13 de dez de 2011

Os Lusíadas: Parte II. Manifestações do Maneirismo na Epopéia Camoniana.


Segundo consta na história literária portuguesa, a intencionalidade de Camões, ao iniciar a composição de “Os Lusíadas” era a de seguir os modelos clássicos da epopéia, legados pela “Odisséia” de Homero e na Eneida de Vergílio, conforme os ditames renascentistas, ainda em voga na juventude de Camões, quando, aos vinte e um anos, deu início à sua epopéia. Considerando que esta só foi publicada após o retorno do poeta do prolongado exílio no Oriente, já alquebrado, desiludido, pobre e doente, é evidente que o trabalho foi revisado e alterado, especialmente no que toca os excursos do poeta. A pátria que Camões deixara em 1549, aos vinte e oito anos de idade, quando foi desterrado para Ceuta, já não era a mesma ao retornar em 1567, como ele escreve na estância 145 do Canto X, onde, cansado e desiludido, pede licença à Musa para encerrar o canto:

No mais, Musa, no mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
D´hua austera, apagada e vil tristeza. (Canto X, Est. 145)

E não sei por que influxo de destino
Não tem um ledo orgulho e geral gosto,
Que os ânimos levanta de contino
A ter pera trabalhos ledo o rosto. (Canto X, Est. 146)

Adaptação para o português atual: Não posso mais cantar, Musa, não posso mais, porque tenho desafinada a lira e a voz enrouquecida (cansada) e não pelo esforço de cantar, mas por ver que venho cantando a gente surda e endurecida (indiferente). O favor com que o gênio mais se inspira não me concede a Pátria, não, porque está mergulhada no amor da cobiça e na aspereza de uma rigorosa, inerte e deprimente tristeza. [...] E não sei por qual influência do destino a minha Pátria não tem uma alegre altivez e um geral contentamento, que levantam os ânimos continuamente e tornam alegres os semblantes para todos os trabalhos.) Esses versos são a expressão do desengano, da tristeza e da dor de Camões causadas pela decadência generalizada a que fora arrastada a nação, sob o desastroso reinado de D. Sebastião.
Comparem-se os versos das estâncias 145 e 146 do Canto final do poema, com as três das cinco estâncias que compõem a Proposição, abaixo transcritas, todas impregnadas da euforia e do entusiasmo pelo poema, absolutamente contrastantes com o tom amargurado, lamentoso e desanimado do poeta, neste final.

III

Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Calle-se de Alexandro e de Trajano
A fama das victórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram!
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.

IV

E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mi um novo engenho ardente
Se sempre em verso humilde celebrado
Foi de mi vosso rio alegremente,
Daí-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloco e corrente;
Porque de vossas águas Phebo ordene,
Que não tenham inveja às de Hipocrene.

V

Daí-me hua fúria grande e sonorosa
E não de agreste avena ou frauta rude,
Mas de tuba canora e bellicosa.
Que o peito acende e a cor ao gesto muda!
Daí-me igual canto aos feitos da famosa
Gente vossa, a que Marte tanto ajuda,
Que se espalhe e se cante no universo,
Se tão sublime preço cabe em verso!

A diferença entre o início e o fim da epopéia é gritante e poderia ser considerada uma contradição inadmissível do poeta. Todavia, esta aparente contradição se esvai ao enquadrarmos a epopéia nos princípios da estética maneirista.

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12 de dez de 2011

OS LUSÍADAS. Parte III - A questão dos escursos do poeta

Escursos são reflexões, exortações, queixas, explícita ou implicitamente expressas na primeira pessoa pelo Poeta.

Nesses escursos, o poeta tece considerações sobre diferenciadas matérias. Sendo o dono do seu discurso e não fazendo ele parte dos fatos históricos referentes ao passado de Portugal, o poeta comete desvios do modelo clássico da epopéia, rompendo aqui e ali com o cânone renascentista, na medida em que questiona esta mesma história, tece críticas severas ao Ilustre peito lusitano e faz graves acusações que poderiam comprometer a matéria épica. Contudo, tais desvios e rupturas do poeta em relação aos modelos da antiguidade clássica que se propunha seguir na proposição, não invalidam a epopéia camoniana. À luz dos estudos estilísticos e periodológicos contemporâneos, estas contradições consagram “Os Lusíadas” como a única epopéia representativa do Maneirismo europeu, e não do Renascimento, como era considerada até os avanços dos estudos sobre a literatura e os estilos epocais surgidos no século XVI em Portugal.
É, portanto, nos escursos que Camões mais comete desvios aos modelos clássicos da epopéia, rompendo de forma decisiva com as normas e os padrões consagrados pela tradição clássica.
No início do Canto X há um escurso do poeta que, já cansado e sem ânimo para finalizar o poema, interrompe o canto para pedir a ajuda de Calíope, dizendo: “Aqui, neste trabalho final, te invoco, minha Calíope, para que, em recompensa do que eu escrever (concluindo o poema), como em vão pretendo, devolvas-me o gosto de escrever que o estou perdendo.” Na estância seguinte, continua seu lamentoso discurso para a Musa, impregnado de pessimismo, evidenciando a atitude melancólica, o desânimo, e a contemplação da morte, tipicamente maneiristas, prodigamente presentes, também, na poesia lírica camoniana.
A irrupção na epopéia de um discurso na primeira pessoa voltado para as dificuldades do poeta , rompe com o cânone do classicismo renascentista, na medida em que o referente épico torna-se questionável:

