11 de jun de 2011

Retóricas da poesia feminina fin-de-siècle - Continuação.

FERNANDA LEAL 

Canta, amor, canta comigo 
Temos tanto p´ra cantar 
Fernanda Leal 


Nascida em Lisboa, em 1942, Fernanda Leal fez a sua estréia na literatura com o livro de poesias intitulado Do outro lado do ar, no ano de 1983. Como ocorre com outras poetisas da sua geração, a autora busca no quotidiano o referente principal de seu discurso poético: 

O FUMO DO MEU CIGARRO
Sopro o fumo do cigarro 
No papel 
Explosão sobre letras 
Que se expandem. 
A nuvem resplandece 
O ar move-se. 
Lá em baixo 
Tudo morre. 
E eu fico a ver a nuvem 
Do meu fumo 
Que esmorece.

Esta focalização do quotidiano, no entanto, envereda por caminhos abertos pela visão particularizada da autora acerca da realidade interior e exterior do “eu”, da sua busca de algo que ultrapassa por vezes os limites da concretude, que se projeta “do outro lado do ar”, espaço da imprecisão e da ambigüidade, mas também da renovação que o resgata a realidade circundante com outras roupagens: 

Tenho um quadro na parede 
E no quarto uma janela 
Toda aberta, aberta ao mundo, 
Sem vidros e sem cortinas. 
Entra luz doirada e quente 
P´la janela do meu quarto, 
Tem sol por dentro e por fora. 
Fica tão linda a parede 
Com o mundo pendurado. 
Mundo em tinta mundo em luz 
E só eu posso abraçá-lo 
Fico com oiro nos braços 
Luz do sol que está no quadro 
Da parede do meu quarto. 

No silêncio abaulado 
Do meu canto 
Sob a sombra axadrezada 
Da cortina 
Escorrem cores 
Devagar 
Nos vidros da janela 
Ainda dorme 
Ao pé de mim. 
E eu espero 
Que ela acorde. 
Devagar 
Eu abro os braços 
E aperto contra o peito 
Este momento 
No silêncio abaulado 
Do meu canto. 

Na poesia de Fernanda Leal, a concisão da expressão poética está ao serviço de um estilo depurado, construído pelo viés de uma rigorosa síntese, sustentada pelo uso da expressão precisa, sem volteios retóricos ou floreados metafóricos. 

TÉDIO 

Por aqui 
Estou a viver 
Horas minutos morrendo 
Não há fome 
Não há medo 
Não há trigo 
Não há vento 
Só há tempo 
Muito tempo 
A sobrar dentro de mim. 

ANOITECER 
Um mundo nascido 
Dentro do meu quarto, 
Ao som refractado 
Do canto do sol 
Deslizam por mim 
Cheios de penumbra 
Os nós destacados 
Da noite a chegar. 

Variada e desconcertante, a poesia de Fernanda Leal por vezes alça vôo de lirismo pelos horizontes do real, revelando-o a partir de uma expressão subjetiva, matizada de depurado sentimento, de timbre camoniano: 

DESPEDIDA

Despedida 

É sentir que a alma se entristece 
Por deixar um amigo ao fim do dia 
É beijar em cada dia o sol que desce 
Sem deixar o sol da véspera que nos grita 
É correr sem ver a praia rente ao mar 
E sentir a brisa branda na corrida. 

Despedida 
É ver fugir o vento na cortina 
Quando ele se revolta ao pé da gente 
É ficar à beirinha do passeio 
E fechar o ar da noite em nosso peito 
P´ra apagar um candeeiro em cada esquina. 

Apesar da brevidade de alguns textos, estes, no entanto, abrem-se para diversas leituras e múltiplas interpretações. A poesia de Fernanda Leal resulta de uma postura poética das mais interessantes e acabadas da poesia dos anos 80, que nos faz remontar, por vezes, a uma romântica visão de mundo. 


INÊS LOURENÇO 


O caruncho repicava nas frinchas 
Alongava as pernas 
A casa envelhecia 
Inês Lourenço 

Nascida em Lisboa, em 1959, Inês Lourenço fez a sua estréia na literatura no ano de 1980 com o livro de poesias Cicatriz 100%, prefaciado por Maria Isabel Barreno. Colaborou em várias Antologias de poesia contemporânea, no Jornal de Letras –JL -; Colóquio, Artes e Idéias, etc. Sua poesia, como a de outras poetisas da sua geração, volta-se para um “novo realismo” ligado à revalorização do quotidiano. A poetisa trabalha a matéria que lhe vem da realidade concreta, do dia-a-dia, de forma absolutamente exterior e explícita, objetiva e centrada no objeto do espaço externo (Na rua das traseiras havia um cata vento/ veloz nas turbulências de Inverno). Suas percepções das coisas vão orientando os poemas, nos quais pouco se entrever da sua autora. O “eu-poético”, quando fala de si, reporta-se ao passado, à infância (a minha infância/ cheira a soalho esfregado a piaçaba/ aos chocolates do meu pai aos Domingos). 

