2 de nov de 2010

Primeiro Período Medieval: O Trovadorismo

I-  OS SÉCULOS DO SILÊNCIO DA ESCRITA FEMININA.

A Idade Média foi uma época em que a voz e a ação
das mulheres permaneciam em silêncio
José Rivair Macedo

No esquema periodológico da história da literatura portuguesa, a Idade Média está dividida em dois períodos. O primeiro tem início em 1198, data em que foi escrito o texto poético mais antigo de Portugal, uma Cantiga de Amor da autoria do trovador Paio Soares de Taveirós intitulada Cantiga da Ribeirinha ou Cantiga de Guarvaia. Este período é marcado pelo cultivo das cantigas trovadorescas, poemas feitos para serem cantados ao som de instrumentos musicais. A este período costuma-se dar o nome de Trovadorismo.
Desde o reinado de D. Sancho I (1185-1211) a literatura oral foi divulgada por jograis recitadores, cantores e músicos que percorriam as feiras, castelos e aldeias. O jogral cantava a poesia, composta pelo trovador, mediante pagamento. O trovador, de nível social superior, era em geral representante da nobreza.
A poesia trovadoresca era praticada apenas pelos homens. Os trovadores compunham as duas formas de poesia lírica: as Cantigas de amor e as Cantigas de amigo. As primeiras obedecem à ideologia do “amor cortês” segundo a qual o amante expressava o seu amor, jamais correspondido, por e a dama indiferente e inacessível. Nas segundas, o trovador, apropriava-se da voz feminina para compor variadíssimas formas de “cantigas”, nas quais a mulher é a personagem principal, que vai se encontrar com o namorado, que vai à romaria e lá espera encontrar o amigo, que vai lavar roupas ou os cabelos, etc. Há, portanto, uma ação da personagem, não apenas o desabafo intimista das suas alegrias, tristezas e vicissitudes amorosas.
É importante observar que grande parte das Cantigas de amigo revelam sua inspiração na vida popular das zonas agrícolas e refletem o ambiente das comunidades rurais, nas quais a mulher goza de importância social. As personagens femininas que nelas figuram são mulheres do povo. Assim, os elementos naturais, fonte, riacho, árvores, aves, contextualizam o ambiente e também atuam sobre o “eu” feminino, despertando o amor, ou a confissão do desejo. Sensuais, freqüentemente as Cantigas de amigo são perpassadas de realismo amoroso, que confere autenticidade à expressão dos sentimentos, refletindo uma visão de mundo despojada das artificiosas cortesias comuns no ambiente da classe alta.
Os dois textos que se seguem, escritos por D. Dinis, são exemplos de Cantiga de amigo e Cantiga de amor compostas por um mesmo trovador:

CANTIGA DE AMIGO

Com esta saudade, amigo,
que me faz triste e coitada,
já não vivo; e bem vos digo:
que seja a vossa morada,
amigo, onde possais
falar, e onde me vejais
Não posso, onde não vos vejo,
viver, bem o podeis crer;
e é tão grande o meu desejo
que peço: vinde viver,
amigo, onde me possais
falar, e onde me vejais.
Nasci num dia fatal:
por Deus, amigo, abrandai
a minha pena e meu mal;
eu vos suplico: morai,
amigo, onde me possais
falar, e onde me vejais.


CANTIGA DE AMOR

Um tal homem conheço, ai formosa
Que por vós tem sua morte chegada
Vede quem é e lembrai-vos disso:
Eu, minha dona!
Um tal homem conheço, que perto sente
De si a morte chegada certamente;
Vede quem é e tendo isto em mente:
Eu, minha dona!
Um tal homem conheço – ouvi isto –
Que por vós morre, desejais que ele parta;
Vede quem é e não vos olvideis:
Eu, minha dona!

