12 de out de 2012

O LIRISMO CONVENTUAI - PARTE VI


 SÓROR MADALENA DA GLÓRIA 

Oh! Considera em tão penosa sorte, 
Que a vida é feno, sendo raio a morte! 
(Sóror Madalena da Glória) 

Nascida em 1672 e falecida em 1759, Madalena da Glória ingressou no Convento de Nossa Senhora da Esperança aos dezesseis anos de idade. Com o pseudônimo de Leonarda da Gama, escreveu várias obras, em prosa e verso: Brados do desengano contra o profundo sono do esquecimento (2 tomos, 1739 e 1749); Orbe celeste adornado de brilhantes estrelas e dois ramalhetes.(1742); Reino da Babilônia ganhado pelas armas do Empírio (1749). Os principais poemas da autora estão inseridos ao longo de narrativas alegóricas de função moralizadora 
Se, na composição dos sonetos, Sóror Madalena da Glória revela menos esmero e habilidade do que Sóror Violante do Céu, consegue, no entanto, superá-la no trato com formas poéticas menos fechadas, adequadas, na medida justa, à sua exuberante e solta imaginação lírica, ao seu sereno sentimentalismo. Sóror Madalena da Glória destaca-se, ainda, pela desenvoltura com que maneja o jogo de conceitos típico do conceitismo, despojando esse estilo de exageros e frivolidades, utilizando-o no sentido mais intensamente expressivo de uma discreta densidade que emana dos seus versos. A estrofe que segue, escrita em oitava rima, ressalta a leveza da construção metafórica dos poemas da poetisa-freira, nos quais as metáforas em série vão se sucedendo de verso a verso, para exprimirem o caráter efêmero da vida humana: 

Esse monte de fogo, que nascendo 
Em campo de safiras, luz ardente 
Em chegando ao zênite, já vai descendo 
Quando o viste subir do seu oriente: 
Nasceu luz, cresceu sol, porém morrendo 
Nem luz, nem sol se mostra no ocidente. 
Pois se de vida o sol não tem dois dias, 
Mortal, como em instantes te confias? 

A poesia de Sóror Madalena da Glória percorre, praticamente, toda a temática barroca, ocupando lugar de destaque o problema da efemeridade da vida humana, do tempo, da morte e do desengano.
O tema da efemeridade da vida, quase sempre, se desenvolve em conexão com o da transitoriedade do tempo e da inexorável ação destrutiva que ele exerce sobre o físico e a mente do homem, arrastando-o para a morte:

Esse sono, em que cego vás passando, 
Essa vida mortal, em que confias, 
Já nas asas do tempo vai voando 
Porque da vida instantes são os dias: 

Já que o tempo da vida vai correndo, 
A flor da formosura descaindo, 
Do sol o resplendor desfalecendo, 
E a luz do desengano vem ferindo: 

Quando tudo da vida vai morrendo, 
E tudo enfim a morte desunindo; 
Oh! Considera em tão penosa sorte, 
Que a vida é feno, sendo raio a morte! 

No livro da poetisa, Orbe celeste, o tema da morte, sempre presente na lírica barroca, é desenvolvido em vários poemas dentre os quais figura o soneto a seguir, dedicado A uma caveira pintada em um painel que foi retrato, associado à meditação acerca da efemeridade dos valores terrenos: 

Este que vês de sombras colorido 
E invejas deu na primavera às flores, 
Do pincel transformadas os primores 
Desengano horroroso é dos sentidos. 

Ídolo foi do engano pretendido 
A que a cega ilusão votou louvores 
Estrago é já do tempo e seus rigores 
O que então foi ao que é já reduzido. 

Foi um vão artifício do cuidado, 
Foi luz exposta ao combater do vento, 
Emprego dos perigos mal guardado; 
Foi nácar reduzido ao macilento, 
O culto ali nos medos transformada, 
Mortalha a gala, a casa monumento.[1]

É certo que a consciência de que o tempo flui, arrastando o homem, em sua passagem, não está presente apenas no Barroco; ela está presente na literatura desde sempre, intensificando-se no período maneirista, do qual transitou para o Barroco trazendo consigo o mesmo caráter obsessivo que lhe imprimiu o Maneirismo. 
O teor subjetivo da poesia de Madalena da Glória, a expressão de estados melancólicos, suscitados pela saudade de um bem ausente, pelo desengano e pelos ciúmes, é bem estranha, considerando-se tratar-se da obra de uma freira: 

Aves que o ar discorreis, 
No vôo as asas batendo, 
E por vossas penas conta 
Às minhas meu sentimento. 

Compadecidas ouvi 
De minha dor os excessos, 
Mas em dizer que é saudade, 
Digo o que posso dizer-vos. 

