.122

Sabe-se com Aguiar e Silva que “a metáfora tipicamente maneirista é uma metáfora conceituosa, que envolve um complicado e sutil jogo cerebral de agudeza, de alusões obscuras e imprevistas, de contrastes paradoxais, transformando-se muitas vezes numa técnica virtuosista que dificulta em alto grau a compreensão de um texto”.123

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