27 de dez de 2010

O Maneirismo Literário Português.

Cabe a Jorge de Sena e a Vítor Manuel de Aguiar e Silva o mérito pelo conhecimento que hoje se tem do Maneirismo literário português. O primeiro, por ter sido o pioneiro grito de alerta, ainda na década de cinqüenta, chamando a atenção dos estudiosos da literatura do seu país para a existência de um período maneirista e para a necessidade de sua inclusão no esquema periodológico da história da literatura portuguesa. O segundo, por ter dado início a um prolongado e minucioso trabalho nos acervos bibliotecários portugueses e europeus com o interesse, como ele mesmo o declara, de compreender “a categoria estilístico-periodológica que os historiadores e críticos propuseram como indispensável para uma mais alargada e rigorosa compreensão da arte e da literatura européias pós-renascentistas – o Maneirismo”. [1] 
Esse trabalho, apresentado na Universidade de Coimbra como tese de doutorado de Aguiar e Silva, foi publicado em 1971 com o título de Maneirismo e Barroco na poesia lírica portuguesa, constitui ainda nos dias atuais o mais completo estudo sobre o assunto, lamentavelmente esgotado, desde a década de setenta. Seu autor não somente formulou o conceito do Maneirismo literário português como determinou as suas particularidades de estilo, definiu os seus limites cronológicos e os valores estéticos que afirmam e legitimam a sua autonomia em relação ao Renascimento e ao Barroco. Além disso, Aguiar e Silva resgatou do esquecimento autores ignorados e obras relegadas ao olvido, bem como integrou nesse estilo de época os autores que, equivocadamente, estavam inseridos em um Renascimento ao qual nunca pertenceram. 
No atualizado esquema periodológico da história da literatura portuguesa, o Maneirismo é um período literário situado entre o Renascimento e o Barroco. Os estudos de Aguiar e Silva apontam as primeiras manifestações do Maneirismo português antes do meado do século XVI, na obra do Infante D. Luís, falecido em 1555, cuja produção poética revela um discurso marcado pela irrupção de inequívocos sinais de superação do modelo renascentista. A partir da segunda metade desse século, o que na obra do Infante poderia ser considerado apenas um caso isolado de desvio do cânone renascentista passa a constituir a linha de força de uma nova prática literária acentuadamente distanciada dos valores estéticos e ideológicos do Renascimento.
A poesia que surge na segunda metade do século XVI já não se mostra subordinada ao dogmatismo dos “modelos” e à tirania da imitação às normas e padrões estéticos hauridos nos autores da Antigüidade Clássica greco-latina; já não se entusiasma com os legados de uma cultura essencialmente pagã, definidora de uma particularíssima visão do mundo, da vida e do homem, cujo sentido se esvaíra na inquietação espiritual e na instabilidade material do homem quinhentista.
O Maneirismo é, portanto, um estilo que se afirma através de uma atitude eminentemente anticlássica; um estilo que, no dizer de Jorge de Sena, “ se integra numa problemática ideológica e cultural que rompe, em pontos capitais, com as normas, os padrões e os valores tipicamente renascentistas”.[2] Tendo o seu início na segunda metade do século XVI, “o Maneirismo que se inicia com Camões e os tão mal conhecidos poetas confundidos com ele ou tidos como servis imitadores seus”,[3] prolongou-se até os últimos anos da segunda década do século XVII, época esta que assinala o desaparecimento dos seus derradeiros representantes e a irrupção na cena literária de novas gerações de  poetas em cujas obras irrompiam os primeiros sinais da mudança de valores estéticos que iriam logo mais triunfar e caracterizar um novo estilo de época, um outro período literário: o Barroco.
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Zenóbia Collares Moreira. A Poesia Maneirista Portuguesa, Natal: EDUFRN, p. 30-31.

Imagem: Retrato do poeta maneirista Luís de Camões, autor desconhecido.
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Notas
[1] Vítor Manuel de Aguiar e Silva, Maneirismo e barroco na poesia lírica portuguesa, p. 10
.[2] Jorge de Sena, Maneirismo e barroquismo na poesia portuguesa dos séculos XVI e XVII, p.29.
[3] Idem, ibidem.


13 de dez de 2010

Temas da poesia maneirista.



1) A CONDIÇÃO EXISTENCIAL DO HOMEM

Constitui um dos traços essenciais do Renascimento a confiança e a crença na capacidade do homem para promover o seu próprio crescimento intelectual, moral e espiritual. Autoconfiante, harmonioso e equilibrado, o homem do período renascentista não renuncia aos prazeres da vida terrena, desfrutando as atrações e solicitações mundanas, conciliando as exigências do corpo e do espírito, a razão e a fé, o mundanismo e o ascetismo, pondo em boa harmonia as eventuais tensões entre o espírito secular renascentista e o ethos cristão.
Por conseqüência, “atenuam-se, no seu espírito, o sentido do pecado, o sentimento da culpa e a consciência do caráter radicalmente agônico da natureza humana”. Todavia, esse ideal de homem plasmado pelos humanistas não teve continuidade no período maneirista. As crenças e ideais otimistas envolvendo o homem foram à deriva, juntamente com o Humanismo, no turbilhão da “crise do Renascimento”, rematada de várias maneiras pela sombria visão de mundo baseada numa concepção pessimista do homem e da vida. 
A retórica contra-reformista tratava de inculcar nos espíritos, obstinada e insistentemente, com acentuada energia e persuasão, uma imagem negativa do homem. Ele era retratado como um ser inferior, estigmatizado pelo pecado desde a sua origem, irrecorrivelmente atormentado e cindido por contradições internas, ora subjugado aos apelos mundanos e aos gozos da carne, ora liberto de tais servidões, arrependido e penitente, percorrendo seu caminho existencial como um desorientado. A esse homem deserdado da fortuna e da felicidade, condenado a uma vida efêmera, em mundo inóspito, ilusório e pródigo em enganos, só resta, como via para a sua salvação, a fuga da vida mundana, o desprezo pelas coisas materiais e a busca de Deus. 
Assim, fora do cumprimento dos preceitos da Igreja, longe da austeridade e do rigor do ascetismo, não poderia o homem escapar à perda da graça divina. Graça esta que lhe abriria as portas da felicidade eterna, conduzindo-o à “terra da promissão”, ao lugar perfeito onde as almas dos justos, dos fiéis e obedientes seguidores dos ditames da religião encontrariam, para sempre, a bem-aventurança, nunca vislumbrada na vida terrena. 
Esse quadro, tão falho em positividade, revela a falência dos princípios humanistas, que exaltavam e glorificavam a força humana, que apostavam no poder e na bondade natural do homem. eles foram levados à extinção pela própria impossibilidade de coexistirem com os princípios contra-reformistas, que usurpavam a liberdade do homem e negavam a sua inerente inclinação para o bem. Não é, portanto, o homem em si mesmo ou a exaltação das suas potencialidades morais, dos seus predicados espirituais e de sua intrínseca bondade o que centraliza os interesses dos poetas maneiristas.

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29 de nov de 2010

O sentido trágico da vida.


