2 de mai de 2011

Olga Gonçalves, Salete Tavares, Sophia M. Breyner Andresen

OLGA GONÇALVES


Poetisa e ficcionista, nascida em Luanda em data que não foi possível precisar. Freqüentou a Universidade de Londres (Queen Elisabethe College e o Ling´s College). Publicou vários romances e livros de poesia. Com o seu romance A floresta em Bremernaven recebeu o prêmio Ricardo Malheiros, da Academia das Ciências de Lisboa, em 1976. Teve poesias suas publicadas nos Colecção Círculo de Poesia. Em 1977, foi incluída na Antologia 20 Anos do Círculo de Poesia-20 Anos de Poesia Portuguesa, organizada por Pedro Tamen, publicada pela Editora Moraes. A poesia de Olga Gonçalves tem a palpitação, um vigor retórico de grande significação. Sua linguagem exata é tocada sempre por um íntimo sentido de solidariedade humana,revestida de exemplar dignidade poética:

Como a palavra nua
que partiu sem regresso
a angústia voltou
Nós estaremos lá onde o silêncio fecha
os olhos moribundos     nós estaremos
lá à porta do silêncio.
O sol desmanchará o corpo das sombras
as pedras serão relógios    os lugares voltarão
a ser grandes lugares.
E as lágrimas sem tempo e as lágrimas
traçadas perderão formas definitivas
Nós estaremos lá.

 ***
Qual de nós dois se esquece qual isola
os arquivos do sonho contra a dor
qual se descobre e encobre noutro tempo
já sono e morte já despojamento

Qual sente mais o frio qual de nós
resgata o vento com força maior
qual se reparte e parte na corrente
já combinado ao sangue do silêncio

Qual sente o rosto intenso do desgosto
de nada e de ninguém vestindo as coisas
pulso nocturno a projectar o gesto

Qual redesenha o fim qual de nós dois
prende o amor nos fachos da memória
qual de nós dois se esquece e se enternece

Olga Gonçalves usa o soneto com um à vontade próprio de quem sabe se sabe hábil e seguro para aventurar-se, e de maneira tão bem resolvida, nos meandros de uma forma poética que teve em Camões, Bocage e Antero de Quental sonetistas exemplares.


SALETTE TAVARES

Nascida em 1922 em Lourenço Marques, Salette Tavares, licenciou-se em Ciências Históricas e Filosóficas pela Universidade Clássica de Lisboa, em 1948. Foi bolsista da Fundação Calouste Gulbenkian e do Conselho Superior de Investigações Científicas, da Espanha. Publicou vários livros de poesia.
O texto da autora, que vem a seguir, inscreve-se na linha poética da poesia experimental que, como se sabe, não obedece fielmente aos princípios da poesia concreta, da qual se originou, pelo fato de instituir-se como poesia aberta às novas experiências, tanto no que diz respeito aos aspectos visuais, quanto aos morfológico. Poética, de Salette Tavares, inscreve-se na vanguarda, na medida em que rompe o automatismo que respalda a obra de arte tradicional, com o qual o leitor estava habituado. Daí a sua leitura ser um desafio a seguir outros caminhos em sua busca de uma leitura que o conduza a decodificação da mensagem. O texto da poetisa exemplifica com bastante precisão a dimensão da mudança provocada pela poesia experimental.

POÉTICA

Espelho mudo    lugar reflecte
                        o todo que me é dentro
Espelho cego      lugar repete
                        a voz que me é centro.
Espelho mundo    lugar intenso,
                         nos  braços já, te prendo.
Espelho nego      lugar suspenso
                         um vidro só, relendo.

