12 de dez de 2011

OS LUSÍADAS. Parte III - A questão dos escursos do poeta

Escursos são reflexões, exortações, queixas, explícita ou implicitamente expressas na primeira pessoa pelo Poeta.

Nesses escursos, o poeta tece considerações sobre diferenciadas matérias. Sendo o dono do seu discurso e não fazendo ele parte dos fatos históricos referentes ao passado de Portugal, o poeta comete desvios do modelo clássico da epopéia, rompendo aqui e ali com o cânone renascentista, na medida em que questiona esta mesma história, tece críticas severas ao Ilustre peito lusitano e faz graves acusações que poderiam comprometer a matéria épica. Contudo, tais desvios e rupturas do poeta em relação aos modelos da antiguidade clássica que se propunha seguir na proposição, não invalidam a epopéia camoniana. À luz dos estudos estilísticos e periodológicos contemporâneos, estas contradições consagram “Os Lusíadas” como a única epopéia representativa do Maneirismo europeu, e não do Renascimento, como era considerada até os avanços dos estudos sobre a literatura e os estilos epocais surgidos no século XVI em Portugal.
É, portanto, nos escursos que Camões mais comete desvios aos modelos clássicos da epopéia, rompendo de forma decisiva com as normas e os padrões consagrados pela tradição clássica.
No início do Canto X há um escurso do poeta que, já cansado e sem ânimo para finalizar o poema, interrompe o canto para pedir a ajuda de Calíope, dizendo: “Aqui, neste trabalho final, te invoco, minha Calíope, para que, em recompensa do que eu escrever (concluindo o poema), como em vão pretendo, devolvas-me o gosto de escrever que o estou perdendo.” Na estância seguinte, continua seu lamentoso discurso para a Musa, impregnado de pessimismo, evidenciando a atitude melancólica, o desânimo, e a contemplação da morte, tipicamente maneiristas, prodigamente presentes, também, na poesia lírica camoniana.
A irrupção na epopéia de um discurso na primeira pessoa voltado para as dificuldades do poeta , rompe com o cânone do classicismo renascentista, na medida em que o referente épico torna-se questionável:

“Vão-se os anos descendo, e já do Estio
Há pouco que passar até o Outono;
A fortuna me faz o engenho frio,
Do qual já não me jacto, nem me abono;
Os desgostos me vão levando ao rio
Do negro esquecimento e eterno sono;
Mas tu me dás que cumpra, ó gran Rainha
Das musas, co´o que quero á nação minha!” (Canto X, vv.5-8, estância 9),

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No canto V (est. 97 a 99), as críticas indevidas ao Capitão Gama põem em suspensão, mais uma vez, o referente épico e, como tal, colidem com os padrões clássicos da epopéia. O escurso do poeta para finalizar o canto, ocupa nove estâncias, ao longo das quais comente outro desvio, desta vez para tecer críticas a Vasco da Gama porque este, em seu longo discurso para o rei de Melinde, relatando as façanhas dos heróis portugueses, demonstrou desconhecer o valor das artes. O poeta confronta os feitos e as ações grandiosas dos heróis narrados pelo Gama com a arte (versos ou monumentos) que os glorificam, defendendo a importância da arte, como meio de perpetuá-los:

Enfim, não houve forte Capitão
Que não fosse também douto e ciente,
Da Lácia, Grega ou Bárbara nação,
Senão da Portuguesa tão somente,
Sem vergonha o não digo, que a razão
De algum não ser por versos excelente
É não se ver prezado o verso e rima,
Porque quem não sabe a arte, não se estima.
( Canto V, estância 97)


Por isso, e por falta de natura,
Não há também Virgílios nem Homeros;
Nem haverá, se este costume dura,
Pios Enéias nem Aquiles feros.
Mas o pior de tudo é que a ventura
Tão ásperos os fez e tão austeros,
Tão rudos e de engenho tão remisso,
Que a muitos lhe dá pouco ou nada disso.
(Canto V, estância 98)

No exórdio que finaliza do canto VII, Camões interrompe a narração, para invocar as Ninfas do Tejo e do Mondego, às quais pede proteção para continuar o poema e, logo a seguir, inicia um discurso pesado de tristeza e mágoa no qual vai desfiando o rosário dos seus padecimentos no exílio, onde vive na pobreza, vivendo por esmolas em terras estrangeiras, de novo derrubado e mais do que nunca, das esperanças que ia tendo. Queixa-se da pouca sorte de poeta incompreendido e perseguido:

E ainda, Nymphas minhas, não bastava
Que de tamanhas misérias me cercassem;
Senão que aquelles. Que eu cantando andava,
Tal prémio de meus versos me tornassem:
A troco de descansos que esperava,
Das capellas de louro, que me honrassem,
Trabalhos nunca usados me inventaram,
Com que em tam duro estado me deixaram!.

Após, ocupar cinco estâncias com suas queixas e lamentos, o poeta começa a dizer quem não será cantado em seu poema, denunciando a hipocrisia, o espírito de adulação, o abuso do poder e a exploração dos humildes por parte daqueles que ele exclui do seu canto. Termina este mesmo canto, enumerando as qualidades daqueles que celebrará.
Nas epopéias dos autores clássicos, os seus autores não falam de si mesmos, menos ainda dos seus males e sentimentos, não mostram as suas faces, mantém o distanciamento épico, ou seja: estão na sua obra, como Deus na criação, presentes, mas invisíveis. Tampouco existem exórdios. Camões inovou, recriou o modelo da epopéia, desviando-se do modelo clássico, apenas tangenciado.
Nestes termos, “Os Lusíadas” não é uma obra subordinada aos rígidos princípios estéticos do classicismo renascentista, ao qual ele nunca pertenceu e ao qual foi atrelado equivocadamente até a década de cinqüenta do século XX, quando surgiram os primeiros estudos, de Jorge de Sena, acerca do Maneirismo literário português. Este estudioso da obra camoniana não hesita em afirmar que Camões é perfeitamente integrável no Maneirismo português, do qual ele é o mais alto expoente.
Para sermos rigorosos deveríamos, também, considerar o episódio de Inês de Castro como uma impropriedade, dentro da epopéia, porque ela era apenas uma dama de companhia, espanhola, de D. Constância, esposa do príncipe D. Pedro que se tornou a amante do herdeiro do trono. Portanto, não fazia parte da História de Portugal. Tanto que para não tachar D. Afonso como assassino frio e cruel de Inês, o poeta desviou a culpa do crime para o povo que a teria exigido ao rei. Falseou o fato histórico, salvou a imagem do rei e inseriu Inês na História.

Zenóbia Collares Moreira Cunha (Todos os direitos reservados)

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