SATÉLITE

Os meus olhos acolhem um bando
de reflexos, invisíveis a horas
mais sombrias, na luz aberta
deste fim de Junho. Vêm ao meu
encontro os grandes plátanos do
jardim, ameaçados pelas

prováveis escavações do Metro.
Por ora ainda matizam os rostos
dos passantes e a penumbra das
janelas. No passeio das paragens
de autocarro para Ermesinde,
Areosa e outros debruns urbanos,
o volume dos corpos recorta-se
quadriculado pela luz.
 Seios e estômagos transferem-me para
um estranho país de aleitamento e
digestões. Sigo num culpado
exílio a dobrar
os passos para o Satélite, onde
regresso ao aroma navegável
do cimbalino.

MIRAMAR

Acender um cigarro na praia, proteger
o difícil estertor da pequena chama. Anular
o vento na manga do teu casaco. Reter
preso entre os dedos o princípio breve
dessa efêmera combustão.

GUILHERMINA SUGGIA
(variações sobre um retrato)

No escarlate do vestido
entre os joelhos avulta
o versátil companheiro
que em voz grave lhe responde
desde esse Porto marítimo
da infância, muito antes
da era dos petroleiros e
da boçalidade dos banhistas.
No atelier londrino
de Mallord Street,
o pintor fixa o instante
de uma metamorfose.
Na tela cresce a silhueta
Unida ao Stradivarius,
Num corpo mútuo
De exótica mariposa,
Olhos cerrados no meridional
Abraço. Nem Pablo
O virtuoso, nem qualquer outro
Amante, desatará jamais
Esse abraço sem fim.

Poetisa da geração 80, Inês Lourenço integra o coro de vozes poéticas femininas que ajudam a renovar a poesia que a partir desta década abriu espaço para tantas poetisas de expressiva qualidade, como Teresa Rita Lopes, Rosa Alice Branco e Adília Lopes, para citar apenas algumas. Sem regras a obedecer, sem rumos pré-estabelecidos a seguir, a poesia dessa geração chama a atenção pelas diferentes linguagens que instituem, pelas diversificadas e até divergentes tendências que as conduzem. Todavia a presença do real quotidiano prepondera em todas elas, reabilitado, renovado e inovador.
____________________________________________________

Zenóbia Collares Moreira .  "Retóricas femininas fin-de siècle". In: O Itinerário da poesia feminina portuguesa: Século XX. Parte III (c
ontinuação).


CONTINUA

3 de jun de 2011

Retóricas da poesia feminina portuguesa "fin-de-siècle.

O itinerário do lirismo feminino, iniciado no longínquo e já enevoado século XV, aproxima-se do presente da história literária da contemporaneidade mais imediata trazida pelo terceiro milênio, para a qual todas as poetisas que se estrearam a partir dos anos 80 transitarão. Todavia, parte das poetisas, pertencentes à novíssima geração fin-de siècle, que atravessarão as fronteiras do milênio, trazendo em suas obras novas visões, novas formas de estar na poesia e no mundo, deram início à publicação das suas obras na década de 80 e de 90. Isto não significa, no entanto, que poetisas com obras publicadas em décadas anteriores não se incluam dentre as mais importantes vozes da poesia feminina contemporânea portuguesa como é o caso, por exemplo, de Maria Teresa Horta, que se estreou em 1960.



ADÍLIA LOPES




A minha poesia não é exclusivamente satí-
rica, é também lírica. (...) Há sempre uma
grande carga de violência, de dor, de serie-
dade e de santidade naquilo que escrevo.



                                                 
Adília Lopes, nascida em 1960, é nos dias atuais uma das mais importantes poetisas de Portugal. A sua poesia é considerada uma exceção, “um caso bastante singular” da poesia portuguesa fin-de-siècle, à qual se ajusta com absoluta propriedade, embora com nova roupagem, o conceito de belo baudelairiano, como expressão grotesca da realidade, das coisas simples do cotidiano. Todavia, trata-se de uma espécie de grotesco que não recorre ao fantástico. No grotesco adiliano, o real é a peça chave do poema. Ele é penetrado da realidade mais prosaica, funde-se nela, ao mesmo tempo em que dela se afasta, que desestrutura as bases de sua estabilidade, com tal força transformadora que tudo quanto antes parecia familiar e imutável, reaparece travestido em seu contrário, em seu aspecto ridículo, desarazoado, desconchavado.