Oh vida humana, vã, caduca e breve
Oh glória dela, ou falsa, ou imperfeita!
                                            Camões 

Confrontados com a crise geral que se abate sobre o homem e a sociedade pós-renascentista, “os maneiristas passam a integrar obsessivamente o sentimento trágico da vida, a postura melancólica e saturniana, a contemplação da morte”.[1] Esta atitude existencial que subjaz à lírica maneirista tem ampla conexão com convicção dos poetas acerca da predestinação do homem à dor e ao sofrimento, à sua destinação a uma vida transitória e infeliz, que apenas serve como um doloroso hiato entre o berço e o túmulo. Assim sendo, os maneiristas não concedem à vida nenhuma possibilidade de ser encarada como trajetória harmoniosa e serena, conforme se depreende nos versos de Diogo Bernardes:

Se toda nossa vida é desafio,
Se sobre nada tem seu fundamento
Que descuido este meu? qu’errado intento?
Que pretendo? Qu’espero? Em que me fio?
Oh vida humana, folha em seco estio
Levada pelo ar de qualquer vento.[2]

Toda ela transcorrida em agonias, em dores, em pranto e em desventuras a vida só enseja ao homem motivos para tormentos físicos, morais e espirituais. Regida pela tirania de Chronos, que a todos metamorfoseia e destrói em seu fluir contínuo, a vida é concebida como dolorosa via crucis do homem para o seu inescapável destino: a decrepitude e a morte.
O sentido agônico da vida emerge, mais das vezes, de um agudo sentimento de luta exaustiva, sem defesa, entre os desejos do corpo e as solicitações do espírito, quando a esta não se somam outras lutas, do homem inteiro consigo mesmo - a mim sigo a mim persigo / por ser imigo de mim- e com o mundo, que é, por tudo quanto o constitui, um eficaz e potente inimigo. Este sentimento de que a vida é luta contínua não seria tão doloroso se viesse desacompanhado da consciência de que o mundo não é um lugar paradisíaco, mas o lugar no qual o homem é exilado e nele paga o amargo tributo da culpa original, sob a forma do sofrimento para a própria alma desterrada da graça divina:

Minh’alma de mim cansada
Chora sua miserável condição
Vendo-se longe de vós desterrada.[3]

Aguiar e Silva chama a atenção para a predileção dos maneiristas pelas imagens do mar revoltoso, tempestuoso e ameaçador, cheio de perigos e armadilhas, para metaforizar a condição dramática e inelutável do percurso existencial do homem.[4]
Frei Agostinho da Cruz, Fernão Álvares do Oriente e Diogo Bernardes incluem-se entre os muitos poetas que fizeram largo uso dessa imagem, tal como faz Estevão Rodrigues de Castro para exprimir o seu estar no mundo em perigo e insegurança:

Com perigoso mar e vento imigo
Vou desgarrado em tanto desamparo
Perdido em mar, em terra mais perdido.[5]

Seguindo a visão cristã acerca da vida, Frei Agostinho concebe-a como um “vale de lágrimas”. Para esse frade-poeta, o sentido da vida como luta extenuante desperta em sua alma um anseio de libertação, uma doce contemplação da morte, aguardada como promessa de bem-aventurança na eternidade celestial: lá nesse etéreo assento, lá onde a luz jamais perde a figura [...]; lá onde tudo é suave e deleitoso.
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Zenóbia Collares Moreira. A poesia maneirista portuguesa. 1999.

Imagem: Desespero. Autor desconhecido.

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NOTAS

[i] Vasco Graça Moura. “O Maneirismo ao pé das Letras”, in Pintura maneirista em Portugal,p.12.
[ii] Diogo Bernardes, Obras ...,p. 18.
[iii] Frei Agostinho da Cruz, Poesias selectas, p. 99.
[iv] Vitor Manuel de Aguiar e Silva. op. cit., p.229.
[v] Estevão Rodrigues de Castro,Cancioneiro Fernandes Tomás, fl. 27v.


23 de nov de 2010

O Mundo: Miragem, Sonho vão, Desconcerto.


Que poderei do mundo já querer 
Se naquilo em que pus tamanho amor 
Não vi senão desgosto e desamor. 
Camões 

O mundo, como a vida, é visto igualmente sob o prisma de um exacerbado negativismo pelos poetas maneiristas. Para eles, o mundo é cruel, enganador; é lugar onde imperam a maldade, a desgraça, o caos, os conflitos; onde o homem é espreitado por perigos de toda a espécie, onde caminhará, como grande vítima de um inclemente calvário, até o seu instante final. 
Na visão de Frei Agostinho, o mundo é apenas aparência, é sonho vão que enleia a vida, é terra maldita. A dor decorrente do seu desengano com o mundo resultou em muitas composições poéticas nas quais, não raro, ele expressa a sua inquietação: 

Triste de quem descansa, espera e dorme 
Nos prazeres da terra mascarados 
Cujo fruto é pesar e fim disforme, 
Que pretende dum mundo falso e cego? 32

A descrença na bondade do mundo radica no sentimento de desengano acerca do sentido da existência humana, toda ela um grande engano, uma imensa confusão, uma luta agônica e esgotante. Desenganados, certos poetas canalizam o desgosto das coisas mundanas para a expressão de uma intensa religiosidade. 
Integra-se nessa linha o “tema do mundo desconcertado”, que abre espaço para queixas e críticas dos poetas contra a desordem, a injustiça, a corrupção e a inversão de valores prevalecentes na sociedade do seu tempo, que Pedro da Costa Perestrelo tão bem traduz em uma das suas poesias: 

A doidice governa o mundo e executa 
[...] 
A razão se despreza, e se confuta, 
A justiça nas armas se converte, 
A virtude por vício se reputa. 
E como tal rendida se somete, 
E per vários extremos c’ o violência 
A ordem toda em tudo se perverte. 33

(LEIA MAIS, clicando a imagem abaixo)

Em sua lírica, Camões prodigalizou plangentes lamentos pelos desconcertos do mundo. No longo poema que escreveu sobre o assunto: Oitavas a um amigo sobre o desconcerto do mundo, o poeta vai enumerando e analisando, melancólica e criticamente, o espetáculo que este proporciona, protagonizado pelas mais diversas facetas que assumem os desequilíbrios sociais e morais dos quais ninguém está isento: 

Quem pode ser no mundo tão quieto, 
Ou quem terá tão livre o pensamento, 
Quem tão exp’rimentado e tão discreto, 
Tão fora, enfim, de humano entendimento 
Que, ou com público efeito, ou com secreto, 
Lhe não revolva e espante o sentimento, 
Deixando-lhe o juízo quase incerto, 
Ver e notar do mundo o desconcerto? 34

Notar que o poeta rejeita qualquer manifestação de espanto por parte dos homens sensíveis, dos homens conscientes, perante a realidade caótica de um mundo às avessas. 
Em outros passos de sua lírica, Camões torna a fazer do “desconcerto do mundo” matéria poética, mercê da reflexão sobre a condição do homem em meio à desordem, à inversão de valores e à injustiça prevalescentes numa sociedade cujo mal era, antes de tudo, moral: 

Os bons vi sempre passar 
No mundo graves tormentos 
E, para mais me espantar, 
Os maus vi sempre nadar 
Em mar de contentamentos35

No soneto, Correm turvas as águas deste rio, o poeta retoma as suas reflexões sobre as manifestações do desconcerto do mundo social, contrapondo-se à ordem do tempo natural em sua previsibilidade e constância: 

Correm turvas as águas deste rio, 
Que as do céu e as do monte enturbaram; 
Os campos florescidos se secaram; 
Intratável se fez o vale, e frio. 
Passou o verão, passou o ardente estio; 
Uas cousas por outras se trocaram; 
Os fementidos Fados já deixaram 
Do mundo o regimento ou desvario. 
Tem o tempo a sua ordem já sabida; 
O mundo não; mas anda tão confuso, 
Que parece que dele Deus se esquece. 
Casos, opiniões, natura e uso 
Fazem que nos pareça desta vida 
Que não há nela mais que o que parece.36

