1 de set de 2011

A Poesia Feminina no Limiar do Século XXI - Ana Marques Gastão e Carla Ferreira.



A poesia de Ana Marques Gastão, noturna e saturniana, é atravessada por certa negatividade, por uma serenidade melancólica. Esta forma de expressão poética, fundadora de uma espécie nova de realismo, veiculadora da melancolia do quotidiano, do abandono e da solidão, parece obedecer a uma tendência verificável na obra poéticas femininas fin-de-siècle



VENS DE NOITE NO SONHO 



Vens de noite no sonho 
sem pés 
entre páginas 
de gasta paciência 
quando a música findou 
e teu sorriso se desfez 
como um grão de pólen. 


Vens no veneno oculto 
de meus dias 
no silêncio 
dos meus ossos 
devagar 
arrastando em queda 
o nosso mundo. 


Vens no espectro 
da angústia 
na escrita 
inquieta 
destes versos 
no luto maternal 
que me devolve a ti. 


A escuridão desce então 
Sobre o meu corpo 
Quando o rosto da morte 
Adormece na almofada. 


Sempre um de nós 
foge. Sombria água 
trepida e contínua 
água em céu diverso 
como diversa eu sou 
chão sem flor. 


Vã palavra, múltipla 
palavra, longínqua 
semente entre o arco 
e a corda. Nada sara 
em meu cego corpo 
eu que imagem sou, 
não alegoria. 


Tremor antigo, árvore 
Sem fruto, nada resiste 
Nesta cidade sem casa 
- só a garça chega em seu 
liso vôo porque o tempo 
nunca é longo. 




NÃO É O CORAÇÃO 


Não é o coração 
Mas esta carne 
Em seu rumor. 
Não é o coração 
mas teu silêncio 
de intenso furor. 


Não é o coração 
mas as mãos 
sem corpo, vazias.
Na grave melodia 
de um instante 


tu e eu 
em desequilíbrio 
na infame 
consistência 
de um absoluto 
obstáculo. 


Náufrago: em tua 
vida oculta 
se anuncia a luz. 
Desenterrada 
da sombra 
uma nova alegria. 


No silencioso ar 
gritam os mortos 
é aqui a terra. 
Mas teu rosto 


quebra o tédio imutável 
o obscuro dialecto. 
Despertas-me, escuto 
o mar, o vento, 
transparente como a noite. 


Na semente dispersa 
brota a memória 
de uma dócil casa 
conhecedora já 
dos dramas do universo. 


Ana Marques Gastão integra a novíssima geração de poetisas que desponta já no terceiro milênio, cada uma buscando e seguindo os caminhos da diversidade, todavia trazendo na escrita os elementos definidores da poesia da melancolia, herdados das gerações dos anos 80 e 90. 








CARLA FERREIRA 


Nascida em Angola, Carla Ferreira tem orientado a sua atividade artística preferencialmente para a pintura. Com Ex-tratos de água, título do livro de poesias publicado em 1998, a poetisa faz a sua estréia literária. Dentre a sua temática mais recorrente, figura a meta-poesia, através da qual vai comunicando o seu conceito de criação poética: 


O poema é um baralho de segundos 
cartas dadas aos silêncios; 
dobrando no branco intransmissível 
novelos de pele incessante; 
contemporiza notas e acessos. 
O poema coexiste no duelo dardejante -, 
a mortal tortura solidificada no poeta! 


O jogo/luta que o poema instaura no ato de sua escrita se institui como um dos tópicos que transita pelos poemas de Carla Ferreira. A poetisa dialoga com o poema, evoca a essência da poesia que em seu ser habita, trata-a por “tu”, numa relação de intimidade sem limites e sem barreiras: 


Vem até mim tu que vens de mim 
que te acercas malícia transpirada 
apresenta-te volátil ao meu momento 
Molda-me versos líquidos ao e miragens 
Caminha mudamente até mim 
tu que passeias em mim 
quando palavras são ecos ferventes 
vem banhar o deserto do meu sono 
Abandona-me aos leitos 
e à morte simulada dos sentidos 
Deixa-me as chamas 
as cinzas de cada fumo e do teu corpo 
Doloridamente feliz 
deposita-me na encosta do teu sono. 


Para a poetisa sabe que a luta com as palavras é inerente ao ato criador, daí a inevitabilidade do embate, na medida em que a poesia nasce de uma busca, de uma ânsia de dizer o mundo, de exprimir o indizível, apesar da consciência do criador de que a palavra nunca expressa fielmente a realidade: Cede-se ao contágio do papel/branco translúcido e maligno/onde delicado desliza/ o rastreio desenfreado da alma.../ Fóssil escrito a negro.


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