“Vão-se os anos descendo, e já do Estio
Há pouco que passar até o Outono;
A fortuna me faz o engenho frio,
Do qual já não me jacto, nem me abono;
Os desgostos me vão levando ao rio
Do negro esquecimento e eterno sono;
Mas tu me dás que cumpra, ó gran Rainha
Das musas, co´o que quero á nação minha!” (Canto X, vv.5-8, estância 9),

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No canto V (est. 97 a 99), as críticas indevidas ao Capitão Gama põem em suspensão, mais uma vez, o referente épico e, como tal, colidem com os padrões clássicos da epopéia. O escurso do poeta para finalizar o canto, ocupa nove estâncias, ao longo das quais comente outro desvio, desta vez para tecer críticas a Vasco da Gama porque este, em seu longo discurso para o rei de Melinde, relatando as façanhas dos heróis portugueses, demonstrou desconhecer o valor das artes. O poeta confronta os feitos e as ações grandiosas dos heróis narrados pelo Gama com a arte (versos ou monumentos) que os glorificam, defendendo a importância da arte, como meio de perpetuá-los:

Enfim, não houve forte Capitão
Que não fosse também douto e ciente,
Da Lácia, Grega ou Bárbara nação,
Senão da Portuguesa tão somente,
Sem vergonha o não digo, que a razão
De algum não ser por versos excelente
É não se ver prezado o verso e rima,
Porque quem não sabe a arte, não se estima.
( Canto V, estância 97)


Por isso, e por falta de natura,
Não há também Virgílios nem Homeros;
Nem haverá, se este costume dura,
Pios Enéias nem Aquiles feros.
Mas o pior de tudo é que a ventura
Tão ásperos os fez e tão austeros,
Tão rudos e de engenho tão remisso,
Que a muitos lhe dá pouco ou nada disso.
(Canto V, estância 98)

No exórdio que finaliza do canto VII, Camões interrompe a narração, para invocar as Ninfas do Tejo e do Mondego, às quais pede proteção para continuar o poema e, logo a seguir, inicia um discurso pesado de tristeza e mágoa no qual vai desfiando o rosário dos seus padecimentos no exílio, onde vive na pobreza, vivendo por esmolas em terras estrangeiras, de novo derrubado e mais do que nunca, das esperanças que ia tendo. Queixa-se da pouca sorte de poeta incompreendido e perseguido:

E ainda, Nymphas minhas, não bastava
Que de tamanhas misérias me cercassem;
Senão que aquelles. Que eu cantando andava,
Tal prémio de meus versos me tornassem:
A troco de descansos que esperava,
Das capellas de louro, que me honrassem,
Trabalhos nunca usados me inventaram,
Com que em tam duro estado me deixaram!.

