23 de nov de 2010

O Mundo: Miragem, Sonho vão, Desconcerto.


Que poderei do mundo já querer 
Se naquilo em que pus tamanho amor 
Não vi senão desgosto e desamor. 
Camões 

O mundo, como a vida, é visto igualmente sob o prisma de um exacerbado negativismo pelos poetas maneiristas. Para eles, o mundo é cruel, enganador; é lugar onde imperam a maldade, a desgraça, o caos, os conflitos; onde o homem é espreitado por perigos de toda a espécie, onde caminhará, como grande vítima de um inclemente calvário, até o seu instante final. 
Na visão de Frei Agostinho, o mundo é apenas aparência, é sonho vão que enleia a vida, é terra maldita. A dor decorrente do seu desengano com o mundo resultou em muitas composições poéticas nas quais, não raro, ele expressa a sua inquietação: 

Triste de quem descansa, espera e dorme 
Nos prazeres da terra mascarados 
Cujo fruto é pesar e fim disforme, 
Que pretende dum mundo falso e cego? 32

A descrença na bondade do mundo radica no sentimento de desengano acerca do sentido da existência humana, toda ela um grande engano, uma imensa confusão, uma luta agônica e esgotante. Desenganados, certos poetas canalizam o desgosto das coisas mundanas para a expressão de uma intensa religiosidade. 
Integra-se nessa linha o “tema do mundo desconcertado”, que abre espaço para queixas e críticas dos poetas contra a desordem, a injustiça, a corrupção e a inversão de valores prevalecentes na sociedade do seu tempo, que Pedro da Costa Perestrelo tão bem traduz em uma das suas poesias: 

A doidice governa o mundo e executa 
[...] 
A razão se despreza, e se confuta, 
A justiça nas armas se converte, 
A virtude por vício se reputa. 
E como tal rendida se somete, 
E per vários extremos c’ o violência 
A ordem toda em tudo se perverte. 33

(LEIA MAIS, clicando a imagem abaixo)

Em sua lírica, Camões prodigalizou plangentes lamentos pelos desconcertos do mundo. No longo poema que escreveu sobre o assunto: Oitavas a um amigo sobre o desconcerto do mundo, o poeta vai enumerando e analisando, melancólica e criticamente, o espetáculo que este proporciona, protagonizado pelas mais diversas facetas que assumem os desequilíbrios sociais e morais dos quais ninguém está isento: 

Quem pode ser no mundo tão quieto, 
Ou quem terá tão livre o pensamento, 
Quem tão exp’rimentado e tão discreto, 
Tão fora, enfim, de humano entendimento 
Que, ou com público efeito, ou com secreto, 
Lhe não revolva e espante o sentimento, 
Deixando-lhe o juízo quase incerto, 
Ver e notar do mundo o desconcerto? 34

Notar que o poeta rejeita qualquer manifestação de espanto por parte dos homens sensíveis, dos homens conscientes, perante a realidade caótica de um mundo às avessas. 
Em outros passos de sua lírica, Camões torna a fazer do “desconcerto do mundo” matéria poética, mercê da reflexão sobre a condição do homem em meio à desordem, à inversão de valores e à injustiça prevalescentes numa sociedade cujo mal era, antes de tudo, moral: 

Os bons vi sempre passar 
No mundo graves tormentos 
E, para mais me espantar, 
Os maus vi sempre nadar 
Em mar de contentamentos35

No soneto, Correm turvas as águas deste rio, o poeta retoma as suas reflexões sobre as manifestações do desconcerto do mundo social, contrapondo-se à ordem do tempo natural em sua previsibilidade e constância: 

Correm turvas as águas deste rio, 
Que as do céu e as do monte enturbaram; 
Os campos florescidos se secaram; 
Intratável se fez o vale, e frio. 
Passou o verão, passou o ardente estio; 
Uas cousas por outras se trocaram; 
Os fementidos Fados já deixaram 
Do mundo o regimento ou desvario. 
Tem o tempo a sua ordem já sabida; 
O mundo não; mas anda tão confuso, 
Que parece que dele Deus se esquece. 
Casos, opiniões, natura e uso 
Fazem que nos pareça desta vida 
Que não há nela mais que o que parece.36

