27 de jul de 2011

Rosa Alice Branco - Continuação.





Nos poemas de Rosa Alice, a idéia recorrente que os percorre é: “vemos o que vemos, porque no olhar materializamos a realidade Mesmo quando não vemos, é a percepção dessa negatividade que nos ilumina o ser”. Daí dizer no verso que abre o poema Passos sem memória, que será dado a seguir “Olho pela janela e não vejo o mar”. Neste poema, verso a verso construído sob o signo da poética do quotidiano, o assento recai sobre as palavras, substantivas, precisas claras como o dia que amanhece na perplexidade da página em branco: As palavras são as primeiras a chegar, trazendo o quotidiano para dentro do poema: a manhã, a relva, o lume, o pão, o jornal, a saliva, o papel, as gaivotas.


Olho pela janela e não vejo o mar. As gaivotas
 
Andam por aí e a relva vai secando no varal.

Manhã cedo,


O mar ainda não veio. Veio o pão, veio o lume


e o jornal. A saliva com que hei-de dizer bom dia.


As palavras são as primeiras a chegar.


O que fica delas


amacia o papel. Pão quente com o sono de ontem


e a relva vai secando no varal.


Manhã cedo,


o mar ainda não veio.


Veio o pão, veio o lume e o jornal.


A saliva com que hei-de dizer bom dia.


As palavras são as primeiras a chegar.


O que fica delas amacia o papel.


Pão quente com o sono de ontem


e os sonhos de hoje.


Prepara-se o dia, os passos de ir e vir.


Estou cada vez mais perto.


Olhas-me como se soubesses


o que hei-de saber mais logo


nesta cidade nunca é meio-dia.


Há sempre uma doçura


de outras horas. E recordações avulsas.


Deixa sair de dentro do vestido,


deixa soltar as ondas do mar.


A janela está vazia.


O meu filho caminha na praia


e tu soletras as gaivotas.


Caminha à minha frente


Sem deixar pegadas. Perco-me


com todas as mãos, todos os amantes.


Invento passos e palavras


para adormecer. A esta hora a minha avó


enrolava o rosário nas mãos.


Eu estava dentro das contas,


dentro do sono


que rondava a prece. Durante muito tempo


estive fora,


agora caminhamos juntos. Sem memória.


No poema, que vem a seguir – A tua pele descalça - pode ser sentida a energia de Eros transitando solto e liberto através dos versos. Antes de transcrevê-lo, damos a palavra, mais uma vez, à poetisa para que melhor seja compreendido o erotismo em sua poesia:




“A minha poética, diz a autora, pode ser entendida enquanto apologia do corpo no mundo, em que o corpo funciona como um sistema aberto em constante importação e conseqüente transformação. O maravilhoso operador destas passagens é sobretudo a pele, suficientemente consistente para se constituir enquanto superfície delimitadora e suficientemente porosa para deixar entrar o mundo de um modo táctil e eis porque tudo o que nos chega através de qualquer sentido como os olhos, o nariz, a boca, etc., nos acaricia. (...) A carga sensual da minha poesia, que advém sempre do pacto entre o corpo e o mundo, em que o corpo se faz corpo com o mundo, poderia quase exprimir-se numa frase, que apesar das aparências, nada tem de cartesiana: toco e sou tocada, logo existimos". Isto posto, que se leia o poema A tua pele descalça:"




Veio uma onda. A varrer o meu sono.

Caminhava nele como caminho na areia.


Nada me une ou divide. Nada me retém.


Sentas-te onde me sento no teu colo


e peço sempre a mesma história. A tua voz


cria as memórias que hei-de ter.


Por agora caminho ao longo das gaivotas


e grito como elas quando a maré baixa.


Às vezes apoio-me num rochedo


para dizer “casa” e logo desmorono.


Sigo descalça como tu para dizer “seguimos”.


Mas são apenas sons sob o sol de maio.


Murmúrios do que não serei.


Sempre tive problemas com o verbo ser.


Faço e desfaço as malas, entro


e saio das gavetas.


Pausa na camisa que vestiste da última vez.


Uma vontade de a amarrotar,


desapertar os botões e sentir lá dentro


a tua pele cá fora.


Tudo isto é tão verdade como podem ser


os botões de uma camisa escrita. Confesso


que não pensei na cor,


ou se era às riscas. Agora acho que podia ser


a de quadrados.


Em qualquer delas a tua pele entra na minha.




Para finalizar, mais um poema de Rita Alice, no qual o mar é evocado, imagem recorrente e pleno de significados na cosmogonia da poetisa:
 
De novo o mar que espero
sentada à janela que dá para as rosas.
Que dá para todas as ruas que passei
com os teus passos. Para a estrada
onde virámos a cabeça para não ver
o homem esvaído no chão.
Depois comemos na casa de um amigo,
Bebemos e falamos como se a vida fosse eterna.
À volta a estrada estava limpa, sem sinais
De sangue. As luzes sobre o mar nas duas margens
E a tua mão na minha perna. Lá no céu
Um homem esventrado procura as suas asas.
Nada sei de anjos. Eu que espero o mar todos os dias
Acredito na rotação da terra e na lei da gravidade.
Mas quando chegas o corpo não tem peso
E as palavras voam em redor de nós
Alagadas em suor. E vem o mar.

A leitura dos poemas de Rosa Alice Branco aponta também, como um forte traço definidor de sua arte poética, também, como uma meta-poesia, ou seja, uma poesia que se volta para ela mesma, para se pensar e se interrogar, sem perder de vista o ininterrupto diálogo dos seus textos com a filosofia.

Zenóbia Collares Moreira. O Itinerário da poesia feminina portuguesa: Século XX.
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Notas

[1] Floriano Martins, “Rosa Alice Branco: esboços e sombras (entrevista)” in: Revista da Cultura, nº 35 –Fortaleza, S. Paulo – agosto de 2003.
[2] Id. Ibidem.

FIM DA PARTE VI




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