Após, ocupar cinco estâncias com suas queixas e lamentos, o poeta começa a dizer quem não será cantado em seu poema, denunciando a hipocrisia, o espírito de adulação, o abuso do poder e a exploração dos humildes por parte daqueles que ele exclui do seu canto. Termina este mesmo canto, enumerando as qualidades daqueles que celebrará.
Nas epopéias dos autores clássicos, os seus autores não falam de si mesmos, menos ainda dos seus males e sentimentos, não mostram as suas faces, mantém o distanciamento épico, ou seja: estão na sua obra, como Deus na criação, presentes, mas invisíveis. Tampouco existem exórdios. Camões inovou, recriou o modelo da epopéia, desviando-se do modelo clássico, apenas tangenciado.
Nestes termos, “Os Lusíadas” não é uma obra subordinada aos rígidos princípios estéticos do classicismo renascentista, ao qual ele nunca pertenceu e ao qual foi atrelado equivocadamente até a década de cinqüenta do século XX, quando surgiram os primeiros estudos, de Jorge de Sena, acerca do Maneirismo literário português. Este estudioso da obra camoniana não hesita em afirmar que Camões é perfeitamente integrável no Maneirismo português, do qual ele é o mais alto expoente.
Para sermos rigorosos deveríamos, também, considerar o episódio de Inês de Castro como uma impropriedade, dentro da epopéia, porque ela era apenas uma dama de companhia, espanhola, de D. Constância, esposa do príncipe D. Pedro que se tornou a amante do herdeiro do trono. Portanto, não fazia parte da História de Portugal. Tanto que para não tachar D. Afonso como assassino frio e cruel de Inês, o poeta desviou a culpa do crime para o povo que a teria exigido ao rei. Falseou o fato histórico, salvou a imagem do rei e inseriu Inês na História.

Zenóbia Collares Moreira Cunha (Todos os direitos reservados)

11 de dez de 2011

OS LUSÍADAS: Parte IV.- O Polêmico episódio doVelho do Restelo".


Os desvios maneiristas são mais acentuados a partir do final do Canto IV. Justamente na metade do poema concretiza-se a mais grave fuga aos princípios norteadores da epopéia. No episódio do Velho do Restelo, um dos mais belos e tocantes de “Os Lusíadas”, a voz de um velho de “aspecto venerando” irrompe no cais de embarque, verberando contra a viagem da esquadra comandada pelo Capitão Vasco da Gama. 
Com efeito, não cabem críticas tão negativas num poema épico que tem como ponto de partida exaltar a viagem marítima em busca do caminho para a Índia, que se propões a louvar os feitos gloriosos dos portugueses, dentre os quais a expansão do império proporcionada pelas navegações ocupa um lugar de destaque. O humanismo de Camões falou mais alto que a coerência do Canto, levando-o a pôr na fala do Velho as palavras que traduziam a sua própria ideologia, contrária, como a de muitos cavalheiros, a tais viagens, já criticadas por Gil Vicente no Auto da Índia.
89

Em tão longo caminho e duvidoso,
Por perdidos as gentes nos julgavam,
As mulheres com choro piedoso,
Os homens com suspiros que arrancavam.
Mães, Esposas, Irmãs, que o temeroso
Amor mais desconfia, acrescentavam
A desesperado e frio medo
De já nos não tornar a ver tão cedo.

90
Qual vai dizendo: - Ó filho, a quem eu tinha
Só para refrigério e doce amparo
Desta cansada já velhice minha,
Que em choro acabará, penoso e amaro,
Porque me deixas, mísera e mesquinha?
Porque de mi te vás, ó filho caro,
A fazer o funéreo enterramento
Onde sejas de peixes mantimento?-

91
Qual em cabelo: - Ó doce e amado esposo,
Sem quem não quis amor que viver possa,
Porque is aventurar ao mar iroso
Essa vida que é minha e não vossa?
Como, por um caminho duvidoso,
Vos esquece a afeição tão doce nossa?
Nosso amor, nosso vão contentamento,
Quereis que com as velas leve o vento?-

92
Nestas e noutras palavras que diziam,
De amor e de piedosa humanidade,
Os velhos e mininos as seguiam
Em quem menos esforço põe a idade.
Os montes de mais perto respondiam,
Quási movidos de alta piedade;
A branca areia as lágrimas banhavam,
Que em multidão co elas se igualavam.

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Não foi por acaso que João de Barros denominou a praia do Restelo, às margens do Tejo, de “praia das lágrimas”. É claro que não era em meio a festejos e alegria que ocorria o embarque dos navegantes, posto que era sabido que mais da metade pereciam no caminho ou em lutas. Camões sabia dos horrores que aconteciam nestas viagens, depois relatados no livro Viagens trágico-marítimas. A mãe que se expressa, na estância 90, simboliza bem a velhice que se deixa desamparada. Da mesma forma, a dolorosa e comovente fala da esposa que questiona a viagem, a censura e acusa, proferindo as mais belas e poéticas palavras de amor, soa como um protesto não apenas dela, mas do povo, homens, velhos, mulheres e meninos que, consternados, assistem ao embarque dos seus familiares e amigos. Estes discursos que ecoam como a voz do povo, funciona como um pano de fundo para o que viria a seguir: a irrupção, no meio da multidão, de uma voz irada e sonora que se insurgia contra a Viagem: 

94
Mas hum velho, de aspecto venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada hum pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
Cum saber só de experiência feito,
Tais palavras tirou do experto peito:

95
-Ó glória de mandar, ó vã cobiça
Desta vaidade a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
Cua aura popular que a honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles exprimentas!

