2 de mai de 2011

Maria Teresa Horta, Natália Correia, Natércia Freire,









MARIA TERESA HORTA




A poetisa, ficcionista, crítica literária, teatróloga e jornalista Maria Teresa Horta, nasceu em Lisboa. fez parte do movimento literário Poesia 61 e assinou com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa o livro Novas cartas portuguesas. Como poetisa publicou: Espelho inicial (1960), Tatuagem (Poesia 61), Cidades submersas (1961), Verão coincidente (1962), Amor habitado (1963), Candelabro (1964), Jardim de inverno (1966), Cronista não é recado (1967), Minha senhora de mim (1971), Educação sentimental (1975), Mulheres de Abril (1977), Poesia completa (1983, Os anjos(1983). Como ficcionista publicou vários romances e contos.

Os poemas que vêm a seguir foram coligidos dois livros publicados a partir da década de setenta: Minha senhora de mim (1971) [1] e Educação Sentimental (1975). No primeiro, Maria Teresa Horta põe em prática uma recriação de textos buscados na tradição poética lusitana, privilegiando especialmente o cânone próprio da lírica medieval, sem desprezar alguns legados da lírica renascentista. Esse livro afirma-se como abertura uma vertente erótica da poesia de Maria Teresa Horta, espécie de fio de Ariadne a guiar o discurso poético da autora nos labirintos da sensualidade e a auto afirmação femininas que, em sua obra, encontra a mais refinada expressão. A desenvoltura com que a autora faz a abordagem do tema, a franqueza absoluta do seu desinibido discurso são prenúncios das obras que a ele se seguiriam, como Educação sentimental e Rosa sangrenta (1987), bem mais atrevidas e transgressivas. O impacto causado pelas poesias de Nossa senhora de mim torna-se compreensível, sobretudo porque o livro era de autoria feminina, o que potencializou o efeito e a reação da censura. Todavia o que mais pesou foi o fato da poetisa ter-se apropriado das formas e motivos próprios de uma tradição lírica nacional para subvertê-las ao seu bel prazer, despojando-as das suas características mais essenciais ao mudar o discurso da voz feminina das Cantigas de amigo[2] medievais que, embora seja feminina a voz que nelas fala, são compostas por um homem. É justamente esta voz feminina das cantigas de amigo que Maria Teresa Horta faz ressurgir nesse livro, não mais como objeto de um discurso que não é seu, mas como sujeito assumido do seu próprio discurso (Regresso para mim / e de mim falo / e desdigo de mim / em reencontro), com vós própria e assumindo uma atitude reivindicatória bem contrária à da mulher medieval.

No poema Regresso, que abre o livro Nossa Senhora de Mim, vê-se, em seus versos, o anúncio do retorno da mulher, representada nas cantigas medievais, pela voz de Maria Teresa Horta, tornada, ela própria, a voz que assegura o retorno dessa mulher falada pelo homem que se apropriava poeticamente do seu discurso. Todavia, o “reencontro” com o passado lírico de que fala o poema “não pode ser figurado, em última análise, senão como “desencontro”:



Regresso para mim

e de mim falo

e desdigo de mim

em reencontro

[...]

trago para fora


o que é secreto

vantagem de saudade

o que é segredo



retorno para mim

e em mim toda

desencontro já o meu regresso.



No poema, dado a seguir, a autora intertextualiza o verso inicial do poema Cantiga, de Francisco Sá de Miranda, poeta renascentista português (Comigo me desavim / Sou posto em todo perigo; / Não posso viver comigo / Nem posso fugir de mim). [3] Maria Teresa Horta apropria-se do verso “comigo me desavim”, do poeta quinhentista, para iniciar o poema que leva o mesmo título que nomeia o livro. Nele, o discurso poético é caracterizado pela repetição reiterada de pronomes da primeira pessoa do singular, além de usar a forma pararelística própria da Cantiga de Amigo medieval. Esse uso reiterado de pronomes na primeira pessoa singular, somados à estrutura repetitiva, própria das cantigas medievais paralelísticas, denotam a fixação obsessiva em afirmar a identidade feminina. A reiteração da expressão “de mim” na primeira, terceira e quinta estrofes do poema funciona como uma espécie de refrão:




