4 de ago de 2011

A POESIA FEMININA NO LIMIAR DO SÉCULO XXI.

 Os últimos anos da década de 80 viu surgirem várias vozes femininas talentosas que levaram para a década seguinte uma rica produção poética, à qual somaram-se as de várias outras surgidas ao longo dos anos 90 e 2000. Dentre tantas, sobressaem os nomes de Agripina Costa Marques, Ana Luísa Amaral, Ana Marques Gastão, Ana Paula Inácio, Graça Pires, Inês Lourenço e Maria do Rosário Pedreira. Apesar de já ter decorrido mais de quatro anos neste início de milênio, ainda é cedo para se definir alterações e mudanças no panorama poético desta primeira década. Todavia, a diversidade e o contraste que caracterizaram as produções poéticas das gerações de 80 e 90 parecem ter continuidade entre as representantes da poesia mais recente.




AGRIPINA COSTA MARQUES 




A poesia de Agripina Costa Marques, lançada ao público em 1993, é produto de um trabalho que de há muito tempo vinha sendo desenvolvido e exilado na escrivaninha da poetisa. Na década de 80, a coleção de poesias escritas por Agripina já era suficiente para constituir um magnífico livro que, no entanto, era sempre adiado para uma data imprecisa. A poetisa não tinha pressa. Casada com o poeta António Ramos Rosa, dedicava-se mais ao prazer de secretariar o trabalho do marido, de quem sempre foi e é uma admiradora ardorosa, do que se preocupar com a publicação da própria obra.


A recepção calorosa da crítica ao livro de estréia da poetisa – Instantes. Permanências - confirma o talento da autora e a qualidade do seu trabalho.



O poema de abertura do livro, Ciclos, Fragmentos, Idades, anuncia a “sabedoria sossegada”,[i] que conduz o discurso poético da Agripina Costa Marques, ao longo dos poemas reunidos no livros:



Que me tome a serenidade

que sobre mim se verta

em generosa dádiva.

Que ante as dissonâncias

que ferem a minha mente

lhe consagre uma leveza de asa

imune: a ameias que sitiam

ou a iníqua voragem.



Comentando as poesias da autora, publicadas no livro Ciclos, Fragmentos, Idades, Fernando Martinho Guimarães diz: “Ao amontoado desertificante das coisas do mundo, a poesia de Agripina Costa Marques propõe e celebra a origem fundadora da consubstanciação. Mas sem liturgia nem homilia que no seu procedimento ritualista nega o que afirma”:[ii]



Quando se vela a luz numa penumbra

mais fundamente no teu conhecimento

evocas a Presença em recíproco apelo.

Com o olhar renovado na abolição do tempo

De novo acedes à invisível luz que em ti dispersa

Sob a expansão de um dilúvio solar.



A realidade, o quotidiano não é dado de forma mimética, mas transfigurado, interiorizado e filtrado pela percepção particularizada da autora:



Na rara limpidez, a fragância

mais pura consagra o dia pleno

a floração das rosas.

Rompem a obscuridade, de coração

vibrante. Deslumbram:

os raios solares, a seiva ardente.

Cálices em avidez fruindo a luz.



A poesia de Agripina Costa Marques não se institui como espaço para confessionalismo ou desabafo das inquietudes pessoais da autora, tampouco de faz como arma de protesto. Nela a palavra não tem a missão fundadora e nomeadora do real, pois , para a poetisa, “nome é prece que em recolhimento/ se murmura. Em fervor concentrado/ no nome se nomeia o que o nome/ mediatiza quando nele se identifica/ nome e nomeado na extrema contensão/ de nomear por dentro do nome”. Como diz Fernando Martinho Guimarães: “se fosse o caso de reconduzir a poesia de Agripina Costa Marques a uma cosmogonia confrontadora, seria à de Anaximandro pela recusa em nomear explicitamente a origem e horizonte de inteligibilidade a partir do qual tudo acede ao ser”.[iii]



Zenóbia Collares Moreira

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Notas

[i] A expressão é de António Cândido Franco.

[ii] Fernando Martinho Guimarães, “Recensões” in Letras & Letras, 1999, p. 3.

[iii] Id. Ibidem, p. 4.

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