18 de abr de 2012

O Drama Existencial de Ana Augusta Plácido - PARTE III


Das dolorosas experiências do cárcere, a autora lança um olhar para os anos da juventude e, como ela mesmo diz: “vê o passado como um sonho!”
"Vejo-me vestida de branco, envolvida no véu da desposada, a grinalda de laranjeira adornando-me a fronte acurvada ao peso destes atavios, e estremecendo horrorizada, como Iphigenia caminhava conduzida por seu pai ao sacrifício. Preferível era por certo o dela ao que me estava destinado![i]
Ana Plácido assistiu ao despertar da escritora que em si havia na solidão do cárcere e na amargura das primeiras desilusões amorosas. Todavia, não foi contemplada com os aplausos dos seus contemporâneos, ao contrário disso, foi alvo de apreciações maliciosas sobre os seus escritos, acusada de fazer passar como seus textos compostos pelo amante famoso. Todavia, a escritora ergue a cabeça, faz ouvidos surdos para a mesquinha crítica demolidora do seu talento e dá continuidade a sua prática literária, dirige palavras às mulheres de sua época, mensagens que, nos dias atuais, seriam consideradas “feministas”, incitando-as libertarem-se do papel exclusivamente doméstico a que eram submetidas, estimula-as a estudar, a conquistar um espaço mais amplo na sociedade por força da inteligência e do saber. Assim ela escreve:
"Hoje, quando os meus verdugos me supõem dias terríveis de desesperança e amargura, eu digo à alma que suba, à inteligência que se ilumine, e de pronto uma chama misteriosas me aclara esta difícil ascensão. No meio do caos que me enluta o pensamento, radia a luz, e como Pitágoras, compondo a sua harmonia das esferas, entrego-me ao idealismo vago e indefinido, e encontro um mito só meu. Venço o primeiro escolho, contrapondo-lhe a rara energia, o varonil esforço da minha ardente imaginação e vontade. Acima da minha cabeça está a luz suprema e infinita que eu fito deslumbrada. Essa luz compadecida convida-me a caminhar, apontando-me para um centro luminoso, cuja vista me torna febril. E esta febre que as mulheres de Portugal apagam no regelo do coração, rebatendo assim o estímulo mais atraente da ambição da glória, a única que eu invejo e aprecio. Fecha-se lhe esse santuário esplêndido, e ei-las aí sem prestígio, sem outro brilho nos fastos contemporâneos, senão o de boas governantes de casa, e boas mães de família. A sua missão mais nobre é por certo esta, nem eu posso contestá-la. Folgo até que me extremem no meio delas. Mas essa essência preciosa absorve todas as faculdades grandiosas da mulher? Não. É preciso que esta inatividade tenha fim, é preciso que nos desliguemos de certas apreensões, procurando no livro e nos estudos dos bons mestres um refrigério para os tristonhos dias da velhice.
Sei que não podemos aspirar a um nome distinto como o de madame Staël, ou George Sand. A estas dotou-as a subtileza do engenho, a grandeza do gênio, a vivacidade sublime que não possuímos desde que a Marquesa de Alorna, e Catharina Balsemão passaram sem herdeiras. Entremos desassombradas nesse trilho em que os mesmos espinhos nos fazem esquecer outras dores.”[ii]
Nos meses de prisão, Anna Plácido compôs obras que fizeram eco no meio literário. Escreveu a série de contos e de ensaios autobiográficos que, depois de publicados na Revista Contemporânea de Portugal e Brazil, nos jornais portuenses O Nacional e o Amigo do Povo, na revista brasileira Futuro e na revista Atheneo, de Coimbra, foram reunidos em um livro com o título de Luz coada por ferros, prefaciado por Júlio César Machado, publicado em 1863, quando a autora completara trinta e dois anos. Mas o reconhecimento dos seus dotes intelectuais não poderia vir fácil numa sociedade que cultivava à exaustão os valores burgueses. Assim, ao estigma de mulher adúltera, um outro foi lançado sobre a escritora: o de ter em Camilo o autor dos seus ensaios críticos, poesias e romances.


NOTAS
[i],Idem, Ibidem, p. 98.
[ii]Ana Augusta Plácido, Op. cit., p. 94 a 96.
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Autora: Zenóbia Collares Moreira
Imagem: Camilo, Ana Augusta Plácido e o filho mais velho do casal.


CONTINUA...

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