12 de out de 2012

A retórica maneirista de D. Joanna da Gama


Nas cousas desta vida não há outra certeza senam serem todas incertas e mudavey.
                         D. Joanna da Gama

Até o ano de 1553 ainda não se pode falar na existência de poetisas na literatura portuguesa, visto que nenhuma obra poética foi encontrada, seja manuscrita, seja impressa. Nessa data, foi publicado, na cidade de Évora, o livro, Ditos da freira, da escritora e poetisa D. Joanna da Gama. Esta primeira edição foi preparada pela tipografia de Andres de Burgos.
A publicação desse livro tem dupla importância para a história da literatura portuguesa, seja porque é a primeira obra, em prosa e versos, escrita por uma mulher em Portugal, seja porque a sua publicação assinala a entrada da mulher no Parnaso Lusitano. Além disso, o livro de Joanna da Gama dá início à produção literária nos conventos de Portugal onde surgiriam, dali por diante, tantas escritoras de extraordinária qualidade.
Joanna da Gama nasceu em Viana do Alentejo, em data desconhecida e faleceu em Évora no ano de 1586. Depois de viúva, reuniu um grupo de senhoras e, juntas, fundaram o Recolhimento do Salvador, para onde se retiram e viveram durante alguns anos. 
O livro de Joanna da Gama é composto por duas partes: na primeira, escrita em prosa, a autora tece considerações sobre vários assuntos de ordem moral e religiosa. Na segunda, estão reunidos os seus poemas: vilancetes, sonetos, cantigas, trovas e romances. Esgotado e incluído no rol das obras raras, o livro teve a sua segunda edição em 1872, a partir de um exemplar comprado em um leilão de livros. É provável que a autora tenha escrito os seus Ditos da Freira e as suas poesias, nos anos passados no Recolhimento do Salvador, conforme sugerem suas próprias palavras: “Eu os fiz para nam me esquecerem, e comuniqueyos com minhas companheiras”,[1] que eram necessariamente as do referido Recolhimento, onde não terminou os seus dias, em virtude de terem sido despejadas do prédio no qual o instalara, por ordem do Cardeal D. Henrique. Este alegava a necessidade de demolir o prédio para ampliar o Colégio dos Padres Jesuítas, ordenando então que D. Joanna e suas companheiras fossem viver temporariamente em casa de parentes, prometendo-lhes arranjar outra habitação, promessa que nunca foi cumprida.
Os “Ditos” e as poesias de Joanna da Gama são atravessados pelas visões do mundo, da vida e do homem cultivadas pela autora que revelam uma grande aproximação com as dos poetas maneiristas seus contemporâneos, notadamente com as de Baltazar Estaço. 
Os Ditos de Joanna da Gama acerca do amor terreno entre o homem e a mulher exemplificam o envolvimento da autora com as formas de pensamento típicas do Maneirismo. Como os poetas maneiristas, D. Joanna considera o amor carnal a fonte de todos os males que atormentam o homem e o afastam do amor de Deus e, conseqüentemente, da salvação eterna, constituindo, sobretudo, motivo de sofrimento e de tristeza para os que se enleiam em seus enganos:

Manhosamente se há o amor, que quem se lhe rende, toma-lhe posse da alma, tra-la perigosa, que nam valle com elle conselho de razam, que o pensamento pera estar descançado, há de estar em Deos. E o que assi nam he, está aleyjado fora do seu lugar, que as cousas d’este mundo nenhuma he digna de ser amada.(...) Onde amor deyta rayzes, por mais que o tempo o vá adelgaçando, he muy mao de desarreygar; prende inquietamente, e dispõe da verdade; há se de fogir d’elle como do demonio, que he autor de quantos males fazemos. (...) De alargarmos as redeas aos desordenados desejos, nos vem todos os males; se os incitarmos e lhe posermos brida assossegaremos na verdadeira paz.[2

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Para Joanna da Gama, “os que amam andam embebidos nos apetites, trazem embaydo o entendimento, caminham pela estrada dos vícios”[3], portanto faz advertência contra qualquer grande afeição, por ser tão perigosa como o amor, porque aliena a razão, priva o homem da liberdade e o conduz à confusão. Trata-se, portanto, segundo a sua concepção, de um sentimento destruidor

