4 de nov de 2010

Poesia Maneirista: Elementos Retóricos e Estilísticos


Dentre os elementos retórico-estilísticos mais essenciais da lírica maneirista, destacam-se o gosto pela antítese, pelo paradoxo; a preferência pelos oxímoros e pela metáfora conceituosa. A estes estilemas, podem ainda ser acrescentados a metonímia, a comparação, a interrogação, a anáfora e outros de uso menos intensivos.
O soneto que se segue exemplifica tanto esse gosto maneirista pelas antíteses como a imagem idealizada da mulher, tal como Camões a projetou na amada a quem o dedicou:

Um mover d’ olhos, brando e piedoso,
Sem ver de quê; um riso brando e honesto,
Quase forçado; um doce e humilde gesto,
De qualquer alegria duvidoso;
Um despejo quieto e vergonhoso;
Um repouso gravíssimo e modesto;
Ua pura bondade, manifesto
Indício da alma, limpo e gracioso;
Um encolhido ousar; uma brandura;
Um medo sem ter culpa, um ar sereno;
Um longo e obediente sofrimento:
Esta foi a celeste formosura
Da minha Circe, e o mágico veneno
Que pôde transformar meu pensamento.116

Vale também notar o uso da anáfora na construção do texto, conseguida pela repetição do artigo indefinido no início de sucessivos versos.
Os maneiristas podem ser vistos “como a própria encarnação do conflito humano, da contradição e da dúvida expressos nos paradoxos que denotam o labirinto em que se vêem envolvidos”.117 Assim, o gosto pelas antíteses e pelos paradoxos na poesia maneirista não se deve apenas à sedução pela imitação da lírica de Petrarca, mas sim porque estes estilemas se ajustam plenamente à essência do Maneirismo, ou seja, à tensão entre elementos opostos e inconciliáveis, à consciência da propensão do homem para a contradição.

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O paradoxo pode ser encarado como mero recurso de estilo usado para causar efeito da mesma forma que pode ser usado para expressar uma experiência vivenciada, a certeza das coisas ou dos sentimentos que se deseja comunicar. Frei Agostinho da Cruz, por exemplo, usa uma expressão paradoxal para exprimir a dimensão da grandeza de Deus: Ele he nada tudo . Ou ainda, para demonstrar a veneração merecida por tal grandeza, lança mão de expressões como: Sem vós a vida é morte, o prazer mágoa / o descanso trabalho, a glória pena. Por seu lado, Diogo Bernardes, em um dos seus sonetos, lança-se, perplexo, em questionamentos acerca da situação paradoxal em que as complicadas teias do amor o envolvem e aprisionam:

Porque, se nasci livre, me cativo?
E se o quero ser, por que não quero?
Como m’ engano mais com desenganos?
Se já desesperei, que mais espero? 118

Baltazar Estaço foi pródigo no uso das antíteses e dos paradoxos, notadamente em poesias de teor religioso. Em algumas composições, utiliza uma estrutura anafórica de grande efeito em razão do realce que esta concede aos paradoxos e antíteses, através da reiteração expressiva dos elementos que deseja pôr em relevo, como bem exemplifica os quartetos de um soneto deste poeta:

Com vosso amor, he sábio o que he ignorante,
Sem vosso amor, he nescio o que he prudente,
Com vosso amor, se absolve o delinquente,
Sem vosso amor, varia o mais constante.

Com vosso amor, o barbaro he elegante,
Sem vosso amor, tem culpa o que he inocente.
Com vosso amor, he ledo o descontente,
Sem vosso amor, o humilde he arrogante.

Com vosso amor, he claro o mais escuro,
Sem vosso amor, he vil o que he mais nobre,
Com vosso amor, he justo o mais iniquo,

Sem vosso amor, he torpe o que he mais puro,
Com vosso amor, he riquo o que he mais pobre,
Sem vosso amor, he pobre o que he mais riquo.119

O oxímoro, um tipo especial de antítese, nada mais é que a ligação entre duas idéias ou pensamentos que se excluem. “Trata-se, portanto, de uma antítese ad absurdum, tocando no paradoxo,”120 que ocupa lugar de destaque na poesia maneirista, rivalizando com a antítese e o paradoxo no gosto dos poetas.
No célebre soneto Amor é fogo que arde sem se ver, Camões, através do uso intensivo do oxímoro, procura conceituar o amor, definindo-o como um sentimento contraditório:

Amor é fogo que arde e não se vê;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata a lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor? 121

Observe-se que além do uso reiterado do oxímoro, Camões trabalha a sua definição do amor lançando mão de outros recursos comuns à lírica maneirista, dentre os quais, se destaca a anáfora da forma verbal “é”, no início de sucessivos versos.
Os três estilemas pontificam tanto na poesia profana como na poesia religiosa. O uso conceptista das antíteses e dos paradoxos é levado à prática intensivamente, constituindo esses elementos estilísticos os mais específicos da poesia religiosa maneirista e também os que mais aproximações estabelecem com o Barroco, para cuja poesia transitaram.
A metáfora resulta de uma comparação implícita, isto é, em que não surge como evidente o elo ou palavra de ligação: Ondados fios de ouro reluzentes (cabelos louros, ondeados e brilhantes); Olhos [...] em mil divinos raios incendidos (intensamente brilhantes); Honesto riso [...] de perlas e corais (dentes alvos e lábios vermelhos). Nos versos abaixo, tem-se um exemplo de construção em linguagem intensamente metafórica:

Pode um desejo intenso
Arder no peito tanto,
Que à branda e à viva alma o fogo intenso
Lhe gaste as nódoas do terreno manto
E purifique em tanta alteza o espírito
Com olhos imortais
Que faz que leia mais de que vê escrita.122

Sabe-se com Aguiar e Silva que “a metáfora tipicamente maneirista é uma metáfora conceituosa, que envolve um complicado e sutil jogo cerebral de agudeza, de alusões obscuras e imprevistas, de contrastes paradoxais, transformando-se muitas vezes numa técnica virtuosista que dificulta em alto grau a compreensão de um texto”.123

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A anáfora, ou repetição de uma ou mais palavras em início de sucessivos segmentos métricos ou sintáticos, está bem exemplificada no soneto Amor é fogo que arde sem se ver, de Camões e, também, em composições poéticas de outros maneiristas como forma de intensificação expressiva dos sentimentos e de encarecimento do que o poeta quer transmitir.
Martim de Castro e Baltazar Estaço oferecem bons exemplos de construção anafórica em vários sonetos que compuseram, dos quais foram colhidos, à guisa de exemplificação, os versos que se seguem:

Que inimigo lhe falta a meu cuidado?
Que labirinto é este em que me vejo?
Que força não encontro a meu desejo?
Que deixa contra mim meu cruel fado?
[...]
Que sossego me deu a segurança?
Que mal deixou em mim de ter assento?
Que bem deixou por mim de ter mudança? 124

No soneto de Martim de Castro, a anáfora alia-se ao recurso da interrogação que estrutura todo o soneto, utilizada com a intencionalidade de intensificar o estado emocional do sujeito, faz o jogo do contraste entre a irreversibilidade do tempo e a diferença contrastante entre a ação que este exerce sobre a natureza, sempre renovada ciclicamente, e sobre o homem, submetido à inexorável ação destruidora do seu fluir contínuo.
Confrontando a significação dos opostos, o jogo anafórico na construção do referido soneto propende a dar relevo à aludida disparidade.

Co tempo o prado reverdece,
Co tempo cai a folha ao bosque umbroso,
Co tempo para o rio caudaloso,
Co tempo o campo pobre se enriquece.
[...]
Co tempo tudo anda, e tudo para,
Mas só aquele tempo que é passado,
Co tempo se não faz tempo presente.125

A hipérbole, que posteriormente virá a ocupar lugar de relevo no estilo barroco, consiste na ênfase resultante do exagero, como se pode perceber nos versos dos seguintes sonetos camonianos:

Ela só viu as lágrimas em fio
Que duns e doutros olhos derivadas
Acrescentaram em grande e largo rio. 126

Ó gente temerosa, não te espantes,
Que este dia deitou ao Mundo a vida
Mais desgraçada que jamais viu. 127

A metonímia ou emprego de um vocábulo por outro, com o qual estabelece uma permanente e lógica relação de contigüidade, aparece, por exemplo, em versos do tipo: Frauta minha que tangendo, / Os montes fazíeis vir, (frauta = canto / poesia); Aquela carne divina / que na cruz esteve já , ( Carne divina = Cristo).
A interrogação, por sua vez, é também um recurso muito utilizado para intensificar o dramatismo da situação do sujeito lírico que prolifera, com igual freqüência e na mesma proporção, em poesias de temática religiosa e profana.
Francisco Rodrigues Lobo constrói todos os versos da primeira estrofe de um dos seus sonetos através de uma sucessividade de frases interrogativas:

Que amor sigo? Que busco? Que desejo?
Que enleio é este vão de fantasia?
Que tive? que perdi? quem me queria?
Quem me faz guerra? Contra quem pelejo?128

Note-se o uso da interrogação também nos exemplos antes dados com versos de Diogo Bernardes (Porque se nasci livre, sou cativo? ) e, também, no de Martim de Castro (Que inimigo lhe falta a meu cuidado?).
O uso da interrogação como recurso poético foi, dentre os vários elementos da estética maneirista que transitaram para a poesia barroca, um dos mais utilizados notadamente nas poesias de temática religiosa.
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116 Luís de Camões, vol. I, p.111.
117 Georgette Bergo Yahn, O homem sob o signo do desterro, p. 121.
118 Diogo Bernardes, Obras Completas, p. 60.
119 Baltazar Estaço, Sonetos[...], p. 72.
120 Hênio Tavares, Teoria literária, p. 347.
121 Luís de Camões, Op. cit., vol. I, p. 232.
122 Id. Ibid., vol. I, p. 305.
123 Vítor Manuel de Aguiar e Silva, Op. cit., p. 38.
124 Martim de Castro Rio, Canc. Fernandes Tomás, fl.194 r.
125 Baltazar Estaço, Canc. Fernandes Tomás, fl. 66v
126 Luís de Camões, Op. cit., vol. I, p. 112.
127 Id. Ibid., vol. I, p. 183.
128 Francisco Rodrigues Lobo, Poesias, p. 317.

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Zenóbia Collares Moreira. A Poesia Maneirista Portuguesa. Natal: EDUFRN, 1999. (Todos os direitos reservados)

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