Também Os Lusíadas são pontilhados por versos críticos, quando não são amargos, contra os destrambelhos que o poeta observa na sociedade do seu tempo. Nos exórdios, que encerram sete dos seus dez cantos, por exemplo, sobressaem a melancolia, o desengano, o pessimismo, a consciência do autor acerca do desconcerto do mundo e da insignificância do homem, tão genuinamente maneiristas. 
Da consciência que tem o homem maneirista da sua condição de habitante de um mundo equivocado, incoerente e caótico, irrompe na poesia a imagem do mundo como metáfora do labirinto. 
O motivo do labirinto não é criação dos maneiristas, ele remonta a épocas recuadíssimas da história do homem no antigo Egito e na Grécia, por exemplo. Todavia, ele ressurge de um modo impetuoso e decisivo na arte e na literatura do século XVI, prolongando-se pelo século XVII. 
Gustav René Hocke define o labirinto como “o espelho do desengano,” que mostra ao homem “o reverso da enganosa realidade natural, do mundo em geral, pois este não é mais que um labirinto de enredos, falsidades e quimeras”.37
A imagem do labirinto traduz o pessimismo de quem constata a sua própria incapacidade de resolver o emaranhado angustiante da existência ante os despautérios de um mundo regido pelo caos. A imagem do labirinto aparece, então, como metáfora de todas as situações em que o homem se sente ameaçado ou perdido nos intrincados caminhos das suas emoções, dos seus sentimentos ou dos destrambelhos do mundo, enfrentando a possibilidade de se perder moral, mental ou espiritualmente, e de não encontrar a saída redentora que o salvaria e libertaria ou o caminho correto que deve trilhar em sua trajetória existencial. 
Martim de Castro Rio, Elloy de Sá Sotto Maior, Vasco Mousinho de Quevedo Castelbranco e Fernão Rodrigues Lobo Soropita incluem-se entre os poetas que mais desenvolveram esta temática em suas poesias. 
Nos trechos que se seguem, os dois primeiros expressam os seus conflitos utilizando a imagem do labirinto; o segundo lança mão de tal imagem para expor uma visão labiríntica da vida e o último a emprega para exprimir, de forma negativa, a atmosfera ameaçadora que envolve o seu sentimento amoroso: 

Perdi-me dentro de mim como em deserto, 
Minha alma está metida em labirinto 
E posto em tal perigo, já me sinto cair 
Noutro maior, nele encoberto. 38

É tal o laberinto em que me vejo, 
Tem-me a fortuna armado tal enredo, 
Que de vir a dar nele tenho medo, 
Pois quanto me faz mal, por bom elejo.39

Neste árduo Labirinto onde me guio, 
Sem esperança alguma de saída 
Mostrai senõr o fio à minha vida, 
Pois está minha vida já no fio. 40

No cego labirinto de um cuidado 
Onde tudo é pesado e descontente 
Perseguido de amor injustamente, 
De mil monstros cruéis ando cercado. 41

O Maneirismo, conforme ficou explicitado, ultrapassa a mera expressão de uma crise espiritual. No entender de Gustav René Hocke, mais que isto, ele significa a tomada de consciência do homem acerca “de um mundo que se desagrega e de uma crise epocal”.42 A esta crise, que afeta a todos, se soma, por inevitável conseqüência, uma desencantada visão do real, geradora de uma inquietude que, em muitos casos, se exaspera em amargura, suscitando versos que expressam o non sense do mundo e, nele, o papel protagonizado pelo homem: o de um ser esmagado pela aflição e invadido por impotente angústia. 
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33 Pedro da Costa Perestrelo, 
34 Luís de Camões, Op. cit., vol. II, p. 168. 
35 Luís de Camões, Rimas, p. 118. 
36 Id. Ibid., vol. I, p. 259. 
37 Gustav René Hocke, El mundo como laberinto, vol. I, p. 195. 
38 Martim Castro do Rio, Canc. Fernandes Tomás, fl. 137. 
39 Elloy de Sá Sotto Maior, Jardim do ceo, p. 31. 
40 Vasco Mousinho de Quevedo Castelbranco, Op. cit., p. 61v. 
41 Fernão Rodrigues Lobo, Canc. Fernandes Tomás, fl. 58r. 
42 Gustav René Hocke, El mundo como laberinto, vol. I, p. 195.


Zenóbia Collares Moreira

22 de nov de 2010

O Tempo e o Sentido Agônico da Mudança


Todas as cousas vejo mudadas,
Porque o tempo ligeiro não consente
Que estejam de firmeza acompanhadas.
Camões

Na temática maneirista, a imagem do tempo em seu fluir contínuo e a consciência da ação modificadora e destruidora que exerce sobre o homem e as coisas estão sempre associadas à angústia pela instabilidade e pela fugacidade da duração da vida.
Nas reflexões dos poetas acerca do tempo, não é a constatação de que todas as coisas submetem-se a uma constante mutação o que figura como motivo de tristeza e lamentações. O que os perturba de maneira muito especial é o trágico e paradoxal contraste -já poetizado por Horácio em uma das suas odes- entre o tempo natural e o tempo humano. Submetida à ordem do tempo natural, a natureza passa por um processo de mudança que lhe assegura um renovar cíclico e contínuo, que não tem correspondência na vida humana. O tempo humano é inexoravelmente linear e irreversível. As alterações que, em sua passagem, vai impondo ao homem são para pior, na medida em que este só tem uma direção a seguir: o do desgaste físico, da degradação da mente e o caminho sem regresso para o fim da sua existência. Com efeito, O tempo a quem tudo se rende; [...]O tempo que nas cousas pode tanto 43 é impiedoso em sua força aniquiladora, e irreversível para o homem, a quem só oferece o desengano:

O tempo que tão leve vai voando
Delio, não torna mais e assim fugindo,
Tamanhos desenganos nos vai dando.44

O tempo é ainda um outro aliado da vida na mutabilidade das coisas, em sua enganadora e superficial regularidade, na inconstância de tudo. Tão célere em seu percurso, tão breve nas alegrias, instala-se com perspectivas de demora, quando portador de mágoas em que é pródigo:

Os meus alegres, venturosos dias
Passaram como raio brevemente
Movem-s’ os tristes mais pesadamente
Após das fugitivas alegrias. 45

A consciência aguçada acerca da fugacidade do tempo constitui o elemento centralizador de onde parte uma série de ramificações temáticas que lhe são tributárias: a efemeridade e a transitoriedade da vida, dos prazeres, da juventude, da beleza; a angústia e a impotência do homem perante a passagem do tempo que o arrasta, gradativa e irreversivelmente, para a senilidade, para a decrepitude, para a morte.