"A afeyção e o desejo acrescentam o engenho; em quanto o engano dura faz obrar cousas que parecem impossiveis.
A sobeja afeyçam, se está enxerida na vontade, afoga a razam, põe em ferros a liberdade, e damna a fama, e a põe em confusam.
A afeiçam destrue o coração, enche-o de males, e quando lhe não podem achar corte, passam por passos perigosos da vida; e fama que está em outrem, não está em si.
A afeyçam nos tece o engano, e cobre com falsas venturas, põe-lhe espeques a vaydade, e aponta-os com pontões de esperança.
Há se de enfrear a afeyçam porque he huma má pintura; faz figuras como quer, com verdade e sem ella, e senhorea-se das potencias, que as não deixa usar do que entendem.
Quem leva por guia a afeição, não pode acertar bom caminho, há o de levar errado, há de yr dar em barrancos; se forem pecos ahi ficarão atolados.
Quem dá entrada á afeição, está deliberada no consentimento della; apodera-se-lhe do juyzo, e priva da razão, que nenhum bom conselho lhe pode entrar na vontade."[4
A esta concepção pessimista do amor, soma-se a meditação angustiada sobre os males e as mudanças causados pela ação corrosiva e metamorfoseadora do tempo, que passa arrastando tudo de forma irreversível. A certeza da perecibilidade e transitoriedade das coisas materiais, inclusive da própria vida, estimula o desprezo pelos bens terrenos, tão fugazes, tão passíveis de serem perdidos, e pela busca da felicidade no mundo, tão fugidia e sujeita à mudança: “Ninguém tem o privilégio da bem-aventurança por mais habilitado e próspero que seja; está sujeito tudo à mudança”, diz Joanna da Gama.[5]

Estas palavras da autora avizinham-se das palavras de Camões, em suas redondilhas Babel e Sião, acerca dos efeitos da mudança:

E vi que todos os danos
Se causavam das mudanças
E as mudanças dos anos;
Onde vi quantos enganos
Faz o tempo às esperanças.[6]

A consciência de que o tempo não reverte, não traz de volta o que passou, resulta em uma concepção pessimista e sombria da trajetória existencial do homem muito ao gosto dos maneiristas. Conduzida dentro das leis inexoráveis da temporalidade, a vida humana, não passaria de uma trajetória dolorosa e efêmera, na qual a desventura, o padecimento e a degradação progressiva do corpo e da mente o conduzem do berço até a sepultura, como pode ser visto nos versos que se seguem, do poeta maneirista Manuel de Albergaria:

Abre os olhos ao pranto, antes que ao dia
O mísero mortal; quando amanhece
Logo nas fachas a prisão padece
Do mal para que nasce em companhia;
Infante já no peito não se cria
Humilde à disciplina se offerece
Depois que em ser, e em discurso cresce,
Com fortuna, e amor, em vão porfia.

Já em idade viril triste e mendigo
Sujeito vive a toda a desventura,
Até arrimar ao lenho antigo.
Chega enfim de sua vida a noite escura
Tão brevemente que chorando digo,
Ai! Que há do berço um passo à sepultura![7]

D. Joanna da Gama não se distancia muito da concepção de Manuel de Albergaria, acerca da vida humana, como se pode ver no trecho que se segue:

Está a vida sojeita a desaventuras; a mocidade com a pouca experiência dá muitas cabeçadas; como carrega a idade, aperta a velhice por muitas partes, diminue a saude, gasta as forças, e quanto mayor estado menos liberdade. Nas cousas desta vida não há outra certeza senam serem todas incertas e mudaveys.
Em suas poesias reitera a ideia da sujeição do homem ao tempo e à sua ação corrosiva e destruidora, portanto, lutar contra isto é esforço vão, é, como diz a autora: “navegar contra o vento, é levar o norte errado; pois:

Corre tudo apressado
E desfaz se em um momento;
O tempo estraga e destrue
Vay lhe tudo obedecer,
Acrecenta e diminue,
Faz e torna a desfazer[8]

