12 de out de 2012

O LIRISMO CONVENTUAL - PARTE VII



 SÓROR MARIA DO CÉU. 

Despierta, despierta, 
Que quien ama, no es justo que duerma. 
(Sóror Maria do Céu) 


Sóror Maria do Céu nasceu em 1658 e faleceu em 1753. Nascida em uma família pertencente à nobreza, aos dezoito anos de idade ingressou no Convento da Esperança, onde chegou a abadessa. Sob o criptônimo Marina Clemência, que se dizia religiosa franciscana no Convento da Ilha de São Miguel, escreveu, além de poesias, comédias alegórico-morais e hagiográficas, para uso didático nos conventos. A fama da poetisa-freira ultrapassou os muros do claustro e as suas obras foram mandadas imprimir com a aprovação e os louvores dos censores do Santo Ofício, do Ordinário e do paço. Fr. José de Oliveira, censor do Ordinário, qualificou Sóror Maria do Céu como “assombro do sexo feminino, inveja do masculino, e admiração de ambos”. Dentre as obras que publicou, figuram: A Fênix Aparecida na vida, Mote, sepultura e milagres da gloriosa Santa Catarina (1715); A Preciosa, alegoria moral (novela, 1731); A Preciosa, obra de misericórdia (1715); Aves ilustradas em avisos para as religiosas servirem os Ofícios nos seus mosteiros (1734); Enganos do bosque desenganos do rio (novela alegórico-pastoril, 1736) e Metáfora das flores (editado postumamente em 1873). Sóror Maria do Céu foi autora também de três pequenas peças de teatro: Auto de S. Alexo – Maior fineza de amor; Alegoria poética de S. Aleixo – Lágrimas de Roma e Auto de S. Aleixo – Amor e Fé, incluídas na edição de 1741 de Enganos do bosque, desenganos do Rio. 
A poetisa se afirma não somente no âmbito do lirismo feminino como também no panorama da literatura seiscentista como uma das mais bem dotadas no manejo da palavra poética, mantendo um equilíbrio e um comedimento formais nos quais se diluem as excrescências do verso gongórico. Do seu livro Obras várias e admiráveis, foi colhido o poema Mortal doença, no qual pode ser observada a habilidade da autora na utilização da metáfora barroca. 
O poema como um todo se organiza a partir do uso reiterado de metáforas da doença consumidora, ou seja, do significado do pecado por ela representado. Os recursos da repetição e do gerúndio no final de cada verso da primeira, terceira e quarta estrofes intensificam o sentido da ação expressa. Dão idéia de continuidade, de prolongamento no tempo, em contraste com os verbos no tempo presente, utilizados no refrão, acompanhados do advérbio já conferindo à temporalidade da ação um caráter imediato e definitivo. O paralelismo da construção dos versos e do refrão tanto confere à noção do pecado um caráter obsessivo quanto remete para a construção própria das ladainhas, sugerida e reforçada pela organização anafórica do poema:

MORTAL DOENÇA 

Na febre do amor próprio estou ardendo, 
No frio da tibieza tiritando, 
No fastio ao bem desfalecendo, 
Na sezão do meu mal delirando, 
Na fraqueza do ser vou falecendo, 
Na inchação da soberba arrebentando. 

Na dureza do peito atormentada, 
Na sede dos alívios consumida, 
No sono da preguiça adornada, 
No desmaio à razão amortecida, 
Nos temores da morte trespassada, 
No soluço do pranto esmorecida, 
Já morro, já feneço, já termino, 
Vão-me chamar o Médico Divino. 

Na dor de ver-me assim, vou desfazendo, 
Nos sintomas do mal descoroçoando, 
Na sezão de meu dano estou tremendo, 
No risco da doença imaginando, 
No fervor de querer-me enardecendo, 
Na tristeza de ver-me sufocando, 
Já morro, já feneço, já termino, 
Vão-me chamar o Médico Divino. 

Vou ao pasmo do mal emudecendo, 
À sombra da vontade vou cegando, 
Aos gritos do delito emouquecendo, 
Na tristeza de ver-me sufocando, 
Já morro, já feneço, já termino, 
Vão-me chamar o Médico Divino. 

Além de escrever na língua materna, a poetisa compôs muitos poemas em castelhano, alguns insertos em sua obra Enganos do bosque. Dentre eles, chama a atenção o que segue, por sua curiosa construção, espécie de glosa em que os versos mote vão sendo desmembrados e usados como fecho de cada estrofe: 

Cobri-me de flores, 
Que muero de amores. 
Por que de mi aliento el ayre 
No lleve el olor sublime, 
Cobri-me 
Sea, porque todo es uno, 
Alientos de amor y olores 
De flores 
De azucenas y jasmines 
Aqui la mortaja espero, 
Que muero. 
Si me perguntais de que 
Respondo, en dulces rigores: 
De amores 

Os poemas de Sóror Maria do Céu estão disseminados por textos narrativos em prosa de caráter alegórico, como A Preciosa (1731); Enganos do bosque, desenganos do rio (1736-1741) e, ainda, em um volume que reúne textos diversos e foi publicado com o título de Obras várias e admiráveis (1735). 
Em A Preciosa estão alguns dentre os melhores sonetos e glosas da poetisa, inclusive os que dirige à Clemência, seu alter-ego poético: Já por Clemência deixei/ tudo mais que ela não fosse.../ quero-lhe bem, acabou-se: 

Ai! Minha Pastora, 
Divina Clemência: 
Quem me dera ver-vos 
Guardando as ovelhas... 
[...] 
Quem me dera ver-vos 
Entre as montanhezas, 
O leite nas bilhas, 
E fruta nas cestas, 

O suave favo; 
E vós nesta oferta 
Mais doce que o mel, 
Mais branda que acera. 
Ai! Minha Pastora, 
Divina Clemência. 
[...] 
Perguntais-me se é Clemência
Minha pastora feliz? 
Sim, sim. 
Porque tão depressa amei 
Tão depressa respondi, 
Sim,sim? 
Porque o amor não tem não, 
Que quem ama, só tem sim. 

As tentativas de Sóror Maria do Céu de alçar vôos na área da prosa filosófica não foram tão felizes quanto ela foi na expressão do seu incontestável talento lírico. 
Na obra da freira-poeta podem ser observadas duas fases bem distintas e, quiçá, simultâneas: a fase do divino, ou seja, a dos seus escritos religiosos e moralizantes, e a de expressão do humano, ou seja, a da mulher culta e artista sedenta de expandir a sua humanidade, seus sentimentos e sua visão de mundo.
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Zenóbia Collares Moreira. O Barroco no Feminino. Ensaio.


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