29 de out de 2010

O segundo período medieval: A Poesia Palaciana

A Corte de D. JOÃO II: Abertura para 
o lirismo feminino. 

Ao longo do período de 1434 a 1438 o interesse pelo exercício da poesia cedeu lugar ao cultivo de obras voltadas para assuntos práticos ou morais. Somente com a chegada de D. Afonso V ao trono português, em 1438, a corte passou a promover serões no espaço palaciano, propiciando o cultivo da poesia e de outros tipos de manifestação artística. Foi nessa época que Garcia de Resende, um poeta que costumava freqüentar a corte, começou a organizar o Cancioneiro Geral, reunindo a produção poética surgida desde meados do século XV até as primeiras décadas do século XVI. Nesta fase, o panorama poético começou a sofrer alterações, a poesia que surgia apresentava um caráter bem diferente do que dominava a produção poética do período anterior: são adotadas novas formas de composição, orientadas por outros critérios bem diferentes dos que regiam a poesia trovadoresca. Tais mudanças anunciavam o início do segundo período literário da Idade Média no qual vicejou a chamada poesia palaciana que, como o nome sugere, germinou no espaço da corte, desde o reinado de D. Afonso, estendendo-se aos reinados de D. João II e D. Manuel I até o ano de 1526, data que assinala o retorno de Sá de Miranda da Itália, trazendo consigo a “novidade” renascentista para Portugal.
Com efeito, a chegada de D. João II ao trono português, reacendeu o gosto pela poesia entre os freqüentadores das festivas reuniões realizadas no palácio real. Todavia, essa poesia palaciana, surgiu despojada da música, da variedade de formas e da espontaneidade que caracterizavam as “Cantigas de Amigo” e da idealização da mulher, da subordinação da poesia à lei da “mesura” e da “vassalagem amorosa" próprias das Cantigas de Amor. A expressão poética tornou-se requintada, superficial e frívola, como pode ser observado nas composições surgidas na Corte de D. João II, coligidas no Cancioneiro Geral, título da coletânea onde Garcia de Resende reuniu textos poéticos de autores portugueses, produzidos por volta da metade do século XV até 1516, data em que foi publicado o volume.
É interessante, para quem estuda e busca compreender o fenômeno literário em Portugal, observar o lado lúdico e festivo da vida da Corte portuguesa no reinado de D. João II, principalmente se levar em consideração que a vida social da nobreza se fazia no ambiente palaciano. Fora do Paço nada havia para recrear o espírito, portanto os fidalgos e cortesãos buscavam os serões da corte, voltados para o passatempo e para a diversão.
Enraizada na vida áulica, a poesia estava sempre presente nas festas do paço, assim como as danças, os jogos e o teatro. Ela adequava-se com perfeição ao estabelecimento de uma certa forma de convívio social, caracterizada pela superficialidade das relações que ensejava, principalmente pelo parentesco que tinha com a arte da conversação e da galanteria. O assunto desta poesia não era apenas amoroso ou voltado para os encômios, celebrações, defesas de alguém ou alguma coisa, desviando-se para outros menos recomendáveis: de intriga e de maledicência, zombarias e insultos, ou ainda para amaldiçoar, cumprir uma aposta, perguntar, responder, dar avisos e contar novidades. O ambiente cortesão explica, portanto, o caráter lúdico e circunstancial de grande parte do conteúdo do Cancioneiro Geral, coexistindo com outras formas poéticas de expressivo valor literário, muitas delas produzidas por poetas que viviam fora do ambiente da corte.


A PRIMEIRA MANIFESTAÇÃO DO LIRISMO FEMININO: D. FILIPPA DE ALMADA

É nesse ambiente cortesão que vinte e três jovens mulheres ousam fazer suas primeiras incursões nos domínios da poesia, participando nos jogos poéticos que agitavam os serões do paço. Seria mais adequado chamá-las de “versejadoras” do que de poetisas, porquanto apenas improvisavam ligeiras e despretensiosas composições em versos. Todavia, há entre essas jovens, uma que merece especial atenção: D. Filippa de Almada, a mais antiga poetisa portuguesa de que se tem notícia.
D. Filippa de Almada nasceu em Coimbra no ano de 1453. Muito jovem, casou-se com o poeta Ruy Moniz, ficando viúva pouco tempo depois. Desgostosa, ingressou no Mosteiro de Odivelas, onde tomou o hábito de freira, onde faleceu com a idade de 34 anos, em 1497.
A poesia que se segue, é a única de sua autoria que chegou aos nossos dias, graças a Garcia de Resende, que a inseriu em seu Cancioneiro Geral. Trata-se de uma poesia escrita em resposta ao seu apaixonado pretendente Ruy Moniz, que se queixava da frieza com que ela rejeitava o seu amor e que, afinal, depois de tanta “esquivança”, findou cedendo às súplicas do poeta, com quem veio a casar-se:

O que recobrar não posso,

Mundo de ordem desigual,
Faz que não deseje vosso
Bem, nem queira vosso mal.
Mais me praz que assim viva
No limbo destes favores,
Que vossos tristes amores
Me darem vida cativa.
Pesa-me que o mal vosso
Já cuidei de não ser mal,
Praz-me porque sei e posso 
Crer agora de vós al.[1]

D. Filipa de Almada afirma-se como a primeira expressão do lirismo feminino na história da literatura portuguesa. Em termos comparativos a sua poesia não fica aquém da poesia cultivada pelos poetas seus contemporâneos. Além dessa poesia, há outras de menor importância registradas no Cancioneiro Geral, produzidas de improviso nos torneios dos quais participava juntamente com as “versejadoras” antes mencionadas. 

FONTE:  Zenóbia Collares Moreira. O Itinerário do lirismo feminino em Portugal. 2007.
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Notas

[1]
Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, ed. de 1973, por Costa Pimpão, vol. II, p. 133. 


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