A leitura de Poética, um texto experimental, diferentemente da que se realiza com os textos tradicionais, deve ser feita tanto do ponto de vista do significante, quanto do significado. No primeiro caso, a análise de palavras que são repetidas reiteradamente, como “Espelho” e “lugar”, bem como as que remetem para o significado, apontando para a função do espelho objeto, que se restringe a refletir apenas o que chega ao seu alcance.  Esse poema, produzido na fase inicial do experimentalismo poético, não permite que seja claramente percebida a desconstrução do discurso. Todavia, ao abrir-se para várias leituras, o texto assume a característica fundamental da poesia experimental. Vale observar a forma como é trabalhado o espaço visual no poema: nele há um objeto – o espelho -, que estabelece uma comunicação direta com o que reflete sua lâmina.
O interessante na leitura desse texto é o fato do leitor, confrontado com a sua “decifração”, assumir o papel de espectador ativo, responsável pela compreensão tanto do aspecto visual da poesia, quanto do seu aspecto sonoro, buscado na repetição de palavras e de rimas alternadas, que conferem ao texto uma marcação de ritmo forte, que aponta para o conteúdo crítico do poema.
Não reside no aspecto lúdico, que a forma do texto apresenta, o que motivou a sua composição. A autora, o que interessa é o conteúdo crítico que essa forma veicula, desde a escolha do título “poética”. Este título é o instrumento usado pela poetisa para desmistificar a poética tradicional portuguesa, veementemente rejeitada pelos experimentalistas, sob a acusação de que ela insiste em dar continuidade a um tipo de poesia feita apenas para a fruição prazerosa, para deleite da emoção e do sentimento, sem se dar conta dos graves problemas de ordem cultural, social e econômico que ameaçavam levar Portugal à deriva.
Poética, numa dentre as suas múltiplas leituras, parece sugerir a quebra de um espelho que se restringe a ser um repetidor de imagens (espelho nego / lugar suspenso /em vidro só, relendo), que o poema nega, rejeita, por ser metáfora da criação poética tradicional, sugerindo um outro espelho que, além de refletir, possa, como um prisma, refratar a multifacetada arestas, os diversificados ângulos de visão da poesia (espelho) em sua relação o que reflete (lugar) e refrata.
Na mesma coletânea de poemas- Espelho cego -, de Salette Tavares, várias poesias expressam a linguagem do corpo inflamado pelo desejo (não sei como vais aparecer / presença tão concreta anunciada / vibrando-me o corpo a estremecer.):

Minha cintura dorida
adeus suspenso sem beijo
enchem-me o peito de fome
geme silêncio o desejo
Espremem-se frutas os braços
Bebem-se vinho de Março
grandes e belos cabelos
com vento no regaço.
Alvorecer de um segredo
boca que a fruta pede
mar de ouro generoso
onde o meu barco se perde.

Mas não é somente a sensualidade que transita nos versos da poetisa, também o amor sentimento se faz presente em sua poesia, expressando os anseios do coração expectante na espera impaciente do ser amado ou do seu gesto de ternura, acariciante (que é que a mim espera quando assim espero? (...) É a carícia da mão na minha face / e o meu olhar repousado / o sorriso que passa / rápido / de mim a ti.), ou ainda da fruição do prazer, o fim da espera (Bebi, / eu te bebi / meu leite vinho destino / meus braços cabelos sonhos / em manhãs de desatino).


SOPHIA DE MELO BREYNER ANDRESEN

Nascida em 1919 no Porto, Sophia de Mello Breyner Andresen faleceu em julho de 2004. Foi participante ativa em revistas literárias, como Cadernos de poesia (1940-1942), Árvore (1951-1953), Távola Redonda (1950-1954). Além de sua vasta obra poética e de um livro de contos, a escritora escreveu vários livros de contos infanto-juvenis. Foi tradutora e ensaísta. Com a publicação do Livro Sexto, em 1964, foi galardoada com o Grande Prêmio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores. Mais tarde, em 1977, foi-lhe atribuído o prêmio Teixeira de Pascoais pelo livro de poesias O Nome das coisa. Sophia notabilizou-se na poesia, através da qual conquistou celebridade e um lugar de elevo entre os grandes poetas e poetisas de Portugal. Sua poesia é difícil de ser situada em qualquer movimento ou tendências literárias do século XX. Como ela mesma afirma: “quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de liberdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo”.Essas palavras de Sophia dão o testemunho do quanto ela é lúcida e sintonizada com a realidade.
O amor e a vida ocupam um lugar privilegiado na temática da poetisa, como exemplifica bem o poema, Para atravessar contigo o deserto do mundo, colhido no Livro sexto, da poetisa:

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade, para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem

E abandonei os jardins do paraíso
Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua

E ao descampado se chamava tempo
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento.

Além do apelo por liberdade e justiça que se nutre o discurso poético de Sophia, interessa-a outras questões que agitam o social e o humano ou que remetem para a ordem cultural e poética. Em suas obras iniciais, por exemplo, a poetisa distancia-se do comum universo cotidiano para derramar seu olhar sobre aspectos da natureza, para evocá-la através de uma linguagem poética iluminada pelo encantamento de quem sabe ver e sentir o mistério essencial que têm as coisas, que revela ânsia serena de infinito, de elevação ao divino pelo viés de um amplexo cósmico imaginariamente possível entre a luz dos astros com a negritude da noite densa e escura:

Ir beber-te num navio de altos mastros
No mar alto
Ó grande noite alucinada e pura,
Brilhante e escura,
Bordada de astros.

Para ti sobe a minha inquietação e sobressalto.
O meu caos, desilusão e agonia,
Pois trazes nos teus dedos
A sombra, o silêncio e os segredos,
A perfeição, a pureza e a harmonia.

Não se perdeu nenhuma coisa em mim.
Continuam as noites e os poentes
Que escorreram na casa e no jardim.
Continuam as vozes diferentes
Que intactas no meu ser estão suspensas.
Trago o terror e trago a claridade,
E através de todas as presenças
Caminho para a única unidade.

No poema que se segue há um transbordamento de imagens que remetem para a celebração de uma comunhão cósmica do eu-poético com os elementos da natureza, o ritual mágico de sua transfiguração nas em tudo quanto, nela, amou. A matéria do poema lembra o soneto camoniano Transforma-se o amador na coisa amada:

FLORESTA

Entre o terror e a noite caminhei
Não em redor das coisas mais subindo
Através do calor das suas veias
Não em redor das coisas mas morrendo
Transfigurada em tudo quanto amei.

Entre o luar e a sombra caminhei:
Era ali a minha alma, cada flor
-cega, secreta e doce como estrelas –
quando a tocava nela me tornei.

E as árvores abriram os seus ramos
Os seus ramos enormes e convexos
E no estranho brilhar dos seus reflexos
Oscilavam sinais, quebrados ocos
Que no silêncio fantástico beijei.

No poema A Paz sem vencedor e sem vencidos, a poetisa evoca a questão, sempre recorrente em sua obra, da liberdade, da verdade, da justiça e da paz. O discurso poético se organiza como uma prece ao Senhor, na qual a súplica dominante é em prol da paz. Mas, não uma paz que se segue a uma guerra, porém a que tem a sua gênese nos princípios da verdade, da justiça e da liberdade:

Daí-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos.

É interessante notar a estrutura anafórica do poema A paz sem vencedor e sem vencidos, da qual resulta o processo repetitivo próprio das ladainhas. Os dois primeiros versos da estrofe inicial vão sendo retomados em cada estrofe, como uma espécie de refrão, enunciado por um agente pluralizado através do pronome da segunda pessoa, como se emanasse de um coro de suplicantes que, como porta-vozes da poetisa, clamasse por verdade, justiça e liberdade, tal como Sophia faz ao longo da sua obra poética e ficcional.

Zenóbia Collares Moreira. O Itinerário da poesia feminina portuguesa, cap. II


Parte Final do Capítulo II.

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