Comigo me desavim

minha senhora

de mim

sem ser dor ou ser cansaço

nem o corpo que disfarço



Comigo me desavim

minha senhora

de mim

nunca dizendo comigo

o amigo nos meus braços



Comigo me desavim

minha senhora

de mim

recusando o que é desfeito

no interior do meu peito



Note-se que a concentração exclusiva no elemento masculino ausente, tão típica das cantigas de amigo, é substituída no poema pela atenção igualmente obsessiva dispensada ao eu feminino. O revisionismo que preside o discurso de Maria Teresa Horta em Nossa Senhora de Mim, não se contenta apenas com a exploração de uma dentre as diversas fórmulas líricas oferecidas pela rica tradição poética portuguesa. Ele vai desde a simplicidade das cantigas paralalísticas, e do ludismo conceituoso haurido no figurino do Cancioneiro Geral (como no poema mirandino antes citado), até entrar nos domínios das redondilhas que parecem guardar ressonâncias de um maneirismo haurido, quiçá, no encantatório lirismo camoniano:



Enredada estou de mim

Nesta febre em que me vejo

Já enredada de ti

Não se cura o meu desejo



Em Educação sentimental a poetisa dá uma ênfase especial à desconstrução da feminilidade tradicional, recuperando para o discurso poético a identidade simbólica feminina, através de metáforas do próprio corpo da mulher, dentre as quais ocupa primeiro plano o sangue menstrual (Menstruo do corpo / tão próximo da terra / que se confunde com a / morte e a magia), a partir do qual a poetisa vai construindo associações que dão conta da experiência exclusiva e específica da mulher em qualquer país ou em qualquer tempo.

Não são poucas as poesias, nas quais, ousadamente, Maria Teresa Horta resgata a sexualidade feminina (e a alegria / do corpo sem disfarce), a sua participação ativa na relação amorosa (não tenhas medo / daquilo que te ensino...), o seu direito ao prazer e à realização das suas fantasias eróticas (lambe-me os seios / desmancha-me a loucura / usa-me as coxas / devasta-me o umbigo / abre-me as pernas / põe-nas nos teus ombros / e lentamente faz o que te digo), mais que tudo sua poesia é um canto de exaltação à harmonia do corpo com o amor que impulsiona o desejo, ela promove somente a libertação do discurso poético feminino das amarras que bloqueavam ou interditavam a verbalização da sua sexualidade, a menção de sua intimidade, ela também libera o corpo, as partes do corpo e seus segredos.

O homem, na poesia de Maria Teresa, deixa de ocupar o papel principal na ribalta amorosa, o que conduz o ato sexual e a busca do seu próprio prazer, agora conduzido também pela mulher, pelos caminhos das suas fantasias eróticas e das exigências do seu desejo. Ela já não se coloca como a aprendiz de outrora. Ela conhece o próprio corpo, ela sabe onde o desejo se agita (Afaga devagar as minhas / pernas / Entreabre devagar os meus / joelhos). Com efeito, o homem perde o seu estatuto de parte ativa, a quem cabe conduzir a relação a dois. Ao contrário disto, ele é o parceiro, o cúmplice da mulher na aventura suprema da fruição recíproca dos prazeres da carne e do amor correspondido ou consentido. A mulher coloca-se na posição de defensora do seu prazer, ousando ensinar ao parceiro, conduzi-lo na vertigem da viagem pelo corpo aceso pelo desejo, subvertendo assim a tradição milenar que impunha à mulher uma atitude submissa, a aceitação passiva de mero objeto do prazer masculino. No poema Educação sentimental ela é a ativa agente da relação:



Põe devagar os dedos,

Devagar...

Carrega devagar

Até ao cimo

O suco lento que

Sentes escorregar

É o suor das grutas,

O seu vinho

Contorna o poço,

Aí tens de parar,

Descer, talvez,

Tomar outro caminho...

Mas põe os dedos e sobe,

Devagar...

Não tenhas medo

Daquilo que te ensino...



É de amor que a poetisa fala em seus poemas, mas de um amor total que liga o homem e a mulher por todas as pontas do ser com laços indestramáveis, cujas laçadas seguras fundem e confundem os corpos e os desejos.