96
Dura inquietação da alma e da vida,
Fonte de desamparos e de adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios!
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo dina de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana.

97
A que novos desastres determinas
De levar estes reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas,
Debaixo de algum nome preminente?
Que promessas de reinos e de minas
De ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? Que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?

O emotivo discurso da execração à Viagem vai até a estrofe 104, que finaliza o canto. Como se pode ver o discurso do Velho é uma prolongada e exacerbada crítica ao que está nos fundamentos da Viagem: a “glória de mandar”, a “cobiça”, a vaidade da fama, a que o Velho chama de “fraudulento gosto,” às quais são a motivação primeira das navegações. Servem para enganar “o povo néscio”, a quem, na verdade, só trarão desgraças, desamparos, adultérios, ruínas econômicas, perigos e mortes.
O próprio episódio é polêmico, na medida em que está indevidamente inserido em um poema épico que, que se propõe a glorificar e exaltar o que constituía a maior glória da História de Portugal e o maior orgulho dos portugueses: a Viagem de Vasco da Gama que descobriu o caminho para a Índia.
Concordo com o ponto de vista de António José Saraiva, segundo a qual o Velho do Restelo seria um porta-voz do próprio Camões, expressando a ideologia cavalheiresca do poeta, contrária às navegações. Seja qual tenha sido o motivo da inserção deste episódio na epopéia, ele se afirma como uma contradição ao que o poeta propôs ao iniciar o poema. Todavia, este pormenor não diminui o imenso valor de “Os Lusíadas”, apenas desloca o poema para outro estilo de época, ao qual Camões pertenceu: o Maneirismo. 
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Zenóbia Collares Moreira Cunha.

2 de out de 2011

A linguagem do desejo na poesia de Rosa Lobato de Farias -


Poetisa e romancista, Rosa Lobato de Faria nasceu em Lisboa em 1932. Escreveu e publicou vários romances, desde 1995, todos muito bem recepcionados pela crítica. O essencial de sua poesia está reunido no volume Poemas escolhidos e dispersos, de 1997. Em 1999, publicou A gaveta de baixo, um longo poema acompanhado por aquarelas do pintor Oliveira Tavares. 
Do livro Memória do corpo, publicado em 1992, foram selecionadas algumas as poesias, para representá-la neste ensaio, tanto pela renovação estética que nele sobressai, quanto pelo sopro de refinado erotismo que perpassa as linhas e entrelinhas dos seus poemas. A “memória” que conduz a mensagem da autora neste livro segue um itinerário afetivo que se inicia com a memória materna vinculada à infância da autora, a quem dirige os mais belos versos que o amor de uma filha poderia escrever (Minha amante secreta / Meu barco na memória / Razão da minha história / e meu primeiro amor); continua com a revivescência da adolescência (O corpo adolescendo em ventos e sargaços / pôs-se a aprender a lua / as algas as marés / a descobrir em si / gritos ondas e grutas com animais marinhos). Livro da “memória do corpo” em suas várias idades e mutações: memória da delícia mortal / de ter dezoito fomes / de ter dezoito gritos / de ter dezoito anos. Depois vem o tempo da memória da memória / do corpo que há no corpo da saudade. Mas antes de ser saudade, domínios o qual só ela devassa e conhece, a memória do corpo é de novo poema, beijo, afago. / É de novo no corpo que te trago / a exótica festa da nudez 

SONETO DE ABERTURA 
Outra coisa que o corpo há quem conheça. 
Eu não. Somente nele me cumpro viva. 
Poema, beijo, estrela, afago, intriga 
só no corpo me são pés e cabeça. 

E coração também que às vezes teça 
razão de me saber mais que a medida 
nessa trágica trama tão antiga 
a que chamam ficar de amor possessa. 

E é de novo poema, beijo, afago. 
É de novo no corpo que te trago 
A exótica festa da nudez, 

E tudo quanto sinto e quanto penso 
Toma corpo no corpo a que pertenço. 
E aqui estou: de barro, como vês. 