(LEIA MAIS, clicando na franse abaixo)


A certeza da degradação e finitude, aliada à convicção de que não existe escapatória ao processo de aniquilação física e mental a que está destinado, deveria estimular o homem a valorizar e a fruir avidamente o tempo presente, a sua juventude e a plenitude de sua energia vital, enquanto isto lhe é possível. Todavia, não é esta atitude de comprazimento com os apelos da vida e do corpo o que o inspira. Daí a ausência no lirismo maneirista do conhecido tema horaciano do carpe diem, proveniente de uma citação do poeta latino que lembra a brevidade da vida e a fugacidade do tempo, sugerindo, no entanto, a máxima fruição do momento presente, a busca da felicidade imediata. Este tema, juntamente com o do collige, virgo, rosas, outro exilado da lírica maneirista, eram encarecidos ao extremo pelos poetas renascentistas. Ambos perderam o sentido ou a adequação perante a sombria e amarga mundividência maneirista que, em nenhuma circunstância, se mostra aberta ao elogio da vida, à celebração dos prazeres terrenos.
Em lugar do comprazimento com os falaciosos apelos do mundo, os poetas maneiristas preferem as alegrias do espírito, o refúgio em Deus; em lugar da fruição do momento presente, preferem sacrificá-lo em prol da bem-aventurança em um futuro, projetado além da vida terrena.
O desencanto com a vida e a conseqüente reflexão acerca da condição humana, do destino do homem na vida terrena e na vida eterna, bem como o temor de perder a bem-aventurança nesta última constituem uma das linhas temáticas mais desenvolvidas pelos poetas maneiristas.
Pero de Andrade Caminha inclui-se entre os inúmeros poetas que revelam essa lúcida consciência acerca da celeridade com que o tempo transcorre, da conseqüente brevidade da vida e do vazio das aparências:

A pressa com que o tempo voa!
A pressa com que a vida à morte corre!
E nada disto em nossas almas soa!
Tudo depressa acaba, tudo morre. 46

O tema da mudança operada pelo fluir do tempo também é freqüente na lírica de Camões. Na Canção X, ele expressa o nostálgico desejo de voltar no tempo, pois da vida já transcorrida o poeta não tem senão memórias dos passados anos. Daí o seu desejo de um retorno, que sabe impossível, aos tempos pretéritos onde situa a sua ventura:

Que se possível fosse que tornasse
O tempo para trás, como a memória,
Pelos vestígios da primeira idade
E, de novo tecendo a antiga história
De meus doces errores, me levasse,
Pelas flores que vi da mocidade.47

As únicas certezas que jamais falham são as de que o tempo é fugaz e irreversível, que os anos transcorrem céleres e que tudo está sujeito à mudança.
A mudança, para os maneiristas, tem um significado que ultrapassa bastante o de simples e natural modificação física. Mais que isto, ela se traduz em transmudação da felicidade e do prazer em infortúnio, dor e sofrimento, da alegria e da esperança em tristeza e desilusão. Assim sendo, a certeza da brevidade da vida, a convicção de que tudo passa inexoravelmente, de que nada é permanente e inalterável, projeta o homem na dolorosa angústia da mudança que a tudo transforma e conduz à irrecorrível decadência tanto no que diz respeito ao físico quanto à própria mente do indivíduo, afetando suas idéias e pensamentos, a sua memória e a sua capacidade de discernimento.
Frei Agostinho da Cruz, Camões e Fernão Álvares do Oriente incluem-se dentre os poetas que mais fizeram do tempo tema para suas poesias:

Tudo se muda em fim, muda-se tudo,
Tudo vejo mudar cada momento:
Eu de mal em pior também me mudo.48

Que o tempo que se vai não torna mais,
E se torna, não tornam as idades
[...]
Aquilo a que já quis é tão mudado,
Que quase é outra cousa; porque os dias
Têm o primeiro gosto já danado. 49


Tudo se vai mudando,
Nada num firme estado permanece:
Nossa vida passando
Vai sempre tão incerta, que parece
Que de continuo está desenganando
Esta vária mudança.
[...]
Tão sujeito o mortal vive à mudança! 50

Frei Agostinho da Cruz, fugindo à fórmula tradicional da comparação entre o ciclo da natureza e o da vida humana, motivo para lamentos pela desvantagem que leva o homem submetido à voraz ação modificadora e destruidora do tempo, tece a sua queixosa reflexão sob outra perspectiva.
No soneto, que se segue, a questão do contraste entre o renovar cíclico da natureza e a progressiva e irreversível decadência do homem não se coloca como o ponto fulcral das mágoas do poeta. O contraste que se estabelece, ao longo dos seus versos, ocorre entre a mudança renovadora e positiva dos elementos da natureza e a estagnação perturbadora verificada no “triste estado” de sua alma. Os versos do último terceto principalmente revelam um misto de medo e tristeza no espírito do poeta em razão de sua descrença na possibilidade de sair do impasse, de alcançar o bem, restando-lhe apenas nutrir-se de mágoa e de pranto:

Passa por este vale a primavera,
As aves cantam, plantas enverdecem,
As flores pelo campo aparecem,
O mais alto do louro abraça a hera.

Abranda o mar, menor tributo espera
Dos rios, que mais brandamente descem,
Os dias mais fermosos amanhecem,
Não para mim, que sou quem dantes era.

Espanta-me o porvir, temo o passado,
A mágoa choro dum, doutro a lembrança,
Sem ter já que esperar nem que perder.

Mal se pode mudar tão triste estado,
Pois para bem não pode haver mudança,
E para maior mal não pode ser. 51

Camões, não somente se mostra consciente da mudança como um processo geral por que passam todas as coisas, a personalidade e o físico das pessoas, como expõe a sua visão pessoal acerca dos infortúnios acarretados pelas mudanças causadas pela passagem do tempo:

E vi que todos os danos
Se causavam das mudanças
E as mudanças dos anos;
Onde vi tantos enganos
Faz o tempo às esperanças.
[...]
Vi ao Bem suceder o Mal
E ao Mal, muito pior. 52

A certeza de que tudo passa, tudo é instável e tudo conduz à degradação e à morte, faz desta última um motivo recorrente na tematização do tempo, principalmente na poesia de Frei Agostinho da Cruz, para quem a morte significava a libertação da vida, esse obscuro lugar de desterro da alma, para a ansiada bem-aventurança no amor eterno de Deus:

A alma que em Vossas mãos presa se entrega
Não tem de que temer, nada receia,
[...]
Colhe suave fruto de alegria,
Saudoso da sua em terra alheia. 53

Vale ressaltar que essa concepção da vida como desterro, degredo e prisão, deriva da mundividência neoplatônica, sendo comum a alusão a essas imagens nas obras de muitos poetas maneiristas.
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NOTAS

43 Diogo Bernardes, Rimas várias, soneto LXV e LXII.
44 Id. Ibid., p. 112.
45 Pero de Andrade Caminha, Poesias inéditas, p. 95.
46 Pero Andrade Caminha, Poesias inéditas, p. 95.
47 Luís de Camões, Op. cit., vol. I, p.199.
48 Frei Agostinho da Cruz, Obras, p. 2.
49 Luís de Camões, Op. cit., vol. I, p. 235.
50 Fernão Álvares do Oriente, Lusitânia transformada, p.
51 Frei Agostinho da Cruz, Obras, p. 90.
52 Luís de Camões, Op. cit., vol. I. p. 235.
53 Frei Agostinho da Cruz, Obras, p. 2.