Na Cantiga de amigo, como mostra o texto de D. Dinis, uma voz feminina expressa o seu drama sentimental, provocado pela ausência do amante. Todavia, o nome de quem a compôs é masculino. Nelas, o amor é a experiência de amar e ser correspondida, de desejar um homem acessível, e realizar a consumação do amor. Apesar de escritas pelo homem, é notável o domínio que seus autores revelam do universo feminino. Decerto que o contato dos trovadores com a mulher simples, burguesa e cortesã, resultou no conhecimento de sua psicologia, de seus desejos e expectativas. A variedade temática dessas cantigas e a maneira como a figura feminina nelas é retratada permite que se possa avaliar a dimensão do artificialismo desse ou daquele ambiente, desse ou daquele objetivo feminino.
É grande a variedade temática dessas cantigas, todas ela interessada e dar conta de todas as nuances da vida amorosa e dos sentimentos das jovens, mostrados com o mais explícito realismo.
O que vale salientar é que a participação das mulheres na poesia da época medieval é fruto do fingimento poético dos homens que as escreveram e assinaram. Portanto, a presença das mulheres na literatura portuguesa desse período é ilusória e meramente aparente: elas existem apenas no discurso poético dos homens. Todavia, essa ausência das mulheres na produção poética da época não se verificava em todos os países europeus, principalmente no sul da França, onde as mulheres participavam ativamente no processo de criação literária, inclusive como trovadoras.  Estas expressaram em suas trovas um tipo de discurso haurido na teoria do amor cortês, cujos temas eram desenvolvidos com desenvoltura e grande liberdade de expressão.
É interessante notar que o discurso poético dessas trovadoras transgredia a rígida ética cortês, como jamais os trovadores ousaram fazer, ao pôr em cheque um aspecto essencial da lírica trovadoresca: a distância dos amantes. Esta distância devia-se ao fato da dama ser sempre uma mulher casada, daí, o sigilo imposto pela Lei da Mesura provençal, que não admitia que o trovador fosse ousado com a sua dama, da mesma forma que exigia desta a desdenhosa indiferença em relação aos sentimentos do trovador, jamais correspondidos. A este cabia prestar vassalagem amorosa a dama eleita por seu coração, ser-lhe fiel e obediente, tal como o servo era ao seu senhor sem, no entanto comprometê-la. Essa obrigatória atitude de reverência, de discrição e comedimento do trovador perante a dama era questionada pelas trovadoras, ao ponto delas defenderem o direito da dama a suplicar o amor do cavaleiro.
É claro que a poesia escrita pelas trovadoras provençais surgiu no meio da aristocracia da época, ensejada pela formação cultural a qual as mulheres da classe alta tinham acesso. Na Europa, outras mulheres notabilizaram-se como escritoras, tanto que a mais celebrada poetisa medieval surgiu na França dois séculos depois das trovadoras, em 1364: Cristina de Pisan, italiana pelo nascimento e francesa por adoção.
A questão que se coloca agora é a de saber como chegaram a Portugal as Cantigas de amigo. Seriam elas uma herança árabe? É curioso que não tenham vindo de Provença, considerando que foi desta região da França que vieram as Cantigas de amor. A Provença ficou conhecida pela grande liberdade de costumes e por se ter sido durante dois séculos agasalhado os trovadores e estimulado o cultivo da poética trovadoresca. Esta poesia atravessou as fronteiras da Península nos séculos XII e XIII, onde se encontrou com uma lírica autóctone, peninsular, de origem popular, que, ao contato com aquela, ascende à literária.
As pesquisas que buscaram desvendar a origem das Cantigas de Amigo findaram sendo vãs. O que se sabe é que no século XI, poetas árabes e hebreus compunham suas carjas, que eram cantigas de mulher, compostas em língua moçárabe. Mas, mesmo que se procure nas carjas as origens das cantigas de amigo, não se pode descartar o fato de que esse tipo de lirismo se tornou possível devido à importância da mulher no meio rural, no qual ela fazia parte da força de trabalho, lado a lado com os homens. Por outro lado as Cantigas de amigo já existiam em Portugal quando as Cantigas de amor começaram a ser difundidas no país, vindas da Provença por variados meios.
O êxodo dos poetas mais talentosos para a Espanha e a ascensão de uma burguesia, intelectualmente medíocre que não via nenhum interesse no cultivo na poesia, resultaram na decadência da poesia e, conseqüentemente, no declínio da fértil produção poética trovadoresca. Em meados do século XIV o Trovadorismo estava extinto.


Fonte: Zenóbia Collares Moreira. O itinerário do lirismo feminino em Portugal/2007



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