12 de out de 2012

O LIRISMO CONVENTUAL - Parte V




SÓROR VIOLANTE DO CÉU
Apesar de rodeadas de muros conventuais, as mulheres que escreveram ao longo dos anos de seiscentos foram permeadas pelas preocupações dominantes do tempo. 
(Isabel Allegro Magalhães) 

Nem todas as ordens religiosas isolavam do mundo suas professas, propiciando-lhes convivência com pessoas de ambos os sexos no interior dos conventos, nos quais eram organizadas reuniões que atraíam poetas, artistas e intelectuais, seduzidos pelas atividades também culturais que ali eram realizadas, inclusive a boa música, o canto e a recitação de poesias. Exemplifica bem a liberdade que era dada às religiosas o caso de Sóror Mariana Alcoforado e seu ardente amor – por um cavalheiro francês – revelado nas célebres Cartas portuguesas.[1]
Se as poetisas religiosas chegaram aos nossos dias com o prestígio que lograram alcançar no seu tempo, o mesmo não se deu com as demais poetisas, especialmente com Bernarda Ferreira de Lacerda e Maria de Lara e Meneses. Seus nomes e suas obras ficaram relegados ao esquecimento. 
Sóror Violante do Céu nasceu em 1602 e faleceu em 1693, despedindo-se duma longa trajetória existencial, quase toda ela transcorrida entre os faustos da fama conquistada pela qualidade literária de sua obra. Antes de ingressar no convento, atendia pelo nome de Violante da Silveira, ou Violante de Montesino e cultivou a poesia profana, inclusive o lirismo amoroso. Após vestir o hábito, passou a investir o seu talento poético na poesia religiosa, revelando-se uma das mais prestigiadas representantes femininas do Barroco português, conquistando inúmeros prêmios e louvores das academias literárias do seu tempo. Sua produção literária é considerada pela crítica da atualidade um dos momentos altos do conceptualismo barroco português. Dentre as escritoras suas contemporâneas, nenhuma teve a obra mais celebrada que a dela, nem atingiu a culminância do seu sucesso entre os altos representantes da nobreza, da intelectualidade da época e dos próprios soberanos. As sucessivas edições dos seus livros logo se esgotavam, dentro e fora de Portugal.
Sóror Violante do Céu publicou as seguintes obras: Rimas várias (Ruão, 1646); Parnaso lusitano de divinos e humanos versos (Lisboa, 1633, dois volumes); Romance a Cristo crucificado, Solilóquios para antes e depois da Comunhão (Lisboa, 1668); Oitavas a Nossa Senhora da Conceição em aplauso da vitória de Montes Claros (1665); Meditações de missa e preparação afectuosa de uma alma devota (1689), La transformacion por Dios (s/d); El hijo esposo y hermano (comédia, s/d); La vitória por la cruz (comédia, s/d). 
Alguns aspectos biográficos de Sóror Violante do Céu merecem uma atenção especial, notadamente no tocante à sua vida sentimental, que ela mesma relata em um “romance” endereçado a Nise, uma amiga íntima da religiosa e também sua fiel confidente. Tal “romance”, que tanto espicaçou a curiosidade dos biógrafos de Sóror Violante, dá conta da sua mal sucedida relação afetiva com um homem a quem amara desde a adolescência e que ela supunha ser merecedor dos seus sentimentos. Desalentada, tomada pela tristeza, escreve: 

Considero la prudência 
Impossibles lãs venturas, 
Forçosos los precipícios, 
Lãs esperanças defuntas... 

Desiludida com o amor e com os homens, Violante decide entrar para o convento. Ela mesma conta a Nise os sofrimentos que padeceu por causa das decepções amorosas, conflitos, dúvidas, ciúmes e incertezas: 

Hizo loucuras por outra, 
Fue, sino em las astúcias, 
Marcias Ariano em finezas, 
Adonis tambien em culpas. 

Y dexando-me um retrato 
Porque em la muerte futura 
No me faltasse la imagem, 
Fuesse com falsas desculpas... 