No poema que se segue, a expressão do amor sentimento antecede à do apelo erótico do corpo. A atitude do eu-lírico é mais de súplica, de demanda e expectação que de parte ativa no jogo amoroso: 

De ti só quero o cheiro dos lilases 
e a sedução das coisas que não dizes 
De ti só quero os gestos que não fazes 
e a tua voz de sombras e matizes 
De ti só quero o riso que não ouço 
quando não digo os versos que compus 
De ti só quero um sopro nas janelas 
da casa abandonada dos meus dias 
De ti só quero o eco do teu nome 
e um gosto que não sei de mar e mel 
De ti só quero o pão da minha fome 
mendiga que já sou da tua pele. 

No longo poema que vem a seguir, a atitude do eu-lírico é de cumplicidade e de participação ativa no jogo amoroso. 

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18 de set de 2011

A poesia feminina portuguesa no limiar do século XXI - Maria do Rosário Pedreira


Natural de Lisba, Maria do Rosário Pedreira nasceu em 1959. Fez a sua estréia na literatura em 1996, com o livro intitulado A casa e o cheiro dos livros, cuja recepção calorosa fez com que logo se esgotasse a primeira edição. Seu segundo livro, O Canto do Vento nos Ciprestes, obteve a mesma ovação por parte da crítica. Como escritora tem já vários trabalhos publicados de ficção, poesia, ensaio, crônicas e literatura juvenil. O livro de estréia revela-se como uma espécie de poética do espaço, dos interiores das casas, enquanto no segundo livro a poetisa põe em prática uma retórica que lembra a dos “ultra-românticos”, na medida em que reveste a expressão dos sentimentos de uma grandiloqüência inesperada. Trata-se de uma poesia que não se contenta em falar de amor, privilegiando uma abordagem sobre o morrer de amor. A mulher que tem voz nos poemas, ao contrário de Maria Teresa Horta, nunca fala no momento amoroso vivenciado, fruído. O seu discurso fala da espera, da ausência, do temor, da solidão, da memória, do abandono, nunca da relação amorosa presente e jubilosa:













8 de set de 2011

A poesia feminina no limiar do século XXI (Continuação)

CECÍLIA BARREIRA

Professora universitária, ensaísta e poetisa, Cecília Barreira nasceu em Lisboa em 1957. 
Como pesquisadora, vem orientando os seus interesses de pesquisa para o domínio dos universos do feminino. 
Estreou-se na literatura em 1999 com o livro 15 Anos de Alguma Poesia, seguido, em 2003, de 7 &10, livro do qual foram colhidas as poesias dadas a seguir, nas quais avulta o mesmo difuso sentimento de melancolia e pessimismo presentes nas poesias de outras representantes da geração dos anos 90:

Nunca é demais
falar dos braços que
percorrem corpos.
Das amêndoas em flor. Das árvores
felizes. Nunca é
demais repetir a
beleza esfuziante.
E que fazer perante
o corpo que envelhece,
o sonho que se trai,
o perdão que não
houve; como
entender o outro
lado da fronteira
onde o medo e a
morte espreitam?

Quando te vi percebi
que a loucura se
sente pela solidão
que nos habita.
Toda a loucura é
uma forma de nos entregarmos
ao eu mudo e queda
Não sei transportar
a vida. Sei para onde
me leva a loucura.

Sei de esplêndidos
sóis que povoam
os desenhos de criança.
Sei de universos
Paralelos e vertigens.
Mas não sei transportar
a vida. Espero que a
loucura me mate
devagarmente.

Nuvens negras
céus densos. Cores
que chocam nas
paisagens. Viajar
é ser comprido.
Viajar é a forma
que temos de
nos ausentarmos
com o perdão dos
outros.

GRAÇA PIRES

Poetisa e ficcionista, Graça Pires foi contemplada com galardão várias vezes ao longo de sua carreira, tais como o Prêmio Nacional de Poesia 25 de Abril, em 1995; o Prêmio Nacional de Poesia Fernão de Magalhães Gonçalves, 1997; o Prêmio Revelação de Poesia da associação Portuguesa de Escritores, em 1998; o Prêmio Literatura Maria Amália Vaz de Carvalho, modalidade poesia, 2003.
Graça Pires é uma das mais autênticas representantes da geração dos anos 90, ou seja, uma geração que se define “por um generalizado e difuso sentimento de melancolia”, por um gosto pela poesia do quotidiano, visto através dos mais variados ângulos. Na poesia que se segue, a autora imerge no âmago de sua melancolia, levada pela memória. Sua linguagem simples afirma-se numa zona em que uma extrema sensibilidade se entrelaça com uma serena e apurada sabedoria poética:

INTERIORIDADE

Aqui estou, cercada de mim,
melancolia trazida
de interior de um bosque,
silhueta a preto e branco
na figuração de um pássaro em vôo lento.