Ainda em consonância com a visão pessimista do poeta acerca da vida e da destinação do homem ao sofrimento e às adversidades afirma D. Joanna que “as adversidades nos sam naturaes, as prosperidades emprestadas, que todo contentamento da terra se corrompe logo.” [9]
Também o motivo do repúdio e condenação da Esperança em coisas materiais aparece nos “Ditos” com a mesma carga de descrença que os maneiristas reservam para o que eles rotulam de “esperança vã”:

Todos os trabalhos se fazem leves com a esperança; ceva-se o coração della, que he grande mantimento pera elle. Muytos carregados d’esperanças vãs enganam seus pensamentos, andam remontados de si com imaginações tristes, que lhe avivam os cuydados, despresam o que tem pelo que esperam vir.
Mantemos a esperança com muyto pouco custo, sostentamos até que o tempo nos avisa e desengana; amostra a verdade do mundo, que todas suas cousas sam quebradiças e cheias de perigo.[10]

Quando faz referência ao “engano”, outro tema recorrente na poesia maneirista, principalmente na de índole religiosa, a autora emite conceitos bem semelhantes aos dos poetas seus contemporâneos, para quem o homem, sob o domínio dos apetites, desejos e falsas esperanças, dificilmente escapa do enleamento com o engano. Só o reconhecimento acerca da enganosa vanidade da vida e do mundo, do erro e do “desengano” dele decorrente, liberta o homem do engano que o afasta da salvação em Deus:

Andamos após os enganos, somos solicitos em nosso damno, não nos queremos desenganar por ha má opiniam do mundo; vamos contra a alma por amor do corpo, que nos foy dado por seu respeito; estimamos a vida como que fosse perpétua.[11

Em seguida, como faziam os poetas maneiristas, a autora exorta as pessoas a desprezarem os apelos mundanos, fonte de nocivos enganos e dolorosos desenganos, afastando-se “dos inconvenientes do mundo, que quem anda dentro dos afagos d’elle, anda fora de si”.[12] Daí, desaconselhar a busca de contentamentos falazes que afastam o homem do verdadeiro contentamento que só se encontra em Deus:

Se nos guiarmos pelo desejo, destinados nam atinamos com contentamento, buscamol-o em logares diversos; ele está em só Deus; achalo-hemos se contrariarmos nossa vontade, e referirmos à sua.[13]

Essa busca de Deus como fonte de contentamento perpassa grande parte da poesia maneirista, notadamente, a partir das três últimas décadas do século XVI, quando os poetas identificados com o rigorismo do catolicismo pós-tridentino, passaram a advogar o abandono às tentações do mundo e recusando as coisas terrenas, vãs, fugazes e causa do pecado e da perda da salvação eterna. O pensamento da autora não anda, portando, distanciado do de poetas como, Martim de Crasto do Rio, por exemplo, que apostando no conhecimento e na busca de Deus como meio de resgatar a vida humana de sua insensatez e cegueira, declara que Quem não conhece a Deus, nem se conhece / O que há de aborrecer, isso dezeja / E o que há de dezejar isso aborrece.[14]
Escrito numa época de grande repressão religiosa e dos rigores da censura inquisitorial, a obra de Joanna da Gama, no entanto, difere da de outras religiosas suas contemporâneas, por não se revelar submetida aos rigores do ascetismo tão comum nas obras dos poetas seus contemporâneos. Os “Ditos” reduplicam, é claro, a ideologia católica e determinadas temáticas presentes na poesia de maneiristas, todavia sem chegar aos extremos do repúdio a temas da poesia profana e de excessiva adesão à poesia de exaltação religiosa.
Talvez esse comedimento de Joanna da Gama se deva ao fato de jamais ter professado, não obstante vestir-se com um austero hábito de freira. A casa religiosa que fundou, depois de ficar viúva, não chegava a ser uma ordem monástica, mas apenas, como o próprio nome sugere, um “recolhimento” para senhoras que resolviam trocar a vida mundana por uma vida contemplativa e retirada.
Joanna da Gama não se reconhece, ela própria, como escritora. Há um trecho dos seus Ditos no qual revela a intencionalidade do seu livro, afirmando tê-lo escrito para si mesma e para atender o pedido das suas companheiras de retiro, que os apreciam. A visão que tem de sua capacidade intelectual e da qualidade do que escreve é muito modesta e portanto teme que o julgamento dos seus eventuais leitores a condene pela ignorância e insignificância de sua obra, pela qual pede desculpas. Como ele mesma diz nos Ditos do autor a si mesma:

Estes ditos me estam ameaçando, por elles hei-de ser condenada no juízo de muytos: se a ignorância sobeja me faz sel-o que tenha necessidade de perdam, d’aqui o peço aos que me lerem.
Assaz de muita pequice e pouca prudência, grande ousadia e alta presunçam seria a minha se cuidasse que há ninguem de achar sumo ou sabor nestes ditos, pois sam feitos de quem nam sabe; pera mi só os fiz por ter fraca memoria.
Está adivinhado e tomado ás mãos, que porque os ponho neste papel, cuydarão que he pera ensinar; eu queria aprender, que nam me falta conhecimento que nam sou pera dar conselho, senam pera o tomar de quem me essa esmola fizesse? Eu lho agradeceria.
Minha pouca capacidade e a baixeza de meu entendimento me estam ameaçando, e me dizem que nam terá culpa quem ma der em escrever estes ditos; eu o fiz pera nam me esquecerem, e comuniqueyos com minhas amigas; ellas poseram os olhos na minha tençam, pedirarãnoa, nam lhos soube negar: isto vay já parecendo desculpas, de que eu sou pouco.
Por conhecer minha insuficiencia, corro-me d’escrever cousas sotijs. E quando constrangida de me pedir o desejo as quero tocar, foge-me o atrevimento, aconselha-me a razam que o nam faça.[15]

A poesia de Joanna da Gama não tem semelhança com a de outras religiosas do seu tempo, que, em suas obras manuscritas, dedicavam-se exclusivamente ao tema de exaltação ao Divino, à Nossa Senhora, aos santos e mártires do catolicismo, muitas delas destituídas de qualidade literária. 
Ao longo da sua Trovas reunidas na segunda parte do livro, intitulada O auctor, a poetisa reitera muitos dos conceitos e exortações feitos nos Ditos. Nelas, vai desfiando as suas vicissitudes existenciais, através de um discurso poético ensombrado pelo pessimismo e pela descrença na bondade da vida e do mundo. Daí retomar ao longo das várias estrofes das referidas trovas, vários temas de índole maneirista, como o tema do “engano” e do “desengano” e da busca de Deus como via da perfeição e proteção; a recusa da esperança nas coisas do mundo, a vanidade da vida material e mundana e à sua fuga para o refúgio na vida conventual, dizendo-se, nela, livre e protegida dos enganos, pois como ela mesma declara:

E por nam ir adiante
Em tam errada tençam,
Por buscar a perfeiçam
Acolhi me a este palanque
Da santa religião.
[...]
do mundo me esconderey,
do qual nada quererey,
senão só a sepultura.[16]

Em seus versos surpreendemos o mesmo estado de espírito turbado pela melancolia, a mesma serena tristeza que encontramos em muitas poesias do maneirista Frei Agostinho da Cruz, resultantes de uma experiência adversa com as coisas, as pessoas e os enganosos prazeres da vida:

               O autor

Encerrada com tristezas
meu desgosto he o que vejo
sem ver al;
sofrendo mil asperezas,
vay me perseguir o desejo
por meu mal.

De penas acompanhada
des que sinto as mais fortes,
não dizendo,
de mim mesma espantada,
como vivo, tantas mortes
padecendo.

Não faço minha vontade,
tenho a de não na ter
já de nada:
esta desconformidade
não sey quando há de ser
acabada.

Já della viver não sei,
porque em tudo fuy achar
gram desvio
quando na roda fiey
foy-me a fortuna quebrar
logo o fio.

O gosto tenho perdido,
e qualquer cousa delle
me aborrece;
em pesar he convertido
o prazer, que cuydar nelle
me entristece.

Mortaes sam já meus sentidos,
nem tocar, nem cheirar querem,
nem gostar;
não ouço senam gemidos,
os olhos de que mais servem
he de chora

Na garganta trago hum nó
sem engulir poder
o que alma sente;
eu e meu cuydado só
faço vida sem viver
nunca contente.

Os sentidos magoados
levam-me a fantesia
à paixam;
de hum cuidado mil cuydados
me recrecem cada dia
ao coraçam.