Zenóbia Collares Moreira

O Amor Sensual

Contente vivi já, vendo-me isento
Deste mal, de que a muitos queixar via,
Chamam-lhe amor; mas eu lhe chamaria
Discórdia e sem-razão, guerra e tormento.
Camões

A tematização do amor, na lírica maneirista, segue duas tendências inteiramente opostas: uma que se manifesta enquanto imagem negativa e condenatória do amor carnalmente consumado, da expressão sensual do desejo amoroso; outra, derivada da idealização neoplatônica, que o revela em termos os mais positivos. A primeira tendência domina quase inteiramente o espaço poético, acentuando-se, no entanto, o seu cultivo a partir das três últimas décadas do século XVI; a segunda, menos privilegiada na lírica dos poetas, irrompe com mais freqüência na poesia de Camões, como será mostrado mais adiante. 
Nas poesias líricas que desenvolvem o tema do amor sensual, o que se observa, de modo geral, é a reiterada expressão de uma visão superlativamente sombria da experiência amorosa. Nela, o amor se configura como agente da acentuada instabilidade afetiva e emocional do amante, de aflitiva insegurança e de incertezas, como núcleo dinamizador de permanente desequilíbrio, que arrasta o homem a situações de natureza sumamente contraditória, senão oposta: alegria / tristeza; esperança / desespero; engano / desengano; amor / ódio, etc. 
A lírica de Camões prodigaliza exemplos dos malefícios do amor. Na opinião do poeta não pode no mundo haver tristeza / em cuja causa Amor não tenha parte. Daí, a sua indagação aos que sofrem padecimentos amorosos: se das dores de amor sois maltratados, / porque tanto buscais de amor as dores? 
Toda essa vivência negativa tem como conseqüência o desconcerto sentimental do homem enamorado, resultando em expressões de recusa ou de execração do amor, da experiência amorosa, da qual derivam dor e frustração constantes. O discurso que radica na experiência do amor denuncia, com cores fortes, os malefícios e os desenganos, as causas e os efeitos do drama amoroso. 
Baltazar Estaço, um dos mais ferrenhos defensores da poesia de cunho religioso e de exaltação ao amor divino, é autor de inúmeras composições altamente representativas da execração ao amor profano. No soneto, dado a seguir, o poeta vai discorrendo, verso a verso, com veemência depreciativa, sobre o potencial destrutivo do amor carnal, do amor entre homem e mulher: 

Mostra prudência sábia o que é minino, 
Apresenta-se manso o que é tirano, 
Aparece sagrado o que é profano, 
Profanando porém o que é divino. 

O siso quer fingir no desatino, 
A verdade pintar no falso engano, 
Disfarçar o proveito em nosso dano, 
Matando o natural e o peregrino. 

Imóvel se afigura o inconstante 
Amor, porque de falsa cor se tinge 
Para que nada dê, mas nada negue. 

Tal este amor se mostra e finge ao amante, 
Mas tal qual este amor se mostra e finge, 
Tal fica quem o busca e quem o segue. 54

Não satisfeito em enumerar as perfídias, que julga inerentes ao amor humano, o poeta, nos três últimos versos, abandona a verberação ao amor, transferindo-as para a figura dos que com ele se envolvem, numa clara atitude de repúdio extensiva aos amantes, rebaixados ao mesmo nível de falsidade e abjeção atribuído ao amor profano, [Mas tal qual este amor se mostra e finge, / Tal fica quem o busca e quem o segue].

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21 de nov de 2010

O Amor Platônico

Se nela está minh’ alma transformada, 
Que mais deseja o corpo de alcançar? 
Camões 


Contrapondo-se à visão sombria e negativa do amor, antes referida, os neoplatônicos recusam os seus atributos maléficos, concebendo-o como manifestação do Bem, considerando-o, como esclarece Maria Helena Luiz Piva, “isento de contaminações, princípio de ascensão espiritual e de redenção individual e cósmica.” Assim sendo, o amor, segundo a doutrina neoplatônica, relaciona-se com a inteligência divina e, como tal, é em sua essência um sentimento harmonioso e sereno, uma força capaz de encaminhar o homem ao conhecimento e conduzi-lo a um estágio elevado de aperfeiçoamento.62 Portanto, no âmbito da doutrina neoplatônica do amor não são logicamente cabíveis as execrações desse sentimento, “fundadas em motivações de ordem ética metafísicas e religiosa, nem a expressão do arrependimento e do remorso por se ter vivido, na plenitude harmoniosa da sua dimensão humana e da sua dimensão divina, o sentimento amoroso”.63
O eros platônico nasce da visão do belo. Todavia, tal beleza está para além das qualidades e aparências que o vulgo valoriza, ou seja, o conjunto de atributos físicos da amada. No amor platônico, o sujeito enamorado transcende à visão meramente exterior da mulher, para enxergar somente a graça pura, / A luz alta e severa,/ Que é raio da divina fermosura, / Que na alma imprime e fora reverbera. É esta beleza excelente, pura, reminiscência e participação da beleza absoluta, da beleza que está na alma, é, enfim, como Camões tenta definir: 

Aquele não sei quê, 
Que aspira não sei como, 
Que, invisível saindo, a vista o vê, 
Mas pera o compreender não lhe acha tomo.64

Se o eros platônico tem a sua gênese na contemplação da beleza absoluta, que se fixa no pensamento como idéia; se é manifestação do Amor, que o gesto humano na alma escreve, então ele, como força atinente a uma faculdade divina da alma, é imune à morte, porque, enfim, a alma vive eternamente, / E amor é efeito de alma, e sempre dura. 
Nestes termos, a vivência do amor platonicamente sentido escapa à substância material do ser amado, independe de sua presença física, como sugerem os versos que se seguem: 

E aquela humana figura 
Que cá me pôde alterar 
Não é quem se há de buscar: 
É raio de formosura 

Que só se deve de amar. 
Que os olhos, e a luz que ateia 
O fogo que cá sujeita, 
Não do sol, nem da candeia: 

É sombra daquela idéia 
Que em Deus está mais perfeita.65

É praticamente na poesia de Camões que a visão neoplatônica do mundo, do homem e do amor, irrompe de forma precisa, ao contrário do que se observa nos poetas seus contemporâneos. Nas obras destes, o que se constata é a manifestação sistemática de uma noção acerca do amor inteiramente contrária à noção neoplatônica, à qual se soma uma evidente reduplicação do discurso ideológico religioso agostiniano, como será visto mais adiante. 

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18 de nov de 2010

A Saudade e a Mística do Amor Idealizado.


Enquanto houver no mundo saudade
Quero que seja sempre celebrada.
Camões

Relacionadas tanto à temática amorosa de pendor sensual quanto à de índole neoplatônica, irrompem com muita freqüência na poesia dos líricos maneiristas composições que expressam a saudade da mulher amada, do amor perdido ou a saudade da felicidade passada. A forma mais comum de vivenciar o amor “consiste na saudade, seja ela encarada, segundo o neoplatonismo, como a ausência que se torna condição de aperfeiçoamento, seja como a ausência que é sentida como carência insuportável”. 72
A saudade exprime também outro momento da angústia na poesia dos maneiristas: aquele em que a memória se obstina na recordação dolorosa de um bem que se teve e que se perdeu na distância ou no tempo pretérito, como se queixa Diogo Bernardes:

Se quando vos perdi, minha esperança,
A memória perdera juntamente
Do meu passado bem, do mal presente
Pouco sentira a dor de tal lembrança.73

Toda a satisfação passada se reduz à mágoa e ao desprazer, porque provém exclusivamente de lembranças cuja realidade, que tem a mesma consistência do sonho, já se esvaíra.
Camões escreveu vários sonetos tematizando a saudade da felicidade perdida, ou a dor proveniente da ausência da mulher amada, sem a qual só lhe resta chorar no tempo presente as memórias de um outro já pretérito:

Doce contentamento já passado
Em que todo o meu bem já consistia,
Quem vos levou da minha companhia
E me deixou de vós tão apartado? 74