Há quanto tempo,
só eu sei quanto,
as amarras de um barco
se quebraram,
no interior frágil
do instante em que fui vento,
ou apenas um abandono breve,
como as mãos no acto de dar.


No ângulo do grito e da língua
se explica a leveza das lágrimas,
circunferência no interior das pálpebras,
longínquo lago na cintura dos lábios.
Cheguei ao lugar onde se cruzam
todos os ventos sem hálito
e chamo pelo nome os frutos e a fome,
para que ninguém se comprometa
ao tocar nos meus ombros.

Em outras poesias perpassa um sopro de discreta sensualidade, a relação com o próprio corpo vivo e desejante gera a poesia – subversivamente/ o instinto me descomanda, diz a voz feminina do texto. A sua fragilidade, no entanto não se entrega ao voyeurismo do leitor. A poesia consegue ser íntima sem resvalar para o confessionalismo direto e explícito da experiência erótica:

MARGINALIDADE
Subversivamente 
o instinto me descomanda.
E a magia inconsciente
do meu corpo
é um jogo clandestino
de gestos sem eco.
Há um ritual divino
nas carícias sensuais
em que me invento.
Nada me torna inocente
dos meus próprios sentidos
quando solto
as linhas marginais
do pensamento
e me seduzo
com gostos proibidos.
Sempre são excessivos os desejos de quem sonha
a vida toda um momento.
A solidão é como o vento.
É nos olhos dos mendigos
que a noite se prolonga por mais tempo.


ENCANTAMENTO

Amanhã, quando o chão for a construção da nudez
e houver, entre os teus olhos
e os meus, um súbito musgo,
não se repetirá, meu Amor
o cambalear das palavras na garganta,
nem diremos a interdição dos lagos
na saliva esgotada no sal.
Alguns corpos inventam
A dimensão incondicionada da noite,
Exposta e cúmplice como a terra.
Nós saberemos, lentamente,
O mel inquietante dos dedos.
Em nome da primeira vez que amei,
Tracei na pele um movimento eterno de combustão e dor,
Peças sensíveis da engrenagem
Em cada palavra
Definitivamente pronunciada,
Há uma lâmina de sombras vermelhas.


PELA NOITE À ETERNA DOR SE CHEGA

Pela noite à eterna dor se chega
cruel é a terra, diversa terra
quando teu rosto se esvai
e a névoa com voz de pranto
cai jamais leve sobre nós.
De breve uso, cresce no peito
uma tímida pálida alegria
precioso corpo luz, borboleta
de asas nítidas e tranqüilas
que vigia o coração dos mortos.


Diz-me secretas brandas palavras
Porque sou refúgio e escombro
De um vasto dia, áspero exílio
Nas suaves sílabas de precisos
E curvos juncos, clarão sem sol.
Desce então pelo fulgor da luz
Espírito suspenso em minhas mãos.
A espera é movimento cego.
Desce, sonâmbulo, extenso amor

A poesia de Graça Pires fala de amor, de desejo, de dor (Em nome da primeira vez que amei,/ tracei na pele um movimento eterno de combustão e dor), mas também viaja de regresso à infância, busca-se na miragem e no longe os sons, os rostos, as paisagens que amou. Tudo está intacto na cena rememorada: À infância regressa-se solitariamente,/ subindo um rio sem margens,/ até ao lugar em que a nascente/ se confunde com o tempo/ e o tempo se transforma em espanto. A busca das palavras, a procura da poesia, percorre muitas poesias, entremeadas com as tematizações do amor, do passado, dos estados de alma (no meio das palavras,/ procuro apenas um gesto/ ou um sombra [...] Em cada palavra/ definitivamente pronunciada,/ há uma lâmina de sombras vermelhas).

Zenóbia Collares Moreira Cunha

1 de set de 2011

A Poesia Feminina no Limiar do Século XXI - Ana Marques Gastão e Carla Ferreira.



A poesia de Ana Marques Gastão, noturna e saturniana, é atravessada por certa negatividade, por uma serenidade melancólica. Esta forma de expressão poética, fundadora de uma espécie nova de realismo, veiculadora da melancolia do quotidiano, do abandono e da solidão, parece obedecer a uma tendência verificável na obra poéticas femininas fin-de-siècle



VENS DE NOITE NO SONHO 



Vens de noite no sonho 
sem pés 
entre páginas 
de gasta paciência 
quando a música findou 
e teu sorriso se desfez 
como um grão de pólen. 


Vens no veneno oculto 
de meus dias 
no silêncio 
dos meus ossos 
devagar 
arrastando em queda 
o nosso mundo. 


