18 de abr de 2012

O Drama Existencial de Ana Augusta Plácido - PARTE II



Todavia, muito caro seria o tributo que o casal pagaria pela absolvição. O desejo de revanche que obscurecia o espírito dos homens e mulheres de bem do Porto, como naturais vingadores da ultrajada instituição da família, não estava predisposto para a benevolência com a adúltera e seu amante, também rejeitada pela família, evitada por amigos do marido e alvo de agressões físicas e morais nas ruas do Porto. Todavia, enquanto a execração pública recaía sobre Anna Augusta, principalmente, esta escrevia nas páginas do seu diário, quando ainda se encontrava no presídio, o esboço da sua tragédia conjugal e existencial, do qual damos um resumo:


"Completei 29 annos [...]. Nasci boa e generosa; o mundo com todas as suas torpezas não pode tirar-me estas raízes vindas de Deus.[...]. Sacrificada a um homem repellente, que só me inspirava aversão, vi os meus anos mais belos passarem-se tristes e na solidão forçada a que me condenaram. Sete anos resisti ao cancro devorador da sociedade, sete anos me conservei presa de um desejo mesmo de transgredir a lei de Deus que me dava para marido o último dos homens que eu aceitaria de bom grado.
A corrupção ostentava as suas pompas perseguindo-me, mas eu afastava os olhos, e punha-os no caminho que minha santa mãe me marcara.
Ninguém pesa as lágrimas da mulher que depois d’uma grande luta com a consciência cai diante de si própria: ninguém! Para a condenação, estão prontos os algozes e carrascos!
Depois d’isto a desgraça não me deixou mais. Do abismo de infortúnios caí nas agonias da desesperação, e ter-me-ia morto se não fosse esta varonil coragem que nunca me desampara mesmo nos transes mais horríveis.[...]. Esse mundo sem entranhas, essas almas de ferro, se me ouvissem um só destes gritos abafados por uma vontade indomável á matéria frágil, fugiriam temendo comprometer a sua egoísta dignidade. Tenho a convicção de que os meus inimigos haviam e hão-de chorar-me quando souberem a história desta desgraçada que hoje esmagam.[...] "

Esse desabafo de Anna Augusta, essa história de desgraças, também prodigamente presentes nas linhas e entrelinhas das suas cartas e mesmo nas de Camilo para amigos comuns ao casal, nunca veio a lume sob uma perspectiva placidiana, que buscasse oferecer a versão biográfica da autora centralizada nela, também protagonista nos anos de agonia vividos pelo infeliz casal.
Com efeito, foi a libertação de um casamento sem amor e da Cadeia da Relação do Porto que trouxe a Anna Plácido a sua pena de escravidão perpétua junto a Camilo, a quem estava dali por diante irremediavelmente ligados o seu destino e a sua vida. Diante dela abria-se uma dolorosa trajetória de expiação, já anunciada nas crises de mórbido ciúme e descabidas desconfianças de Camilo, nas injustas acusações que lhe lançava em rosto e em cartas a amigos, nas várias separações provocadas pelas condições insuportáveis de vida em comum, inclusive por dificuldades financeiras incontornáveis.
A desvairada jovem que lera Musset e Dumas, que cultuava George Sand e Mme. de Sttäel, a impulsiva mulher, de vinte e seis anos, sedenta de paixão e latejando de sensualidade reprimida, deixou-se arrastar para uma aventura sem beleza, acumulando desencantos na alma ferida, procurando desafiar desdenhosamente os costumes e os limites impostos à mulher pela falsa moral burguesa portuense, seja declarando aos amigos do ex-marido que a censuravam pelo abandono do lar que “Camilo é o meu homem”, seja pulando os muros das casas que separavam a sua da de Camilo para encontrar-se com o amante, ou ainda, desafiadoramente, pondo-se a fumar charuto à janela da cadeia, sob a incrédula perplexidade dos transeuntes.

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Em uma página do seu diário, escrita no dia em 27 de setembro de 1860, quando completava 29 anos de idade, está claramente confessada a decepção amorosa que a magoava já naqueles primeiros anos de experiência conjugal com Camilo a quem dirige estas amargas palavras:

“Todos, todos menos tu, Camillo!!! És o último e devias ser o primeiro. Faz hoje dois annos! Como o teu olhar amoroso me seguia!... quem me dissera então o que hoje se passa. Despede-me meu amigo, despede a amante pesada pelo cansaço, e pelas aflições sem que ao menos tenhas a delicadeza de amenizar este adeus final.”
Em várias passagens do livro escrito nos meses de cativeiro, Anna Plácido, num rasgo de racionalismo, exprimindo a sua descrença na permanência do amor, afirma que:
“aquele coração que arfou junto ao seu, aquelas pulsações que se reproduziam nascendo e morrendo juntas, aquelas falas suspiradas como a aragem da tarde: tudo o que levanta o espírito às alegrias imponderáveis dum amor grande em dedicação, tudo isso acaba, deixando apenas um espinho roedor que a vai consumindo lentamente.”[i]
Seu drama conjugal e doméstico não radica apenas na doença dos filhos e de Camilo, ele tem raízes bem mais profundas, fincadas no gênio irascível do escritor, no seu mórbido ciúme, na sua inconcebível recusa em casar-se com a mulher, já viúva há tantos anos, só o fazendo pouco antes de por fim à vida, quando para Anna Augusta, magoada por anos de espera, perdera a importância o fato de ser ou não a esposa do escritor, como ela mesma o diz em carta a um amigo. Para ela, já era passado remoto e finado a fase do “viver fantasioso e poético”, da mesma forma que já se foram as paixões que os consumiam, descritas pela autora como:
“esse cortejo embriagador de sentimentos desconhecidos, enlevo feiticeiro, delirar de coração virgem embalado pelo cântico dos anjos, e pela linguagem devaneadora da sua imaginação”.
Tudo isto é passado. A relação com o velho amante endurecido pelo infortúnio de uma cegueira absurda, menos da vista que da sensibilidade, tornara-se campo infecundo onde não medram senão espinhos. Daí as reflexões da autora em torno do que antes fora puro atear de chamas nos sentidos e hoje nada mais são que cinzas frias de defuntos amores:
“apenas um espinho roedor, que a vai consumindo lentamente.[...] Debalde tenta reagir por um esforço supremo de vontade: está condenada a sucumbir; e ainda lhe é forçoso abafar os gemidos para que não lhe insultem os últimos paroxismos do coração”.[ii]
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NOTAS
[i]Anna Augusta Plácido, Op. cit. p. 119-120.
[ii]Idem, Ibidem., p. 120.
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AUTORA: Zenóbia Collares Moreira
IMAGEM: Banner das Comemorações Nacionais do Centenário de Ana Augusta Plácido.


CONTINUA...

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