Trabalho por descançar,
não me deixa o que sento
que me estorva;
se vou pera repousar
acode me meu tormento
que me acorda.

Sabendo que acaba tudo,
não posso comigo acabar.
o que quero;
ando buscando descuido;
de quanto se póde esperar
desespero.

A mim não são concedidas
as cousas de passatempo,
que dão prazer;
queria as ter esquecidas,
pois vão todas num momento
perecer.

O desejo aperfia
por querer tudo pesar,
estou em balança;
o bem he o que desvia,
o mal sinto sempre estar
sem mudança.

Comigo me desavenho,
e qualquer via que siga
me atormenta;
o mor mal de quantos tenho
he não ter a quem o diga,
que o senta.

Muytos vivem de esperança;
eu de desesperar della
me sustento;
a tristeza sem mudança
de muyto sentido d’ella
já não sento.

E vivo martyrisada;
a tudo o que não queria
sou sujeyta;
com mil tentos atentada
faço conta cada dia
muy estreyta.

Cuydar já remediar
os tormentos que padeço
he escusado;
querendo-os desempeçar
se lhe acho o começo
não tem cabo.

Não me dá nada de nada,
vivo livre de esperança,
sem querer tê-la;
tendo-lhe a conta deitada
que não se acha segurança
em querê-la.

Tem-me causado o desejo
hum continuo cuydado
trabalhoso;
parece-me quanto vejo
da minha dor magoado
e queixoso.

O mundo pouco tratey,
achey-me bem enleada
no que senti:
o que delle alcancey
achey tudo que era nada
quanto vi.

Vejo o que se deseja
depois de ser alcançado
não contentar;
nem há prazer que o seja
perdido tenho o cuydado
de o buscar.

O que o mundo pode dar
Deu-mo com seu interesse
emprestado:
em o querendo lograr
logo me desapparece
em outro estado.

E tudo dá desta sorte
gentileza e fermosura
que se possue:
com a velhice ou morte
tudo se desafigura
e destrue.

Quis apontoar a vida,
Arrimey-me à esperança
por ma suster:
achey que era perdida;
também a lembrança
fuy perder.

A roda vi desandar,
as confianças vieram
destruydas:
não me quis mais enganar
que seus gostos não me encheram
as medidas.

Os enganos já não tem
comigo nenhôa valia
nem terão nunca;
o mal me escramentou bem;
com trabalhos já devia
ser defunta.

Quem bõ o mundo entender
Sentirá como se move
E se muda;
Ninguem pode o que quer,
Nem menos faz o que pode
Se he sezuda.

Todos os que muito sentem
podem pouco repousar
neste tempo;
as esperanças lhe mentem,
he nelles certo o pesar
e tromento.

pois tudo fim há de haver,
demo-la á vaidade
com razão;
temos certo não saber
cada um em que idade
o chamarão.

Devemos sempre cuydar
diante dos olhos tendo
hora tão forte;
compre nos de despertar
que ymos a posta correndo
pera a morte.

O mundo lá me levou
após si hum pouco tempo,
cedo me desenganou,
e me pagou com tormento;
quanto lhe tomei o tento
achey o bem differente;
vi que não hia segura,
vi muyta desaventura,
nenhum estado contente
e todos de pouca dura

A vaydade segui,
de que tenho grnde afronta;
de alguns gostos que fingi
de mi mesma me corri
quando me tomava conta.
E por não ir adiante
em tam errada tenção,
por buscar a perfeição
acolhi me a este palanque
da santa religião.

Não buscarei servidores;
tão contentes de servir,
pois que em tudo há dores;
em que estas sejam mayores
quero as por Deos sentir;
meu comer he por regra,
que me obriguei a guardar;
quem busca manjares erra;
pois tudo come a terra
pera que me hei de poupar?

Aqui estou oferecida,
A mil angustias atada,
com uma corda cingida,
com a vontade trocida
pera a nam fazer em nada;
trabalho e sofrimento
por habito tomarey;
de um pardo me vestirey;
passado, por que passey,
tudo pelo pensamento.
[...]
Enganos sei-os sentir,
mas nam os posso contar,
nem com contas assomar;
nam as queria pedir,
nem muito menos as dar.
Nenhum gosto buscarey
por nam ver quam pouco dey
do mundo me esconderey,
do qual nada quererey,
senão só a sepultura.