Também Os Lusíadas são pontilhados por versos críticos, quando não são amargos, contra os destrambelhos que o poeta observa na sociedade do seu tempo. Nos exórdios, que encerram sete dos seus dez cantos, por exemplo, sobressaem a melancolia, o desengano, o pessimismo, a consciência do autor acerca do desconcerto do mundo e da insignificância do homem, tão genuinamente maneiristas. 
Da consciência que tem o homem maneirista da sua condição de habitante de um mundo equivocado, incoerente e caótico, irrompe na poesia a imagem do mundo como metáfora do labirinto. 
O motivo do labirinto não é criação dos maneiristas, ele remonta a épocas recuadíssimas da história do homem no antigo Egito e na Grécia, por exemplo. Todavia, ele ressurge de um modo impetuoso e decisivo na arte e na literatura do século XVI, prolongando-se pelo século XVII. 
Gustav René Hocke define o labirinto como “o espelho do desengano,” que mostra ao homem “o reverso da enganosa realidade natural, do mundo em geral, pois este não é mais que um labirinto de enredos, falsidades e quimeras”.37
A imagem do labirinto traduz o pessimismo de quem constata a sua própria incapacidade de resolver o emaranhado angustiante da existência ante os despautérios de um mundo regido pelo caos. A imagem do labirinto aparece, então, como metáfora de todas as situações em que o homem se sente ameaçado ou perdido nos intrincados caminhos das suas emoções, dos seus sentimentos ou dos destrambelhos do mundo, enfrentando a possibilidade de se perder moral, mental ou espiritualmente, e de não encontrar a saída redentora que o salvaria e libertaria ou o caminho correto que deve trilhar em sua trajetória existencial. 
Martim de Castro Rio, Elloy de Sá Sotto Maior, Vasco Mousinho de Quevedo Castelbranco e Fernão Rodrigues Lobo Soropita incluem-se entre os poetas que mais desenvolveram esta temática em suas poesias. 
Nos trechos que se seguem, os dois primeiros expressam os seus conflitos utilizando a imagem do labirinto; o segundo lança mão de tal imagem para expor uma visão labiríntica da vida e o último a emprega para exprimir, de forma negativa, a atmosfera ameaçadora que envolve o seu sentimento amoroso: 

Perdi-me dentro de mim como em deserto, 
Minha alma está metida em labirinto 
E posto em tal perigo, já me sinto cair 
Noutro maior, nele encoberto. 38

É tal o laberinto em que me vejo, 
Tem-me a fortuna armado tal enredo, 
Que de vir a dar nele tenho medo, 
Pois quanto me faz mal, por bom elejo.39

Neste árduo Labirinto onde me guio, 
Sem esperança alguma de saída 
Mostrai senõr o fio à minha vida, 
Pois está minha vida já no fio. 40

No cego labirinto de um cuidado 
Onde tudo é pesado e descontente 
Perseguido de amor injustamente, 
De mil monstros cruéis ando cercado. 41

O Maneirismo, conforme ficou explicitado, ultrapassa a mera expressão de uma crise espiritual. No entender de Gustav René Hocke, mais que isto, ele significa a tomada de consciência do homem acerca “de um mundo que se desagrega e de uma crise epocal”.42 A esta crise, que afeta a todos, se soma, por inevitável conseqüência, uma desencantada visão do real, geradora de uma inquietude que, em muitos casos, se exaspera em amargura, suscitando versos que expressam o non sense do mundo e, nele, o papel protagonizado pelo homem: o de um ser esmagado pela aflição e invadido por impotente angústia. 
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33 Pedro da Costa Perestrelo, 
34 Luís de Camões, Op. cit., vol. II, p. 168. 
35 Luís de Camões, Rimas, p. 118. 
36 Id. Ibid., vol. I, p. 259. 
37 Gustav René Hocke, El mundo como laberinto, vol. I, p. 195. 
38 Martim Castro do Rio, Canc. Fernandes Tomás, fl. 137. 
39 Elloy de Sá Sotto Maior, Jardim do ceo, p. 31. 
40 Vasco Mousinho de Quevedo Castelbranco, Op. cit., p. 61v. 
41 Fernão Rodrigues Lobo, Canc. Fernandes Tomás, fl. 58r. 
42 Gustav René Hocke, El mundo como laberinto, vol. I, p. 195.


Zenóbia Collares Moreira

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