A experiência da saudade leva o enamorado à tentativa de recuperar o amor e a mulher amada através da memória, da reminiscência do bem distante, mais das vezes situado num tempo já bem recuado. Todavia, a rememoração do que perdeu não o liberta do sentimento de frustração e tristeza provocado pela recordação do passado, antes intensifica a dor da ausência e o sentimento de perda:

Doce despojo de meu bem passado,
Testemunha da dor que me ficou,
De aquela cujo foste, e cujo sou,
Por quem chorei, e agora sou chorado. 75
Doces lembranças da passada glória,
Que me tirou Fortuna roubadora
[...]
Impressa tenho na alma a larga história
Desse passado bem, que nunca fora;
Ou fora, e não passara; mas já agora
Em mim não pode haver mais que a memória. 76

Em muitos casos, o bem perdido pela distância no espaço ou no tempo, não significa que o amor tenha sido correspondido. Os poetas colocam-se invariavelmente na condição de vítimas do amor, dos seus enganos e ilusões, ou de esperanças fundadas em devaneios ou desejos impossíveis, como se queixa Francisco de Andrade:

Contentamentos meus, que já passastes,
Trocando a vida alegre, que vivia,
Por este mal, que passo, que um só dia
Me não deixam, depois que me deixastes

Acabar me convém, pois acabastes
De dar-me o desengano, qu’encobria
Uma esperança vã, que me trazia
Contente, a qual também me já tirastes.

Os olhos, que amor sempre guiava
Aonde eu tinha firme o pensamento,
Quando vossa presença os alegrava,

Agora choram vosso apartamento,
Que lhe tirou um bem, que os sustentava,
E só de vós ficou o sentimento. 77

Nas poesias dos maneiristas, a mulher amada está sempre distanciada do homem dela enamorado, mesmo quando o amor é correspondido. O discurso deste é sempre um solilóquio doloroso, muitas vezes expressando o padecimento presente em razão das reminiscências do bem perdido ou distante, que o amante preferiria apagar da lembrança, pois estas não devolvem as alegrias passadas: antes me põe diante o bem perdido, como se queixa Diogo Bernardes, ou fazem tanto mal ao pensamento, conforme escreve Camões. O drama da ausência é, assim, protagonizado pela própria revivescência do passado irrecuperável, que melhor seria esquecer, mas que permanece vitoriosamente presente e indelével na memória afetiva do amante:

Se quando vos perdi, minha esperança,
A memória perdera juntamente
Do meu passado bem, do mal presente,
Pouco sentira a dor de tal mudança.

Mas meu fado cruel, que não descansa
De sempre me cansar continuamente,
Me faz lembrar que já me vi contente,
Por me fazer mais triste na lembrança.78

Em Babel e Sião, o saudosismo camoniano é comunicado e definido a partir de expressões plenas de sentimento que a linguagem própria do neoplatonismo ajuda a formular, reforçando a busca e a ânsia de perfeição concretizada na perseguição “da verdade única e essencial” que irrompe nos versos do poema. Neles, observa-se a superação da saudade da pátria e da mulher amada por uma saudade de índole mística que o remete, através de uma suave e tranqüila rememoração, a um recuadíssimo tempo pretérito, anterior à sua humanidade, vivido no espaço transcendente e na plenitude do espírito:

Não é logo a saudade
Das terras onde nasceu
A carne, mas é do Céu,
Daquela Santa Cidade
Donde esta alma descendeu. 79

As expressões místicas dessa saudade do céu e de uma ventura eterna aparecem também em várias poesias de Frei Agostinho da Cruz, quase sempre derivada de um desejo de libertação resultante do desengano com os homens e do cansaço da vida. A saudade do frade-poeta tem, no entanto, um destinatário definido: Deus.
Nos versos, que se seguem, de uma das suas elegias, alma desterrada na terra expressa o seu anseio de amor divino:

Assi a minha alma saudosa,
Dessa vossa divina formosura,
Toda ardendo em sede amorosa;
Busca a vós, ó fonte de doçura. 80

O poeta procura definir, em seus versos, as saudades dimanadas do amor divino, saudades que agasalhem e aqueçam a frieza alojada em sua alma. São saudades que, em alguns momentos, lhe inundam a alma com uma suave e serena alegria, em outros, motivam lamentos acerca da dor do desterro, da angústia da solidão: Não há pastor tão néscio que não creia / Que nascemos aqui neste degredo, / Desterrados da nossa em terra alheia. Da ânsia de partir desse desterro, de evadir-se para a Luz divina, de agasalhar a alma lá onde a luz jamais perde a figura, onde tudo é suave e deleitoso, lança ao Criador a indagação do seu espírito sedento da paz e da ventura celestiais: Quando passarei desta saudade / Ao tabernáculo maravilhoso / Morada da vossa eternidade? 81
Há ainda que referir uma outra variante da temática da saudade que se compraz com a ausência física da mulher amada cuja imagem se conserva inalterada e albergada no pensamento e no espírito do poeta. Sobre isto, comenta Jacinto do Prado Coelho: “se a tradição neoplatônica do dolce stil nuovo e de todo o lirismo petrarquista bastaria para explicar” e dimensionar o que há de imaterial e puro na mulher objeto do amor desses poetas, “a experiência pessoal da separação, o viver longe pela memória e pela fantasia, decerto contribuíram para dar mais humana, mais comovente autenticidade ao processo ascensional que a poesia amorosa” de Camões e de outros poetas testemunham. “Se a visão da mulher obriga o poeta ao êxtase, é porque se manifesta, não como objecto de lascívia, mas como deslumbrante força espiritual”.82
Conforme entende Maria Vitalina de Matos, o que se impõe nessa relação amorosa não é a satisfação do desejo, não é a posse da mulher amada. O que o amante deseja é o amor. “E é neste amor do amor que reside a razão última da vivência camoniana”, da experiência dos poetas neoplatônicos.83
Com efeito, esses poetas que privilegiam a ausência da mulher amada como um bem, reservam para esta um lugar pouco relevante na cena amorosa, ela é apenas um objeto no qual o amor é projetado. Realmente, “o que eles amam é o amor, é o próprio fato de amar, [...] têm necessidade um do outro para arderem em paixão, mas não um do outro tal como cada um é; e não da presença do outro, mas bem mais da sua ausência!”84 Portanto, o amor que nasce e que se nutre no espírito, o amor segundo a doutrina neoplatônica, assume um estatuto de eternidade. Daí, transcender à própria morte, a mais radical, inexorável e irreversível forma de separação:

Que se amor não se perde em vida ausente,
Menos se perderá por morte escura:
Porque, enfim, a alma vive eternamente,
E o amor é efeito da alma, e sempre dura.85

Um dos motivos mais comuns da saudade radica na ausência do ser amado em razão da morte ou de um forçado afastamento. A dor da separação involuntária resulta em muitas composições que abordam dramaticamente toda a emoção da despedida ou da perda irremediável:

Alma gentil, que à firme Eternidade
Subsiste clara e valerosamente,
Cá durará de ti perpetuamente
A fama, a glória, o nome e a saudade.86