Fedra está apaixonada


por Hipólito

Hipólito

não está apaixonado

por Fedra

Fedra enforca-se

Hipólito morre

num acidente



Todos esses ingredientes, além de remeterem para a esfera do perverso, para o efeito corrosivo dos mecanismos da ironia, da sátira-traços marcantes da poesia de Adília -, remetem para o humor, em alguns casos beirando à comicidade acasalada com o patético.


Com os remédios


engordo 30 Kg


o carteiro pergunta-me


para quando


é o menino


nos transportes públicos


as pessoas levantam-se


para me dar o lugar


sento-me sempre
[1]



O aparecimento de sua obra irreverente, antilírica e provocadora, não foi percebido senão após muito tempo, cerca de 15 anos, ao longo dos quais a poetisa publicou cerca de treze livretos de poesia, praticamente despercebidos pelo grande público leitor. A situação começou a ser revertida após a publicação de Obra, livro que reúne 15 títulos, dentre os quais a autora incluiu dois livros inéditos, Regresso de Chamilly e Irmã Barata, Irmã Barata. Os ventos favoráveis a esta mudança sopraram do meio universitário, através de críticos como Américo Lindeza Diogo e Osvaldo Manuel Silvestre, que compreenderam e respeitaram a liberdade com que a poetisa fazia de sua poesia “um jogo bastante perigoso”, conforme a própria autora deixa entrever nos versos de uma das poesias incluída em seu primeiro livro, Um jogo bastante perigoso, publicado em 1985:




Os poemas que escrevo


são moinhos


que andam ao contrário


as águas que moem


os moinhos


que andam ao contrário


são as águas passadas.




Conforme sublinha António Guerreiro, “este poema desenvolve muito mais uma lógica do que uma poética. Mas isso é o que acontece em toda a poesia de Adília Lopes, e é precisamente aí que se torna bem visível a periculosidade do jogo: o que está em causa não é, de modo algum, a produção de uma obra bela (digamos, uma experiência estética, naquilo que ela tem de edificante futilidade), mas a vida ou a morte do autor”.
[2]

Isto poderia assumir um sentido “trágico”, se este, em sua obra, não se confundisse com o ridículo, com a zombaria:


Os gostos e os desgostos


levam ao poema


como podem levar


ao precipício


o poema fala do precipício


lá haverá choro


e ranger de dentes


e não haverá Kleenex


nem o Dr. Abílio Loff


o meu querido dentista


o poema fala do precipício


evitado a tempo


o mau poema não mata


(mais vale burro vivo


que sábio morto).




A proposta poética de Adília Lopes não obedece a um plano linear e redutor, ao contrário disto ela incorpora todas as possíveis linguagens, a erudita e a popular, lança mão de qualquer matéria, não importando se são ou não consideradas poéticas, não respeitando, portanto, certas convenções impostas pela dignidade da poesia, pelo bom gosto e outras convenções que se instituem em torno do que se deve ou não de deve dizer em poesia. Como diz António Guerreiro, Adília escreve as suas poesias “de costas viradas para o leitor” e centrando-a no autor, “não sob a forma de um eu como centro de uma construção ou de uma expressão”, mas de um eu que põe em prática uma lógica implacável de que também ele não se salva.
[3]

Mas é justamente na lição emancipatória, que oferece cada livro, cada poesia de Adília, que reside todo o interesse que deve mover os que buscam o prazer do texto, a convencia com o “novo”, sem pruridos de preconceituosa pudicícia, sem os espartilhos da tradição poética. Despojados desses escudos que de nada nos protegem, senão dos nossos próprios receios de gostar, aderir e tornarmo-nos cúmplices da tão impudica revelação de tudo que é orquestrado no concerto das linguagens adiliano, tudo quanto, estranhamente os críticos de Adília usam para distinguir a sua poesia da poesia “decente” dos seus contemporâneos, esquecendo o que todos aprendem desde cedo: que “a poesia é, por definição, coisa digna: onde ela fala, o mundo cala”.