Vens no espectro 
da angústia 
na escrita 
inquieta 
destes versos 
no luto maternal 
que me devolve a ti. 


A escuridão desce então 
Sobre o meu corpo 
Quando o rosto da morte 
Adormece na almofada. 


Sempre um de nós 
foge. Sombria água 
trepida e contínua 
água em céu diverso 
como diversa eu sou 
chão sem flor. 


Vã palavra, múltipla 
palavra, longínqua 
semente entre o arco 
e a corda. Nada sara 
em meu cego corpo 
eu que imagem sou, 
não alegoria. 


Tremor antigo, árvore 
Sem fruto, nada resiste 
Nesta cidade sem casa 
- só a garça chega em seu 
liso vôo porque o tempo 
nunca é longo. 




NÃO É O CORAÇÃO 


Não é o coração 
Mas esta carne 
Em seu rumor. 
Não é o coração 
mas teu silêncio 
de intenso furor. 


Não é o coração 
mas as mãos 
sem corpo, vazias.
Na grave melodia 
de um instante 


tu e eu 
em desequilíbrio 
na infame 
consistência 
de um absoluto 
obstáculo. 


Náufrago: em tua 
vida oculta 
se anuncia a luz. 
Desenterrada 
da sombra 
uma nova alegria. 


No silencioso ar 
gritam os mortos 
é aqui a terra. 
Mas teu rosto 


quebra o tédio imutável 
o obscuro dialecto. 
Despertas-me, escuto 
o mar, o vento, 
transparente como a noite. 


Na semente dispersa 
brota a memória 
de uma dócil casa 
conhecedora já 
dos dramas do universo. 


Ana Marques Gastão integra a novíssima geração de poetisas que desponta já no terceiro milênio, cada uma buscando e seguindo os caminhos da diversidade, todavia trazendo na escrita os elementos definidores da poesia da melancolia, herdados das gerações dos anos 80 e 90. 








CARLA FERREIRA 


Nascida em Angola, Carla Ferreira tem orientado a sua atividade artística preferencialmente para a pintura. Com Ex-tratos de água, título do livro de poesias publicado em 1998, a poetisa faz a sua estréia literária. Dentre a sua temática mais recorrente, figura a meta-poesia, através da qual vai comunicando o seu conceito de criação poética: 


O poema é um baralho de segundos 
cartas dadas aos silêncios; 
dobrando no branco intransmissível 
novelos de pele incessante; 
contemporiza notas e acessos. 
O poema coexiste no duelo dardejante -, 
a mortal tortura solidificada no poeta! 


O jogo/luta que o poema instaura no ato de sua escrita se institui como um dos tópicos que transita pelos poemas de Carla Ferreira. A poetisa dialoga com o poema, evoca a essência da poesia que em seu ser habita, trata-a por “tu”, numa relação de intimidade sem limites e sem barreiras: 


Vem até mim tu que vens de mim 
que te acercas malícia transpirada 
apresenta-te volátil ao meu momento 
Molda-me versos líquidos ao e miragens 
Caminha mudamente até mim 
tu que passeias em mim 
quando palavras são ecos ferventes 
vem banhar o deserto do meu sono 
Abandona-me aos leitos 
e à morte simulada dos sentidos 
Deixa-me as chamas 
as cinzas de cada fumo e do teu corpo 
Doloridamente feliz 
deposita-me na encosta do teu sono. 


Para a poetisa sabe que a luta com as palavras é inerente ao ato criador, daí a inevitabilidade do embate, na medida em que a poesia nasce de uma busca, de uma ânsia de dizer o mundo, de exprimir o indizível, apesar da consciência do criador de que a palavra nunca expressa fielmente a realidade: Cede-se ao contágio do papel/branco translúcido e maligno/onde delicado desliza/ o rastreio desenfreado da alma.../ Fóssil escrito a negro.


10 de ago de 2011

Ana Luísa Amaral - A poesia feminina no limiar dio século XXI - Continuação






Poetisa, ficcionista e professora de Literatura e Cultura Inglesa e Americana na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Ana Luísa é autora de vários livros de poesia, publicados a partir de 1990. O seu livro de estréia – Nossa senhora de quê – a estabelece um diálogo com o livro da poetisa Maria Teresa Horta, Nossa senhora de mim (1974).

Em um certo sentido, Ana Luísa Amaral faz um reinvestimento temático do livro de Maria Teresa Horta. Esta tenta recuperar a identidade da mulher, devolvendo-lhe a voz que o homem lhe havia usurpado nas “Cantigas de Amigo” medievais, fazendo-a assumir-se em sua inteireza, resgatando-lhe a sexualidade reprimida, tornando-a, enfim, parceira ativa na relação amorosa com o homem.