O poeta maneirista, na vivência excruciante do infortúnio presente, busca, no passado, o tempo da felicidade resgatável, descobrindo, mais das vezes, que no tempo em que, embaído, se imaginava feliz já não o era, na medida em que a ansiada e crida felicidade se põe sempre no tempo já decorrido em relação a qualquer tempo a que o homem se reporte. O que existe, em termos psicológicos, é a aspiração a estados venturosos, em algumas ocasiões, projetados no tempo futuro através do devaneio, e a nostalgia da felicidade já passada e perdida na lonjura do tempo e no obscuro sótão da memória.
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72 Maria Vitalina Leal de Matos, Op. cit., p. 65.
73 Diogo Bernardes, O Lima, p. 62.
74 Luís de Camões, Op. cit., vol. I, p. 282.
75 Id. Ibid., vol. I, p. 213.
76 Estevão Rodrigues de Castro, Canc. Fernandes Tomás, fl. 5r.
77 Francisco de Andrade, Canc. Fernandes Tomás, fl. 5v.
78 Diogo Bernardes, Obras Completas, p. 124.
79 Luís de Camões, Op. cit., vol. I, p., 111.
80 Frei Agostinho da Cruz, Obras, p. 311.
81 Frei Agostinho da Cruz, Obras selectas, p. 121.
82 Jacinto do Prado Coelho. Camões, um lírico do transcendente”, in: A letra e o leitor, pp. 15-16.
83 Maria Vitalina Leal de Matos, Op. cit., pp. 61-62.
84 Denis de Rougemont. O amor e o Ocidente, p. 64, apud Maria Vitalina L. de Matos, Op. cit., p. 62.
85 Luís de Camões, Op. cit. vol. II, p. 212.
86 Id. Ibid., vol. I, p. 213,

O Amor Divino


É triste quem por baixo amor malino
Alto e divino amor trocar quisesse
E de vão bem por uma vã figura.
Aventurar um bem, que sempre dura.
(André F. de Resende)

A tematização do amor divino ocupa um espaço considerável na obra dos poetas que escreveram os seus textos, no período pós-tridentino, principalmente na fase que se segue à derrota portuguesa no norte da África e que assinala uma época marcada pela situação de miséria e humilhação que abate o ânimo e o orgulho nacional do povo português, com a pátria sob o domínio da Espanha.
Muito comprometido com o ascetismo que se intensifica e domina a sociedade finissecular, surge o tema do desengano, um dos mais recorrentes na l po e no obscuro sótão da memória.

Lírica dos maneiristas.

Conseqüência do engano, ou seja, da tendência do homem para se deixar seduzir e arrastar pelos tortuosos meandros das ilusões com que se afasta da realidade, vivendo uma existência sem sentido, fantasiosa, pautada na busca descomedida de gozos e de bens materiais.
A tomada de consciência acerca da condição ilusória em que transcorre a vida do homem constitui o ponto de partida para o desengano libertador, que o livra do apego aos transitórios e falazes apelos mundanos. Liberto das ilusões, o homem volta-se para uma vida ascética, arrepende-se do tempo mal empregado no erro, na mentira, no pecado, e passa a conduzir sua existência por uma novo percurso direcionado para Deus.
Esta nova atitude de devoção e o anseio de extinguir o desejo das coisas terrenas de dentro da alma, leva o homem da época a uma atitude de repúdio aos enganosos apelos mundanos, principalmente ao amor carnal, considerado o maior de todos os enganos e fonte de tantos infortúnios dele decorrentes. Contudo, a maior restrição que fazem ao amor carnal é pautada na crença de que o amor os leva à busca de alegrias e prazeres efêmeros e enganosos, constituindo uma fonte de malefícios e de perdição para o homem, além de o desviar do amor de Deus, o único amor que nunca se extingue e jamais desilude ou engana aqueles que dele se acercam. Na sua lírica, Camões se queixa constantemente do caráter falacioso do amor: De amor não vi senão breves enganos; 87 Em amor não há senão enganos.88

De amor e seus danos
Me fiz lavrador:
Semeava amor
E colhia desenganos. 89

Diogo Bernardes expressa abundantemente a sua queixa pela brevidade com que passam as alegrias proporcionadas pelo enganoso amor, o quanto são inconsistentes as promessas de ventura, logo esquecidas:

Horas breves do meu contentamento,
Nunca me pareceu, quando vos tinha,
Que vos viste tornadas (tão asinha!)
Em tão compridos dias de tormento.
Aquelas torres que fundei no vento,
O vento as levou já, que as sustinha:
Do mal que me ficou a culpa é minha,
Que sobre cousas vãs fiz fundamento.

Amor, com rosto ledo e vista branda,
Promete quanto dele se deseja:
Tudo possível faz, tudo segura,
Mas dês que dentro na alma ina e manda,
Como na minha fez, quer que se veja
Quão fugitivo é, quão pouco dura !90

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Fernão Rodrigues Lobo, como Bernardes, também tem o seu drama amoroso gravitando em torno dos tormentos e dos desenganos que o amor lhe impõe:

Após um não sei que, que foge e passa,
Que aonde houvera de ser desenganado,
Ahi mais a seu salvo me embaraça.
Mas que mal haverá que não me faça,
Se me obriga a servir um vão cuidado
Que contra o meu sossego conjurado
Quer que edifique eu, quanto ele traça?
[...]
Mas tem tal ódio a meu contentamento
Que nem me larga, nem, se me largara,
Fora mais que por dar-me mór tormento. 91

Em decorrência da sua própria condição de ser desejante, o homem, ao longo de sua vida, dificilmente consegue escapar das armadilhas da ilusão, aos enleios da paixão, aos apelos dos sentidos. Todavia, a consciência acerca dos enganos e males do amor leva os poetas a contrastarem os deleites e contentamentos propiciados pelo amor divino com as falácias e tristezas provenientes do amor humano, considerado uma quimera perigosa e mentirosa, onde se comprazem as vidas mundanas e as almas frívolas, pois como adverte André Falcão de Resende:

Nesta tão breve vida e tão pequena
Duas coisas se amam só principalmente,
Uma nos salva, e outra nos condena.
Ou se ama o Criador onipotente,
Ou se ama alguma baixa criatura
Das a quem mais cada um inclinar-se sente. 92

A busca do amor de Deus e o desprezo pelo amor profano radicam, portanto, no desengano, na descoberta por parte do poeta do erro em que arriscara a sua relação espiritual com o Criador, por vias dos seus enganos. Assim, o engano e o desengano constituem apenas etapas de um mesmo processo de aproximação do homem à prática da religião e de afastamento das coisas terrenas. A esse processo, associa-se, comumente, o desprezo pela poesia profana e a adesão a uma poesia voltada para a religiosidade e o sagrado. Nos versos que se seguem, André Falcão de Resende deixa bem clara esta tendência da poesia da época:

Triste quem por baixo amor malino
Alto e divino amor trocar quisesse,
E de vão bem por uma vã figura
Aventurar um bem, que sempre dura. 93

Esta oposição do amor divino ao amor humano, como foi antes mencionada, radicalizou-se avultadamente nas derradeiras décadas do século XVI, sob a influência dos rigores penitenciais do catolicismo pós-tridentino que geram no espírito dos homens o desprezo pelas coisas mundanas como primeiro e decisivo passo para a conquista da bem-aventurança na vida eterna.
Baltazar Estaço deixa bem claro no trecho de um dos seus poemas o que lhe ensinou a lição do desengano e as razões que o levam a buscar no amor de Deus a felicidade e a paz que o amor humano não lhe proporcionara:

Pastor sabe de mi hô desengano,
Que não poderá ser desta paz digno
Sem quereres deixar o amor humano,
Pera vires a gostar o amor divino:

Por teu proveito assy trocas teu dano;
Deixando o ferro pelo ouro fino.
E não deixei amor, troquei amores
Troquei outro que por si tudo me alcançava,

Troquei hô que corpo, e alma me cansava,
Por outro que alma, e corpo me descansa,
Troquei o que em espinhos me lançava,