NATÁLIA CORREIA



Poetisa, dramaturga, ensaísta e ficcionista, Natália de Oliveira Correia nasceu em 1923 na ilha de S. Miguel dos Açores. Foi Secretária de Estado da Cultura. Natália Correia é uma das personalidades mais destacadas da vida literária, cultural e cívicas de Portugal.É meritório o seu trabalho na defesa da liberdade, da cultura e dos direitos da mulher portuguesa. Em 1947 fez sua estréia no mundo das letras, com um livro de poesias – Rio de nuvens, no qual a expressão poética da autora ainda anda atrelada a um tipo de poesia tradicionalista, cultivada na década de quarenta por poetas que não se deixaram seduzir pelas inovações vanguardistas introduzida pela geração do movimento Orpheu. É desta fase a poesia de Natália Correia, que se segue:



A FEITICEIRA COTOVIA

Cantei uma ária para te dar um tecto

Versos duma rosa para o seu namorado

Bodas naturais de flor e de insecto

Que pousa na flor e fica casado



Passou um amante no vôo directo

Dum corpo para a sua constelação

Com pena de ti roubei-lhe o trajecto

E pus-te uma pomba invisível na mão



Mas pela espiral da antiga insônia

Girou a voluta do crime secreto

De seres cortesã numa Babilônia

Que fechas a chave para ficar mais perto



Depois de cinco anos de silêncio, em 1990, Natália Correia voltou a publicar, trazendo ao público os seu livro Sonetos românticos, logo contemplado com o Grande Prémio de Poesia APE/CTT-TLP, o mais importante no gênero existente em Portugal. Trata-se de uma obra de grande interesse, não apenas por resgatar o soneto do quase esquecimento a que fora relegado após o advento do Modernismo, mas, principalmente por vir nutrido pela mesma força protéica que vem revigorando a expressão poética dos líricos do século XX modernista. No próprio título do livro já se anuncia a intencionalidade da poetisa de fazer do amor o tema dos sonetos, não parafraseando a linguagem dos grandes poetas do romantismo, mas recriando esta mesma linguagem, revestindo-a das concepções e da retórica do amor próprias dos vates modernistas. Todavia o diálogo com os “antigos” mestres do soneto perpassa os sonetos, daí dizer no poema de abertura:



Não ofendas a Santa Sabedoria

julgando de ânimo leve o Romantismo.

Humildemente nele escuta as vozes

Que te dizem:

O itinerário é interior.

Assim dispõem as Leis do Amor

Encontradas no ramo de ouro

Da acácia onde pousou a Pomba.



O livro de Natália é um texto que seduz o leitor mais exigente. Embebido do espírito da modernidade, mas preservando pelo que de excepcional herdamos todos nós da lírica dos antigos quinhentistas: o soneto. O soneto, uma forma tradicional que a lírica portuguesa soube elevar aos mais altos patamares do fulgor criativo, desde Camões, Bocage, Antero, Florbela e que Natália Correia faz reviver de forma brilhante:



Súbita a inspiração faz o convite:

Mais alto, rumo à meta indefinida!

Ofereço o sentimento ao limite

Dos ecos do mistério que intimida.



Rebelde ao senso a Musa não permite

À razão que chegue à chama erguida

O canto aceso, magia que transmite

Remota música noutro mundo ouvida.



A minha ânsia mede-se por versos

E na descida a meus jardins submersos

Vedadas rosas rebentam-me na boca.



Poesia: angústia de querer sempre mais,

Saudoso endereço de termos imortais.

E ao fim de tanto anseio, a vida pouca.



O livro Sonetos românticos assinala mais um testemunho da fecunda capacidade criativa da poetisa. À forma antiga e consagrada do soneto, teve no livro da autora um dos seus mais brilhantes momentos na poesia contemporânea.









NATÉRCIA FREIRE



Poetisa e contista, Natércia Freire nasceu em 1920 em Benavente (Ribatejo). Foi diretora durante quinze anos do suplemento literário do Diário de Notícias, além de ter colaborado e jornais e revistas. A escritora ocupa um lugar relevante na poesia e na literatura portuguesas. Parte de sua obra está traduzida em diversos idiomas. Em sua poesia depreende-se uma forma muito particular de vivência, um sentimento do mundo e uma visão do homem muito pessoais. A expressão poética de Natércia Freire não se filia a nenhuma tendência estética do seu tempo, conduzindo-se apenas por sua sensibilidade e sua experiência. A poetisa fez a sua estréia nas letras portuguesas, em 1938, com o livro de poesias Castelos de Sonho. No decorrer dos trinta anos que escreveu a sua obra, a sua poesia conheceu várias fases. Nos primeiros livros. Mostra-se ainda presa ao convencionalismo literário, aos poços superado até o desabrochar de sua personalidade poética, amadurecida e segura. Em algumas poesias do seu livro – A segunda imagem - percorre um sopro de suave lirismo:



INFIEL

Infiel, o espaço prometido ao sonho.