Ela recria a convenção sob um ponto de vista decididamente feminista. Ana Luísa Amaral parece questionar o posicionamento de Maria Teresa Horta, com a eliminação do pronome possessivo logo no título do livro (minha senhora de quê) e no primeiro verso do poema que leva o mesmo título (dona de que; dona de mim nem sou). A poetisa “reinventa a reinvenção de Maria Teresa Horta no “nada” de “ser” que todos somos, afinal, homens e mulheres”:




MINHA SENHORA DE QUÊ




dona de quê

se na paisagem onde se projectam

pequenas asas... deslumbrantes folhas

nem eu me projectei

se os ventos apressados


me nascem sempre urgentes:

trabalhos de permeio refeições

doendo a consciência inusitada



dona de mim nem sou


se sintaxes trocadas

o mais das vezes nem minha intenção

se sentidos diversos ocultados


nem do culto nascem

(poética do Hades quem me dera!)

Dona de nada senhora nem


de mim: imitações de medo

os meus infernos. [ii]



Esse gosto pelo reinvestimento temático, pela prática de uma “poética do avesso” é uma constante desde o primeiro livro da poetisa. Além do exemplo evidente desse trabalho pelo avesso calcado no livro de Maria Teresa Horta, há muitos outros, como um poema do livro Epopéias (1994) curiosamente intitulada Orfeu do avesso, no qual Eurídice, contrariando a tradição mitológica, recusa-se a morrer:




De pé sobre o abismo


E não morri;

Canto gregoriano

muito limpo

não me chegou;

o fim

Catedral

sobre o risco,

sobre um azul tão grande

que afundar-me podia

Ao fundo do mais fundo

mergulhei

e não morri;

amei



A temática da realidade quotidiana também transita livre pelos poemas de Ana Luísa Amaral, um quotidiano bem feminino, mas bem distanciado das abordagens feministas, como pode ser observado no poema Ritmos e em outros que virão, a seguir. Em alguns casos, a poetisa ironiza o universo doméstico feminino:




RITMOS




E descascar ervilhas ao ritmo de um verso:

a prosódia da mão, a ervilha dançando

em redondilha.

Misturar ritmos em tela apertada: um vira

bem marcado pelo jazz, pas

de deux: eu, ervilha e mais ninguém

De vez em quando o salto: disco sound

o vazio pós-moderno e sem sentido

Ah! Hedónica ervilha tão sozinha

debaixo do fogão!

As irmãs recuperadas ainda em anos 20


o prazer da partilha: cebola, azeite

blues desconcertantes, metamorfoses em

refogados rítmicos

(Debaixo do fogão

só o silêncio frio) [iii]



Nas poesias Fingimentos poéticos e Aniversário a poética do avesso é posta em prática, para parodiar textos de Fernando Pessoa. Em Fingimentos poéticos, a autora intertextualisa Autopsicografia:




FINGIMENTO POÉTICOS




“finge tão completamente”

Faz-me falta a tristeza

para o verso:

falta feroz de amante,

ausência provocando dor maior.

Tristeza genuína, original,

a rebentar entranhas e navios

sem mar.

Tristeza redundando em mais

tristeza, desaguando em métrica

de cor.

Recorro-me a jornal, mas é

em vão. A livros russos (largos

e sombrios).

Em provocando rio de depressão,

nem zepellin: balão

e ervas rente.



Um arrastão sonhando-se


navio.

Só se for o que diz o que

deveras sente.

A sério: o Zepellin.

Mas coração:

combóio cuja corda

se partiu.



Em Ás vezes o paraíso, livro publicado em 1998, é a tradição judaico-cristã que é desconstruída, subvertida. Em um dos poemas Caim escapa do castigo indo construir seu próprio “Paraíso” (A leste do paraíso), implodindo, assim, os alicerces de um dos mitos religiosos que mais incidem na questão moral, um dos ex-libres da retórica do Bem e do Mal.






NOTAS


[i] Ana Luísa Amaral. Minha senhora de quê, Lisboa: Quetzal Editores, 1999. p. 58.

[ii] Id. Ibidem, p. 58.

[iii] Ana Luísa Amaral, Op. cit., p. 58.





Zenóbia Collares Moreira. "A poesia feminina no limiar do século XXI. In: O Itinerário da Poesia Feminina Portuguesa : Século XX
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