A poesia de D. Joanna, como pode ser verificado através dos seus textos, foi feita em consonância com a dos poetas seus contemporâneos. Como os maneiristas, a poetisa superou o figurino renascentista, proposto por Sá de Miranda e tão bem assumida por António Ferreira, e, como Camões e tantos outros poetas do seu tempo, dos quais decerto conheceu as obras, desenvolveu uma poesia que contradita em tudo os cânones do Classicismo renascentista. Daí, o confessionalismo intimista, a subjetividade, o pessimismo, a visão sombria da vida, do homem e do mundo, a melancolia e a tristeza que perpassam as suas composições poéticas, tudo isto confirmado pelos textos que se seguem:

Onde acharey sofrimento
pera vida tão penada?
não me deixa meu tormento
com a dor desesperada;
tem-me feyto tanto dano
que me tem a alma chagada;
no meio do coração
tristeza apousentada
não lhe posso fugir, não,
que comigo vay pegada;
tem-me as potencias somadas
que me não servem de nada;
nenhuma cousa de gosto
 em mim pode ter entrada;
 se alguma hora prazer vejo
 faz-me ser mais enojada
 mil gritos dão meus sentidos
 quando eu estou calada.


      VILANCETE
De ser mais triste espero,
 vivendo desesperada
de tudo o que desejava.


Tinha grande sentimento
 de não ter já que esperar;
 agora vay me matar
 esperar por mais tormento:
 este descontentamento
 me traz a alma trespassada
 que não posso já com nada.

Duas mil penas mortais
 recebia cada dia;
 se com ellas não podia
 como poderey com mais?
 trabalhos desiguaes
 me tem já tão magoada,
 que ando de todo pasmada.

           SONETO

Tem-me a paixam tudo occupado
que o sentimento não pode valer;
nem quer se cale, nem menos dizer;
neste estremo tal me tem hum cuidado.

Tem-se do coração já apoderado
que lembranças tristes não posso esquecer;
nem tenho poder pera assi não ser,
que o jeito que mostro he todo forçado.

Nestas contendas eu ando comigo,
vejo contra mi muitas sem razões,
per todos os sentidos me entram as paixões,

Que  eu mesma cumpri os trabalhos que sigo;
consola-me que tudo tem fim e acaba
o que eu queria he não querer nada.

Além de Joanna da Gama, muitas outras religiosas escreveram obras dentro dos conventos. Todavia, nenhuma ousou ultrapassar os limites da poesia e da prosa encomiásticas, laudatórias e panegíricas, voltada para a vida dos santos ou para assuntos doutrinários, cujo conteúdo, meramente ditados pela moral cristã, em conformidade com o figurino da Igreja Católica, nada mais eram que ecos das Sagradas Escrituras. A maioria dessas obras ficou em manuscritos, encontrando-se muitas delas sob guarda dos “Reservados” da Biblioteca Nacional de Lisboa. Não têm valor literário, embora tenham importância pelo valor documental que representa.


NOTAS
[1] Joanna da Gama, Ditos da Freira, p.22.
[2] Id. Ibid., p. 6
[3] Id. Ibid., p. 5
[4] Id. Ibidem, p. 3-4.
[5] Id. Ibidem, p. 5
[6] Luís de Camões, “Babel e Sião”, in Rimas, p. 120
[7] Cancioneiro Fernandes Tomás, fl. 80r.
[8] Joana da Gama, Op. cit., p. 82.
[9] Id. Ibidem,p. 4.
[10] Id. Ibidem, p. 26.
[11] Id. Ibidem, p. 26.
[12] Id. Ibidem, p. 26.
[13] Id. Ibidem, p. 10.
[14] Martim de Crasto do Rio, apud, Vitor Manuel de Aguiar e Silva, Maneirismo e Barroco na Poesia Lírica Portuguesa, p. 315.
[15] Joana da Gama, op. cit., pp. 21-22.
[16] Id. Ibidem, p. 91-92.

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Zenóbia Collares Moreira. Ensaios.

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