12 de out de 2012

A INSURREIÇÃO FEMININA -PARTE X- Conclusão,



Havia ainda contra a mulher uma enormidade de estereótipos que, desde a época medieval, vinha proliferando no meio social, exercendo considerável e perniciosa influência na formação de uma imagem pouco lisonjeira, preconceituosa, estereotipada e injusta acerca do sexo feminino, muitas delas com as raízes bem fincadas nas Sagradas Escrituras. Caberia à mulher defender-se, insurgindo-se contra tal estado de coisas. Todavia, para contestar a sua condição de vida subalternizada e desfavorecida, ser-lhe-ia indispensável que esta dispusesse dos instrumentos do saber, que só uma instrução e os conhecimentos nela hauridos lhes propiciariam. E é justamente a questão da instrução da mulher que vai provocar discussões, a partir do século XVIII, inclusivamente com a participação de mulheres que, pela primeira vez, em Portugal, rebelam-se e defendem-se contra posicionamentos agressivos dos homens, contradizendo as suas argumentações, refutando-as de forma corajosa, decisiva e convincente, como é o caso de Gertrudes Margarida de Jesus e de Paula da Graça, ambas filhas do século das luzes, já distanciadas das escritoras que brilharam no período barroco, podendo, portanto, ser classificadas como autoras neoclássicas. Antes dessas duas, ainda na vigência do Barroco, sobressai a figura ímpar de D. Feliciana de Milão. 




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Pouco se sabe acerca da biografia de Gertrudes Margarida de Jesus. Segundo as informações colhidas em nossa pesquisa, ela teria nascido na segunda década do século XVIII, viveu e publicou as suas duas cartas na cidade de Lisboa. Em 1761, a autora escreveu e publicou a Primeira carta apologética em favor e defesa das mulheres, com argumentos colhidos na História, em resposta à obra de Frei Amador do Desengano – Espelho no qual claramente se vêem alguns defeitos das mulheres, publicada em 1761, acusando o sexo feminino de ignorância, inconstância e formosura. Estes três defeitos atribuídos às mulheres pelo referido autor são analisados, questionados e refutados veementemente através da argumentação detalhada e crítica da autora contra os preconceitos dos homens, que, segundo ela, não passam de seres infelizes: “infelices homens, que quando soçobrados com a ira da vossa malediça paixão até chegais a dizer mal de vós mesmos!” [2


Filha de pai português, e de mãe brasileira, nasceu Teresa Margarida da Silva e Orta na cidade de São Paulo por volta de 1712. Aos cinco anos de idade veio para Portugal com seus pais e irmãos. Internada no Convento das Trinas, ali iniciou-se no estudo da música, da poesia e da astronomia. Aos 16 anos, casa-se com Pedro Jansen Holler, contra a vontade do pai, que a deserda. Na luta pela posse dos bens familiares, corta relações também com o irmão Matias Aires da Silva d’Eça. Com o marido e a família constituída de doze filhos veio para o Brasil, fixando residência durante alguns anos na cidade de São Luís do Maranhão. Em 1752, com quarenta anos de idade, publica, com o pseudônimo anagramático de Dorothéia Engrassia Tavareda Dalmira, o romance As máximas da virtude e formosura [...], - ou Aventuras de Diófanes, como passou a se chamar, a partir da 2ª edição. 
Seu romance, além de ser a primeira obra de ficção escrita em língua portuguesa, acumula também o mérito de ter como autora a primeira mulher a ousar abertamente assumir uma atitude de oposição ao Absolutismo, a reivindicar os direitos do seu sexo e a defender a autonomia das terras dos povos colonizados. Participante ativa da vida pública, a autora não se limita a divulgar as idéias iluministas apenas no espaço literário, engajando-se na campanha contra os jesuítas, empreendida pelo Marquês de Pombal. Com pouco mais de quarenta anos e com os filhos menores sob a sua custódia, ficou Tereza Margarida viúva em condições financeiras precaríssimas. Em 1770, sua vida pessoal passa por uma dura prova com a sua condenação a sete anos de cárcere, no Mosteiro de Ferreira Alves, por ordem do Marquês de Pombal, sob a acusação de haver mentido ao Rei D. José I, quando afirmou que o seu filho Agostinho tinha engravidado Teresa Melo, jovem da aristocracia endinheirada, com a finalidade de apressar o casamento do casal. Descoberto o embuste, Tereza Margarida é presa, o filho segue para o degredo em Angola e a namorada é deserdadpela família e metida em um convento. Com a avançada idade de 81 anos, faleceu Tereza Margarida em Portugal, no ano de 1793.


Me usurpou a maior fatalidade.
As máquinas direi da impostura,
Cavilações, enredos e furores;
Estragos se verão da desventura
Nos efeitos do ódio e dos rigores:
Pois me tem posto quase em sepultura,
Desta prisão sofrendo mil rigores,
Onde, da imensa dor preocupada,
Morrendo sempre vivo consternada.
[...]
Nas densas sombras de uma noite fria,
Os meus males estava meditando.
Funestos pensamentos revolvia,
A minha infeliz sorte lamentando:
O ódio, a injustiça, a tirania
Cheia de dor eu ia repassando;
De meus males razão buscava atenta
Mas de crime qualquer me via isenta
Lágrimas a milhares derramava.
E, da grande aflição mais oprimida,
Meu justo sentimento ao Céu mandava
Com mágoa nunca bem encarecida:
Pela inocência meu furor clamava
Com gemidos e voz enternecida,





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