Por outro que minha alma em rosas lança,
Hô nascido na paz, outro na guerra,
Hô natural do céu, outro da terra. 943

Esta contraposição do amor divino e do amor humano “não só envolve o repúdio dos gozos carnais, o desprezo do mundo e um comportamento ascético, como implica a destruição do ideal petrarquista e neoplatônico do amor humano.”95 Este deixa de ser encarado como um instrumento de aperfeiçoamento espiritual e de elevação do homem até o divino, na medida em que, nessa oposição entre duas formas de amor, o amor humano não se identifica exclusivamente com o amor sensual, mas com todas e quaisquer manifestações do amor profano.
O desejo de conquistar a bem-aventurança orienta-se, mais das vezes, por um desejo de evasão para a transcendência, para um além de tudo quanto é terreno. Instaura-se, assim, não uma busca aleatória de Deus, e sim uma procura fervorosa do amor divino, que assinala o desejo de infinito, de ascensão do amor da criatura até o seu Criador. Esse movimento para as alturas celestiais, essa busca de preenchimento de um vazio que a vida mundana não consegue suprir, enfim, esse sursum corda denuncia uma atitude de abandono dos apelos do mundo terreno e um anseio de completude em Deus: oh quem vira naquela fortaleza / rodeada de fogo de amor puro / daquele amor divino esta alma acesa, exclama Frei Agostinho da Cruz.
Com efeito, o amor assume, na lírica dos poetas maneiristas pós-tridentinos, uma outra conotação, na medida em que tem como objeto Deus, idealizado como o Sumo Bem.
Segundo as crenças em vigor na época, é o amor o elo entre o homem e Deus, é ele o condutor da alma ao conhecimento do mistério que se aloja além do tempo humano, nos horizontes da eternidade, para suas núpcias místicas com o Criador.


87 Id. Ibid., vol. I, p. 257.
88 Id. Ibid., p. 227.
89 Id. Ibid. p. 5.
90 Diogo Bernardes, Líricas de[...], p, 94.
91 Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Canc. Fernandes Tomás, fl. 28v..
92 André Falcão de Resende, Poesias, p. 60.
93 Id. Ibid., p. 44.
94 Baltazar Estaço, Op. cit., fl. 35
95 Vítor Manuel de Aguiar e Silva, Op. cit., p. 308


Zenóbia Collares Moreira. A Poesia Maneirista Portuguesa. Natal: EDUFRN, 1999.

12 de nov de 2010

A Consciência do Pecado e o Anseio de Perdão


Meu Deus por mim à cruz oferecido, 
Alembrai-vos da vossa piedade 
Tão larga em perdoar, e tão antiga. 
(Frei Agostinho da Cruz )

Relacionados ao tema do desengano, surgem outros de teor religioso, indicadores da atitude poética penitencial a que se impunham os poetas mais sensibilizados pela lição haurida nas concepções religiosas dimanadas de Trento. São eles os temas da contrição e do exame de consciência, amplamente desenvolvidos na poesia lírica maneirista. 
Aguiar e Silva sublinha que, a partir da conscientização acerca da “enganosa vanidade da vida”, os maneiristas passam à prática de uma poesia pautada nos rigores do catolicismo pós-tridentino e influenciada pelo visão de mundo neoplatônica, prodigalizando as exortações “ao abandono do mundo e das suas seduções, acentuando de modo obsidiante que tudo o que é terreno é fugaz, evanescente e causa de pecado e perdição eterna”.96 Os poemas de contrição, resultantes do desengano, levam os poetas a confessarem as suas culpas e o seu arrependimento pelos erros praticados, ao mesmo tempo em que suplicam a misericórdia e o perdão de Deus. 
Fernão Rodrigues Lobo Soropita confessa, com grande carga emocional, os seus erros e a sua fraqueza perante a difícil tarefa de regenerar-se, procurando, então, no amparo da misericórdia de Deus, a ajuda de que carece: 

Sou aquele doente que perece 
Paralytico já desconfiado 
De que o mundo seu também se esquece, 
E se por vós não for remediado 
Esta fé que assi seca está comigo 
Irá também por preza do pecado. 97

Frei Agostinho da Cruz dirige a Jesus crucificado um soneto no qual desfia o seu rosário de culpas e apelos de remissão para os seus pecados: 

Perdoai-me, Senhor, que se faltar 
Pôr os olhos em Vós crucificado. 
O menos que de muito tenho errado 
Noutros maiores erros me lançara. 
[...] 
Meu Deus por mim à Cruz oferecido, 
Alembrai-vos da vossa piedade 
Tão larga em perdoar, e tão antiga.98

Pedro da Costa Perestrelo escreveu um livro, As lições de Job, inteiramente dedicado à poesia religiosa, tematizando reiteradamente ao longo de suas páginas as mais variadas formas de expressar o seu arrependimento e o seu desejo de expiação para as suas faltas: 

Perdoai-me, Senhor, pois não são nada 
Os breves dias meus nesta peleja, 
Da vida, consumida, e acabada. 99

Diogo Bernardes abre o seu livro, Várias rimas ao Bom Jesus, com um soneto dedicatório no qual deixa bem explicitada a sua intenção de, com seus versos, mover a consciência dos pecadores para que chorem arrependidos a sua culpa. Esse veio temático ensejou uma proliferação de poesias de exaltação a santos que exemplificam a prática da contrição e da penitência, como Santa Maria Madalena, eleita por uma quantidade expressiva de poetas, para louvações à sua conversão, arrependimento e penitência, após uma vida de perdição. 

Tal luz à Magdalena alumiava 
(Fermosa desd’então, dantes tão feia) 
Que não lhe pareceu ser casa alheia 
Aquela, onde o Senhor de tudo estava. 
[...] 
na terra jaz lançada, está regando 
com lágrimas as plantas do Senhor, 
a cuja sombra colhe doce fruito.
Muito lhe perdoou, porque amou muito; 

E muito mais lhe deu depois, que amou 
Em lágrimas de dor se foi banhando.100

O mesmo interesse despertou a dor do arrependimento de São Pedro por sua traição a Cristo. Diogo Bernardes assim refere às “lágrimas” do apóstolo: 

Depois que Pedro viu como negara, 
Três vezes a seu Mestre, e a seu Senhor,
[...]
Tamanha dor sentiu, tamanha afronta 
O miserável velho em si tornado, 
Que não fez mais nada da sua vida conta 
Senão pera chorar o seu pecado. 101

O desejo de alcançar o perdão de Deus para as faltas cometidas e, através do arrependimento e da contrição, alcançar a bem-aventurança de uma vida eterna na glória do Senhor, configura-se como um fervoroso anseio de elevação espiritual, nascido da ânsia de infinito, do desejo de fugir das amarguras causadas pelas misérias do mundo e da própria alma pecadora, para o gozo de uma outra forma de amor transcendente e divino. 
__________________________
96 Id. Ibid., p. 312. 
97 Fernão R. Lobo Soropita, Canc. Fernandes Tomás, fl. 66. 
98 Frei Agostinho da Cruz, Obras, p. 19 
99 Pedro da Costa Perestrelo. Op. cit., p. 01. 
100 Frei Agostinho da Cruz, Obras, p. 10-11. 
101 Diogo Bernardes, Obras Completas, vol. III, p. 61
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Zenóbia Collares Moreira. A Poesia Maneirista Portuguesa. Natal: EDUFRN, 1999 (Todos os direitos reservados).