Repetida fraude

Nos invernos doces.

Leito itinerante. Voador tapete.

De repente o Verão. De repente morro.

Infiel, o pranto que me segue o corpo.

Repetida fraude

Me acompanha à cova.

Leito itinerante. Voador tapete.

De repente Inverno sob a Noite Nova.

Se me creio, existo. Não importa a forma.

Não importa aonde. Se Te creio existes.

Voador tapete que troquei, no Verão,

Pela rotação de universos tristes.

Sob a Noite nova um cortejo tenta

Despedir avisos. Ter-me de refém.

Infiel, me afasto sob a paz cinzenta,

Infiel, também, esqueço-me de alguém...



No livro, Liberta em pedra – publicado em 1964, Natércia Freire desenvolve temas, já abordados em livros anteriores, com mais aguda profundidade, mais das vezes perpassados de filosofia, como, por exemplo, a tematização da própria vida (O sentido da vida não o encontro/ se o não ligar a fitas de infinito); ou quando focaliza o tempo, para ela “fitas de eternidade” (Sou um tempo eterno/ que se volve Inferno/ - para além, eterno,/ -para aquém, eterno), Mais amadurecida ou mais reflexiva, a sua poesia revela uma vontade de Infinito e de Eternidade que nem sempre escapa às contradições:



Se não creio nos homens nem no Tempo,

se desejo a Poesia

sem palavras,

se acho tudo mutável e pequeno

e só no infinito, o infinito

-porque defendo, até ao mais profundo,

o meu quinhão de amar?



Em algumas poesias o lirismo da ausência e da frustração parece uma busca de ocultação de sua latente sensualidade:



Livre, liberta em pedra.

Até onde couber

tudo que é dor maior,

por dentro da harmnonia jacente,

aguda, fria, atroz,

de cada dia.



Não importam feições,

curvas de seios e ancas,

pés erectos à luz

e brancas, brancas, brancas,

as mãos.



Importa a liberdade

de não ceder à vida,

um segundo sequer.

Ser de pedra por fora

e só por dentro ser.



-Falavas? Não ouvi.

-Beijavas? Não senti.

Morreram? Ah! Morri, morri, morri!

Libre, liberta em pedra,

voltada para a luz

e para o mar azul

e para o mar revolto...



E fugir pela noite,

sem corpo, nem dinheiro,

(para ler os meus santos

e os meus aventureiros),

filósofos e nautas,

de tantos nevoeiros.



Entre o peso das salas,

da música concreta,

de espantalhos de deuses,

que fará o Poeta?



Sobre a obra da poetisa, comenta David-Mourão Ferreira: “a poesia de Natércia Freire – das mais densas de toda a nossa história literária – a um tempo formula e soluciona, no plano da problemática e no plano da realização, os mesmos temas essenciais. Dilacerada entre o movente e o fixo, o fluido e o estável, o devir e o ser, ela reflecte poderosamente essa dupla aparência de realidade com o “instrumento de palavras” mais adequado a semelhante empresa (...). Contudo, a expressão de sua mundividência realiza-se por meio de uma linguagem próxima do embate emocional: A que reino pertenço? / em que reino me pões? / sou mineral e penso!? / sou vegetais visões!? / Sou náusea de animal / na vergonha de sê-lo!? / Oh! Espasmo e termo astral / por sobre o meu cabelo!”






 NOTAS:


[1] Ao se tornar do domínio público, o livro provocou reações muito desfavoráveis, sendo retirado das livrarias e confiscado pela censura salazarista, sob a acusação de atentado ao pudor.




[2] As cantigas de amigo medievais são escritas pelo homem, o trovador, mas quem nelas fala é uma voz feminina, expressando seus amores, suas vivências, etc.




[3] Francisco Sá de Miranda, Poesia de Sá de Miranda, p. 193.





Zenóbia Collares Moreira. O Itinerário da poesia feminina portuguesa - Século XX. Cap. II.


CONTINUA






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