METEREOLOGIA




Deus não me deu


um namorado


deu-me


o martírio branco


de não o ter


vi namorados


possíveis


foram bois


foram porcos


e eu palácios


e pérolas


não me queres


nunca me quiseste


(porquê, meu Deus?)


a vida


é livro


e o livro


não é livre


Choro


Chove


Mas isto é


Verlaine


Ou:


um dia


tão bonito


e eu


não fornico


A solidão


De Adão


Antes da criação


de Eva


devia ser


terrível


mas a minha


é bem pior


os homens


que escreveram


o Gênesis


não pensaram


que Adão


em vez de saudar


Eva


Com um grito de júbilo


A mandasse embora


Com sete pedras na mão


Mas eu acho


Que foi


O que me aconteceu


Temendo isso


Deus


Não me deu


O papel de Eva


Nem o de Maria


Porque também


S. José


Me tinha corrido


A pontapé


Do livro Clube da Poetisa Morta, publicado em 1997, foi recolhido o poema, dado a seguir, tão desconcertante quanto os demais da autora:


O morto do horto


É o porco


Da aldeia


O moço


Espetou-lhe


A faca


No cachaço


A Maria Arminda


Felicíssima


Mexe o sangue


No balde


Com a pá


A mãe catequista


Fugiu para os montes


Com o avental


Pela cabeça


Para não ouvir


Os gritos


Tudo se passa


Na casota


De madeira e de palha


Rente ao poço


Rente ao osso.




O fato é que, depois de tantos livros publicados, Adília Lopes é reconhecida e começa a conquistar espaço no mundo das letras para a sua obra. Todavia, comenta Eduardo Pitta, a autora suscita no meio literário a “reacção admirativa de quem contempla um unicorne em pleno Rossio (...): se a crítica não sabe o que dizer de quem tão ostensivamente a põe em causa, a academia, manifestamente, diverte-se, assim disfarçando a sua incomodidade perante o fenômeno que, no fundo, não consegue entender”.
[4] Com efeito, Adília Lopes confunde a crítica, desnorteia qualquer tentativa de rotulá-la, e, mas que tudo, ousa escrever um tipo de poesia que escapa ao comum, ao previsível e que se lança na mais despudorada revelação de tudo. “como se nos dissesse que a literatura vive desse suplemento de mistério, e de alma, a que damos o nome de Autor – e que, anulando este sob a revelação pública da mesquinhez dos seus abismos, nada mais resta do que uma linguagem desalmada, neutra e freqüentemente baixa, isto é, obscena, quais são obscenos todos os autores, por isso que são autores. A literatura seria, pois essa forma de publicidade extrema do mais íntimo que só criaturas desprovidas de pudor – e de senso – se atrevem a praticar”, [5] e é o que faz Adília:



Eu quero foder foder


achadamente


se esta revolução


não me deixa


Foder


até morrer


é porque


não é revolução


nenhuma


[...]


a relação entre


as pessoas


deve ser uma troça


hoje é uma relação


de poder


(mesmo no foder)


a ceifeira ceifa


contente


[...]


a gestora avalia


a empresa


pela casa de banho


[...]


a galinha brinca


com a raposa


eu tenho o direito


de estar triste


Sobre Adília, escreve o Prof. António Ladeira, nos comentário críticos que escreve sobre o livro da poetisa – Adília espanca Florbela Espanca -: Vivendo eu fora de Portugal, surpreende-me que a poesia de Adília – há dez anos uma curiosidade inofensiva – seja hoje conhecida, cause escândalo, tenha palavrões, seja sacrílega quando “insulta” a Florbela Espanca, etc. Há muito que a poesia portuguesa precisava de uma Adília Lopes, de um “purgante” para ver se recupera alguma da dignidade perdida. (...) as pessoas já mereciam este choque elétrico para que, com o tempo, volte tudo outra vez ao normal; trata-se de um ciclo salutar, essencial em poesia”.
[6]



Para finalizar, a resposta de Adília ao entrevistador que lhe perguntara se ela conseguiria explicar a razão pela qual a imagem do bordel é tão utilizada em sua obra: “Na adolescência gostava de ler histórias de sexo sórdido como a Nana de Zela ou O Delfim de José Cardoso Pires. Ao fim e ao cabo a história da Redenção começa com um beijo sórdido, o beijo de Judas, que custou 30 moedas. Com o passar dos anos fui-me tornando mais lírica. A Ressurreição começa com Maria Madalena, uma puta pura. Actualmente reconheço que uma sex-shop tem menos sex-appeal para mim que uma Igreja católica romana”.

[1] Adília Lopes, Antologia, p. 181.
[2] António Guerreiro, “A morte do artista” in:  O Expresso, de 10/ 03/ 2001.
[3] Id. Ibidem.
[4] Eduardo Pitta, “A voz do canto”, in: O som & a sombra, Revista LER, nº 49, último semestre de 2000.
[5] Id. Ibidem.
[6] Prof. António Ladeira, “o eterno retorno”, in: Apresentação do livro  da autora

_________________________________________________________________


Zenóbia Collares Moreira. O Itinerário da poesia feminina portuguesa: Século XX. s/d.