13 de dez de 2010

Temas da poesia maneirista.



1) A CONDIÇÃO EXISTENCIAL DO HOMEM

Constitui um dos traços essenciais do Renascimento a confiança e a crença na capacidade do homem para promover o seu próprio crescimento intelectual, moral e espiritual. Autoconfiante, harmonioso e equilibrado, o homem do período renascentista não renuncia aos prazeres da vida terrena, desfrutando as atrações e solicitações mundanas, conciliando as exigências do corpo e do espírito, a razão e a fé, o mundanismo e o ascetismo, pondo em boa harmonia as eventuais tensões entre o espírito secular renascentista e o ethos cristão.
Por conseqüência, “atenuam-se, no seu espírito, o sentido do pecado, o sentimento da culpa e a consciência do caráter radicalmente agônico da natureza humana”. Todavia, esse ideal de homem plasmado pelos humanistas não teve continuidade no período maneirista. As crenças e ideais otimistas envolvendo o homem foram à deriva, juntamente com o Humanismo, no turbilhão da “crise do Renascimento”, rematada de várias maneiras pela sombria visão de mundo baseada numa concepção pessimista do homem e da vida. 
A retórica contra-reformista tratava de inculcar nos espíritos, obstinada e insistentemente, com acentuada energia e persuasão, uma imagem negativa do homem. Ele era retratado como um ser inferior, estigmatizado pelo pecado desde a sua origem, irrecorrivelmente atormentado e cindido por contradições internas, ora subjugado aos apelos mundanos e aos gozos da carne, ora liberto de tais servidões, arrependido e penitente, percorrendo seu caminho existencial como um desorientado. A esse homem deserdado da fortuna e da felicidade, condenado a uma vida efêmera, em mundo inóspito, ilusório e pródigo em enganos, só resta, como via para a sua salvação, a fuga da vida mundana, o desprezo pelas coisas materiais e a busca de Deus. 
Assim, fora do cumprimento dos preceitos da Igreja, longe da austeridade e do rigor do ascetismo, não poderia o homem escapar à perda da graça divina. Graça esta que lhe abriria as portas da felicidade eterna, conduzindo-o à “terra da promissão”, ao lugar perfeito onde as almas dos justos, dos fiéis e obedientes seguidores dos ditames da religião encontrariam, para sempre, a bem-aventurança, nunca vislumbrada na vida terrena. 
Esse quadro, tão falho em positividade, revela a falência dos princípios humanistas, que exaltavam e glorificavam a força humana, que apostavam no poder e na bondade natural do homem. eles foram levados à extinção pela própria impossibilidade de coexistirem com os princípios contra-reformistas, que usurpavam a liberdade do homem e negavam a sua inerente inclinação para o bem. Não é, portanto, o homem em si mesmo ou a exaltação das suas potencialidades morais, dos seus predicados espirituais e de sua intrínseca bondade o que centraliza os interesses dos poetas maneiristas.

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O que constitui o núcleo dinamizador do discurso poético de muitos deles é, antes de tudo, a originária condição humana de ínfimo ser, corpo terreno, bicho da terra vil e tão pequeno, surgido do pó da terra, para onde está destinado a retornar. Jamais revelada de forma positiva, a imagem do homem oferecida pela lírica maneirista reduplica a imagem negativa que dele engendrou e difundiu a ideologia contra-reformista, ou seja, a de um ser desprezível, cuja natureza traz, desde o nascimento, o estigma da maldade e do pecado herdado do casal primordial proscrito do Paraíso. 
A partir dessas premissas, delineia-se, na lírica maneirista, o perfil do poeta saturniano, predestinado à desgraça e a uma vida de sucessivos padecimentos, condenado ao sofrimento e às dores, sem expectativas de felicidade, desde o berço até a morte.
Nenhum poeta traduziu tão bem a dramática sucessão de misérias e sofrimentos a que está sujeito o homem em sua trajetória existencial como Camões, em sua Canção X, na qual desfia o rosário das desgraças que o acompanham desde o momento em que abriu os olhos para o mundo, já órfão de mãe: 

Quando vim da materna sepultura,
De novo ao Mundo, logo me fizera
Estrelas infelices obrigado;
Com ter livre alvedrio, mo não deram,
Que eu conheci mil vezes na ventura
O melhor, e o pior segui, forçado.

E, pera que o tormento conformado
Me desse co’ a idade, quando abrisse,
Inda menino, os olhos, brandamente.
Mandaram que, diligente,
Um menino sem olhos me ferisse.
As lágrimas da infância já manavam
Com ua saudade namorada;
O som dos gritos que no berço dava,
Já como de suspiros me soava.
Co’ a idade o Fado estava concertado;
Porque, quando, por caso, me embalavam,
De versos de amor tristes me cantavam
Logo me adormecia a natureza,
Que tão conforme estava co’ a tristeza.

A imagem da vida, do mundo, do homem e do amor que, nesta canção, Camões manifesta é das mais sombrias. Sem se perder em devaneios dispersivos, ele concentra o seu discurso no desabafo doloroso de sua luta contra a Fortuna adversa, do seu cansaço de correr em vão, atrás de uma esperança que lhe escapa sempre, bem como da inevitabilidade do “curso contínuo da tristeza” que o traz atado a uma superlativa agonia até “converter-se no gosto de ser triste”. 
A Canção X se afirma, enfim, como um pungente e longuíssimo discurso acerca da irremediabilidade do desespero inerente à condição humana, em sua oposição à realidade do mundo. É evidente que o poeta traça um esboço pseudo-biográfico exageradamente dramático e desditoso, no qual o paroxismo da dor e a grandeza da sua tragédia existencial apontam para o caráter excepcional do sofrimento que o aniquila. Essa exagerada dramaticidade investida na expressão de sua desdita está, mais uma vez, bem representada no soneto O dia em que nasci moura e pereça::

O dia em que nasci moura e pereça, 
não o queira jamais o tempo dar;
não torne mais ao Mundo, e, se tornar,
eclipse nesse passo o Sol padeça. 

A luz lhe falte, o Sol se [lhe] escureça,
mostre o Mundo sinais de se acabar, 
nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
a mãe ao próprio filho não conheça. 

As pessoas pasmadas, de ignorantes,
as lágrimas no rosto, a cor perdida,
cuidem que o Mundo já se destruiu. 

Ó gente temerosa, não te espantes,
que este dia deitou ao Mundo 
a vida mais desgraçada que jamais se viu.

Como se viu, Camões amaldiçoa o dia em que veio ao mundo, oferece um quadro hiperbólico da sua tragédia existencial, exprimindo com impetuosa e excessiva veemência o seu repúdio à data malquista, pois, como ele mesmo afirma, “este dia deitou ao mundo a vida/ Mais desgraçada que jamais se viu!”
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Zenóbia Collares Moreira. A poesia maneirista portuguesa, 1999, p. 32-35.



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