Si quede triste, si muerta, 
Tu que lo sabes lo julga, 
Que tantas vezes me hallaste, 
Entre paracismos muda... 

Mas, pensando en los agrabios, 
Tanto me vencio la furia, 
Que admití devertimentos, 
Veras amorosas nunca... 

O retorno do homem amado, depois de uma breve ausência, ao mesmo tempo em que fez renascer o amor no coração de Violante, encheu-a de dúvidas em relação ao destino que tal sentimento daria à sua vida:

Despues de um lustro de ausência, 
Despues de tanta fortuna, 
El que negava respuestas 
Me haze agora perguntas. 

Matarme quiere de nuevo, 
Porque como al fim se oculta, 
No teme ser homicida, 
Y mas de vida que es suya. 

Yo, que sujeta me veyo 
A correspondencias justas 
De un hombre que son finezas 
Triunfar de mi amor procura, 

Renovadas las heridas, 
No sé que elija confusa, 
Si buscar a quien me dexa, 
Si dexar a quien me busca... 

Confrontada com o dilema que exigia de si mesma uma atitude decisória, Violante recorre aos conselhos de Nise, para que consiga livrar-se da indecisão que a angustia: 

Si asseguro quien me olvida, 
Si olvido quien me asegura, 
Obedezco a mis deseos, 
Pero sugetome a culpas. 
[...] 
Oh dame consejo, Nise, 
si de que muera no gustas. 
Dime, que haré, Nise mia, 
Dime, pues mi pena escuchas! 

Se Nise deu-lhe ou não o conselho pedido, não se sabe. Todavia Violante achou a solução para o conflito que a torturava na renuncia ao amor, mesmo com algum sofrimento: 

Determinada em mi daño, 
Em mi ofensa resoluta, 
Para um tumulo de vidas 
Huy de tantas fortunas. 

Ay, que ignorante prudencia! 
Ay, que imprudente cordura! 
Ay, que furioso delirio! 
Ay, que delirante furia! 

Levada a tomar o hábito de freira dominicana, no Convento de Nossa Senhora da Rosa, aos 29 anos de idade, e a exilar-se na vida claustral, não motivada por uma imperiosa vocação, mas para proteger-se dos sentimentos que a arrebataram e fizeram sofrer, Violante voltou as costas para o mundo e para o amor. No entanto, em sua poesia, a temática amorosa desponta aqui e ali, como uma força oculta que não consegue, ou talvez não quer sufocar. Mesmo nas poesias de temática religiosa, nas quais suplica ao Criador o perdão para os seus erros passados, é freqüentemente o amor que emerge do seu discurso.

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No soneto que segue, tem-se a comprovação dessa presença do amor no espírito da poetisa. No poema, chamam a atenção as palavras opositivas vida e morte, alternadas no final dos versos. A antítese vida/morte é habilmente submetida a um jogo de sentidos no qual os termos opostos harmonizam-se através de um reiterado revezamento permutativo entre o sentido próprio e o sentido metafórico dos dois vocábulos: a morte, usada como expressão hiperbólica do sofrimento amoroso, confunde-se com a vida, como comprova o derradeiro verso do soneto. 

Se, apartada do corpo a doce vida, 
Domina em seu lugar a dura morte, 
De que nasce tardar-me tanto a morte, 
Si ausente d´alma estou que me dá vida? 

Não quero sem Silvano já ter vida, 
Pois tudo sem Silvano é viva morte, 
Já que se foi Silvano, venha a morte 
Perca-se por Silvano a minha vida. 

Ah! suspirado ausente, se esta morte 
Não te obriga querer vir dar-me a vida, 
Como não ma vem dar a mesma morte? 

Mas se na alma consiste a própria vida, 
Bem sei que se me tarda tanto a morte
Que é porque sinta a morte de tal vida. 

