3 de mar de 2012

ALGUNS TEMAS MANEIRISTAS NA LÍRICA CAMONIANA

Antes de tudo, faz-se necessário tecer algumas considerações acerca de Gil Vicente, pois de tal forma é dada ênfase ao conteúdo crítico-moralizante do seu teatro que, decerto, o seu nome está sempre associado à denúncia das mazelas sociais, da inautenticidade religiosa, enfim dos erros, vícios e pecados dos homens. Todavia, nem tudo quanto escreveu o autor significa preocupação com a moralização do clero e do povo em geral. Há também em sua obra uma nítida preocupação do autor com a condição social adversa dos camponeses (os explorados por nobres e clérigos), dos judeus (marginalizados e perseguidos) e, principalmente das mulheres (subjugadas ao despotismo dos pais e dos maridos).
Para apreendermos a atitude de adesão de Gil Vicente à causa feminina, faz-se necessário que compreendamos a situação da mulher portuguesa no período que se estende da Idade Média até os meados do século XVI, ou seja o período em que Gil Vicente viveu e escreveu a sua obra. Para isto, são valiosas as considerações em torno dessa questão feitas por Joaquim Leitão. Como escreve esse autor, a situação da mulher portuguesa na sociedade do século XVI era a de encarcerada. Solteira, só tinha permissão para ir à Igreja, trajada com um manto que lhe cobria os olhos, para que ninguém pudesse vê-la; a casada era escrava do lar, vivendo para os filhos, o marido e as árduas tarefas domésticas. A mulher casada só poderia sair de casa acompanhada por várias damas de companhia e escudeiros. Andar na rua desacompanhada, sem o consentimento do marido, era arriscar-se a ser difamada. As viúvas, consideradas mulheres mortas para o mundo, retiravam-se para os mosteiros ou recolhiam-se em casa. As noivas que perdiam os noivos às vésperas da realização do casamento, bem como as casadas que tinham seus maridos em outras terras, empenhados nos trabalhos dos descobrimentos e conquistas, como viúvas deveriam comportar-se. A mulher não podia jogar cartas nem tomar vinho, da mesma forma que não escolhia noivo para casar-se, ficando à mercê da vontade dos pais, mais das vezes sendo forçadas a aceitar casamentos com pessoas que lhes desagradavam.[1]
A mentalidade imperante na época, segundo a qual a mulher não podia ter a mesma liberdade concedida ao homem, pautava-se em conceitos que remontam às Sagradas Escrituras divulgados e reforçados através dos pronunciamentos de teólogos que caracterizavam o ser feminino como um ser inferior, com base em estereótipos cujas raízes fincam-se no fértil terreno do discurso normativo cristão, o qual associa a mulher à imagem negativa de Eva, tradicional símbolo do mal. A mulher teria, portanto de ser vigiada e controlada pelo homem.
A alarmante proliferação de tais estereótipos que, desde a Idade Média, vinha se alastrando no seio da sociedade, exercia considerável e perniciosa influência na formação de uma imagem nada lisonjeira acerca do sexo feminino. O papel que cabia à mulher na sociedade era bem limitado: casar, ter filhos e ser boa mãe, boa esposa e boa dona de casa. Esse era o seu lugar marcado no esquema traçado pela sociedade, era isso o que se esperava dela. O casamento não era, portanto, algo que se anunciava como perspectiva de realização e de felicidade, como bem o comprova a opção pela vida no convento, como fuga aos casamentos arranjados ou não.
Na obra de Gil Vicente a mulher ocupa um lugar muito especial, na medida em que não é vista sob a perspectiva da misoginia e do preconceito. Ao contrário disso, chama atenção ao leitor atento para o tratamento diferenciado que o autor concede às suas personagens femininas. Mesmo a imagem que cultiva de Eva não corresponde a uma figura malévola, como podemos ver na peça Breve sumário da história de Deus. No quadro bíblico do Gênesis, Eva aparece no Paraíso como uma criatura de Deus, “coberta de grande esplendor”, ela é a “senhora formosa”, é “rainha”, é “a mais avisada senhora do mundo”, inocente, imaculada, enfim com características que a aproximam da perfeição. Assim, Eva cometeu o “vil passo” levada pelo ardil preparado por agentes do sexo masculino – Lúcifer e Belzebu – imbatíveis em dissimulação e ciladas. No Auto Pastoril Castelhano, Gil Vicente livra Eva da responsabilidade pela perda do Paraíso, não faz dela um arquétipo da perdição, na medida em que a faz dividir com Adão o pecado, recusando assim a idéia de que pecado cometido é exclusivamente feminino.

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