18 de abr de 2012

O Drama existencial de Ana Augusta Plácido – Última parte.


Em 1875, aos quarenta anos de idade, Anna Plácido desiste de escrever romances. Além da dificuldade de interessar os editores pela publicação dos seus livros, outros fatores influíram na sua decisão de abandonar a literatura de ficção. A vida atropelada por dificuldades decorrentes da loucura do filho Jorge, da falta de recursos e das doenças que fragilizavam Camilo, especialmente a progressiva cegueira, foram responsáveis pela exigüidade da produção literária da autora, bem com por sua desistência de prosseguir escrevendo obras ficcionais. 
O exercício da leitura e a conseqüente aquisição de conhecimentos tornou-se uma prática cotidiana que se prolongou até o final da vida de Camilo, cuja cegueira progressiva exigia, cada vez mais, de Anna Augusta a paciente e sistemática função de leitora para o companheiro impedido de ler. Foram anos de contínua prática de leitura e mesmo de exercício de escrita levada pela necessidade de secretariar o trabalho do escritor. Na fase crucial da cegueira de Camilo, as contínuas e intermináveis seções de leitura levavam Anna Augusta à exaustão, como ela mesma revela ao amigo do casal, Freitas Fortuna: 
“Leio todo o dia, ás vezes chronicas enfadonhas, e chego á noite sem vista, os pulmões cansados e rouca![1]
Além de constituir uma obrigação para com Camilo, a leitura é também um alimento e uma necessária evasão para o seu espírito torturado pelas vicissitudes de uma vida bafejada continuamente pela adversidade. 
Depois de viúva, Anna Plácido volta a publicar, em folhetim, o romance Herança de lágrimas no jornal O Leme,” semanário de São Miguel de Seide – Vila Nova de Famalicão, fundado por seu filho Nuno Castelo Branco. Todavia, essa nova publicação recebeu o título de Núcleo de Agonias, “romance original de Lopo de Sousa. Esta seria a última tentativa de publicar a sua obra. Em 1895, faleceu a autora e, com ela, desaparece da cena literária Lopo de Sousa, cedendo lugar na publicação póstuma do folhetim à Condessa de Sousa Botelho. Contudo, meses depois, o jornal cerrou as suas portas, deixando interrompida, mais uma vez, uma obra de Anna Augusta. Em 1913, um dos filhos de Nuno Castelo Branco, reabre O Leme e retoma a publicação de Núcleos de Agonia. Apesar da boa vontade e esforço do jovem neto da autora, o Jornal foi forçado a sair de circulação por falta de recursos. Daí por diante, Anna Augusta, como escritora, caiu no esquecimento, juntamente com a sua obra literária. No entanto, nunca deixou de estar presente nas obras dos biógrafos de Camilo que exploraram à exaustão a parte da sua vida ligada aos escândalos conjugais, à prisão e ao seu apagado papel de mera companheira do grande nome da literatura romântica portuguesa. A grandeza literária e a personalidade fulgurante, trágica e polêmica de Camilo Castelo Branco lançou à sombra, mais que a mulher extraordinária que foi Anna Plácido, a escritora de talento, a sua inteligência e a sua marcante e invulgar personalidade. 
Movida por uma série de graves problemas domésticos, aos 40 anos, Anna Augusta interrompeu as suas atividades de escritora. As únicas poesias da autora que chegaram aos dias de hoje foram colhidas em Jornais da época ou em antologias do início do século. Não se sabe que destino foi dado ao conjunto da obra. As duas, que se seguem, foram escritas no início da relação amorosa da poetisa com Camilo. Nelas é evidente o compromisso com as duas tendências poéticas da época, muito em gosto principalmente no Porto: o Romantismo e o Ultra-Romantismo. A primeira delas, datada de 1959, desenvolve-se em conformidade ao modelo consagrado pelo cânone romântico, daí a expressão dos sentimentos sem exageros e afetação melodramática; a segunda obedece ao cânone ultra-romântico, na medida em que hiperboliza a expressão dos sentimentos, leva-os ao paroxismo da emoção mais destravada. 

A CAMILLO CASTELLO BRANCO 
( 15 de Agosto de 1859) 

Passou, meu Deus, foi um sonho 
De que é doce o despertar, 
Das negras feias visões, 
Já nem me quero lembrar, 
Tornei a achar o remanso 
Do meu tão doce sonhar... 

Volto quasi à paz serena 
Dos meus dias infantis; 
O meu anjo me segreda 
Mistérios... que não me diz. 
Vejo o futuro coroado 
Pela esperança a que me afiz. 

É muito para a minh´alma; 
Importa da vida o céu; 
Sobre os falsos bens do mundo 
Lançarei cerrado véu. 
Das ambições a mais nobre 
É chamar-te um dia meu. 

MALDITA! 

Maldita! Maldita! Eis a voz que eu escuto 
Nas sombras da noite, se geme o tufão; 
Ao longe lá ouço bramir a tormenta, 
Não menos medonha no meu coração.

Maldita! Maldita! Me bradam os raios. 
Rajando-me a fronte sinistro fulgor. 
E eu pálida e triste qual anjo repulso 
Debalde levanto as mãos ao Senhor! 

Maldita! Maldita! Os ferros me dizem 
Que inertes assistem à minha aflição; 
E a estrela, que passa ligeira se esconde 
Deixando nas trevas bramir o trovão.

Maldita! Maldita! Os echos repetem
Dúm mundo feroz que exulta à vitória;
Maldita tu sejas mulher infamada
Por culpa que é n´outras suprema glória.[2]

Os romances de Anna Augusta Plácido, de evidente valor literário, obedecem aos padrões próprios do Romantismo. Em suas páginas, desfilam personagens que, ao afirmarem-se como de alter-ego da escritora, vivenciam as próprias emoções e os sentimentos da autora, funcionando em muitos casos como porta-voz das suas vicissitudes, das suas culpas e, principalmente, de sua visão do mundo. Daí o espaço autobiográfico que se abre em cada obra placidiana. Já no seu primeiro livro, Luz coada por Ferros, escrito na Cadeia da Relação, do Porto, a sua preocupação com a situação social da mulher irrompe principalmente nas Meditações onde procura chamar a atenção de suas eventuais leitoras para as possibilidades de mudanças em suas vidas. Sua obra é importante, não somente porque se impõe como exemplo paradigmático da ficção no Romantismo português, como também pelo fato de trazer para o leitor, através de um ponto de vista feminino, alguns problemas atinentes à adversa condição existencial da mulher na preconceituosa sociedade oitocentista portuguesa.
Seus romances Luz coada entre ferros e Diana e Henriqueta estão disponíveis na Biblioteca Nacional de Lisboa e na Biblioteca do Centro de Estudos Camilianos em Famalicão.
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AUTORA: Zenóbia Collares Moreira


NOTAS
[1] Dois Anos de Agonia, carta número XVII.
[2] Alberto Pimentel. Os Amores de Camilo, Lisboa, 1890, p. 313.

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