Triste padeço, e ausente 
Os golpes dos meus receios 
Nas batalhas da distância, 
Nos desafios do tempo. 

Nas violências, do que choro, 
Dos alívios desespero,
Que não adormece a queixa, 
Quando a desperta o desvelo. 

Esmoreceu a esperança 
Nas dilações do desejo, 
Prognosticando a ruína 
Frenético o pensamento. 

Se meu mal são sintomas, 
Mortais ausências, e zelos, 
Era o remédio esquecer-me, 
Se em mim houvera esquecimento. 

Mas se faz no meu cuidado 
Operações o veneno, 
Viva de senti-lo quem, 
Não morre de padecê-lo. 

Já que morro, ingrata sorte, 
Às mãos da tua porfia, 
Deixa-me inquirir um dia 
A causa da minha morte: 

Se amor com impulso forte 
Me rendeu, como me aparta 
Do bem, que na alma retrata 
Minha doce saudade, 
Que em lágrimas persuade, 
Como dá vida o que mata. 

A religiosidade encontra na poesia barroca muitas formas de expressão. O sujeito poético apresenta-se quase sempre como um ser fraco, arrastado para o pecado e assumindo uma total dependência ao amor e da misericórdia de Deus. No soneto abaixo, inserto no livro de Sóror Madalena da Glória, Reino da Babilônia, o ser que nele fala posta-se suplicante perante a graça divina, contrito e consciente da sua situação de pecador penitente. Todavia, fica clara a relação amorosa que se estabelece entre a alma pecadora e o Criador, pautada numa reciprocidade que faz da criatura não apenas uma fonte de amor por Deus como o objeto do amor divino:

OITAVAS 
Já, Senhor, despertaram meus cuidados 
Em tanta ingratidão adormecidos; 
Nasceram a querer-vos destinados 
E em cega idolatria os vi perdidos. 
Vossa mesma fineza lhe deu brados 
Por que a tanto favor agradecidos 
Confesse o coração com rendimento 
Que é de vosso amor doce sustento. 

Dos aparentes bens a prisão dura, 
Que o gosto cativaram com violência, 
Venceu a vossa luz a sombra escura 
Para maior vitória da clemência. 
Constante a minha fé vos assegura 
De Babilônia às leis a resistência, 
Que é certo pouco faz quem obedece, 
Se chegando a vos ver o mais lhe esquece. 

Primeiro se verá da Quarta Esfera 
Apagado o monarca refulgente 
Que no palácio etéreo reverbera 
A luz que os montes doura no oriente, 
Que meu amor vos falte quando espera 
Que acendais vós com fogo o fogo ardente, 
Que o peito, que das chamas tem inveja, 
Um coração de chamas ter deseja. 
Venham formosos lírios, venham rosas, 
Maçãs e jasmins venham, que ferida 
Minha alma está das setas amorosas 
Que quanto mais me ferem me dão vida. 
Cubram-me de açucenas, que cheirosas 
Fragrâncias vão inspirando à fé unida. 
Arda o peito no fogo em que suave 
Imite o coração a imortal ave. 

Não é a tematização do amor o que centraliza os interesses dos poetas barrocos. Muitas vezes o tema amoroso é abordado como mero exercício poético, como sátira ou como ludicidade. Talvez seja nesse último caso que se inclui a composição de Sóror Madalena da Glória que segue, considerando-se que o poema é desenvolvido a partir de um mote, o que aponta para o caráter lúdico do texto: 

MOTE E GLOSA 
Tenho amor, sem ter amores.

GLOSAS 
Este mal que não tem cura, 
Este bem que me arrebata, 
Este rigor que me mata, 
Esta entendida loucura 
É mal e é bem que me apura; 
Se equivocando os rigores 
Da fortuna aos favores, 
É remédio em caso tal 
Dar por resposta ao meu mal: 
Tenho amor, sem ter amores. 
É fogo, é incêndio, é raio, 
Este, que em penosa calma, 
Sendo do meu peito alma, 
De minha vida é desmaio: 
E pois em moral ensaio 
Da dor padeço os rigores, 
Pergunta em tristes clamores 
A causa da minha aflição, 
Respondeu o coração: 
Tenho amor, sem ter amores.

A leveza da construção metafórica dos poemas da poetisa-freira, o equilíbrio e a habilidade com que maneja o conceitismo, o a vontade com que trabalha o verso, dando expressão aos sentimentos e sua imaginação lírica, faz da autora uma das mais qualificadas expressões da poesia barroca portuguesa. 

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[1] Sóror Madalena da Glória, Op, cit., p. 265),
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Zenóbia Collares Moreira. O Barroco no Feminino. Ensaios


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