A invulgar sensibilidade da autora, seu estilo intelectualizado e a sua habilidade técnica asseguraram-lhe lugar de destaque nas letras portuguesas, ao lado das maiores expressões da poesia barroca. Em suas poesias profanas, reunidas na obra intitulada Rimas várias, publicada em 1646, sobressaem as metáforas conceituosas, as sutilezas, os jogos verbais, as figuras de estilo, manipulados com invulgar habilidade. Veja-se, por exemplo, a estrutura metafórica através da qual se estruturam as estrofes da Canção que segue. As metáforas que se sucedem, usadas para referenciar o pensamento, espraiam-se em cascata ao longo da estrofe, resultando num efeito redundante e altamente intensificador do sentido: 

Amante pensamento, 
Núncio de amor, correio a vontade, 
Emulação do vento, 
Lisonja da mais triste soledade, 
Ministro da lembrança, 
Gosto na posse, alívio na esperança. 

O soneto que abaixo exemplifica bem o requintado gosto barroco pela enumeração e pela proliferação verbal. Maria Lucília G. Pires chama a atenção para o fato de esse soneto ser quase exclusivamente constituído por “uma enumeração de adynata ou impossibilia, tópico que consiste em referir coisas impossíveis de se realizarem por serem opostas às leis naturais”, acrescentando que “este tópico tem sempre uma função hiperbólica, pois apresenta o facto que serve de tema ao poema como mais impossível (...) que todos os impossíveis enumerados”.[2] Soma-se a esse processo enumerativo a técnica da bimembração dos versos, resultando numa simetria perfeita em cada um deles e na estrofe como um todo. Vale notar que os versos bimembres encerram uma oposição intensificada, ou seja, eles têm no oxímoro a viga mestra de sua construção. Observe-se ainda o domínio absoluto do oxímoro e da bimembração em todos os versos das quadras, prolongando-se nos tercetos, sem que o uso intensivo de ambos os recursos de estilo prejudique o ritmo do soneto ou o torne monótono, como costuma acontecer em textos que se constroem de forma semelhante: 

Será brando o rigor, firme a mudança, 
Humilde a presunção, vária a firmeza, 
Fraco o valor, cobarde a fortaleza, 
Triste o prazer, discreta a confiança; 

Terá a ingratidão firme lembrança, 
Será rude o saber, sábia a rudeza, 
Lhana a ficção, sofística a lhaneza, 
Áspero o amor, benigna a esquivança; 

Será merecimento a indignidade, 
Defeito a perfeição, culpa a defensa,
Intrépido o temor, dura a piedade, 

Delito a obrigação, favor a ofensa, 
Verdadeira a traição, falsa a verdade, 
Antes que vosso amor meu peito vença. 

A inevitabilidade da morte e do caráter transitório da vida é um dos temas mais apreciados pelos poetas barrocos, bem como o gosto pela meditação sobre a fugacidade das coisas e dos seres, principalmente da beleza da mulher, um dos símbolos mais dramáticos da destruição causada pelo tempo ou pela morte. A nota sombria do texto fica por conta do reconhecimento de que a vaidade, a beleza, enfim os bens terrenos, tudo caminha para o fim inexorável imposto pela morte: 

SONETO 
(Vozes de uma dama desvanecida de dentro de uma sepultura, que fala a outra dama, que presumida entrou em uma igreja com os cuidados de ser vista e louvada de todos, e se assentou a um túmulo, que tinha este epitáfio, que leu curiosamente) 

Ó tu, que com enganos divertida 
Vives do que hás-de ser tão descuidada, 
Aprende aqui lições de escarmentada, 
Ostentarás acções de prevenida. 

Considera, que em terra convertida 
Jaz aqui a beleza mais louvada, 
E que tudo o da vida é pó, é nada, 
E que menos que nada a tua vida. 

Considera, que a morte rigorosa 
Não respeita beleza, nem juízo, 
E que sendo tão certa é duvidosa: 

Admite deste túmulo o aviso, 
E vive do teu fim mais cuidadosa, 
Pois sabes, que o teu fim é tão preciso. 

No soneto dado a seguir, a poetisa deseja expressar o desconcerto de um coração atormentado pela dúvida e o faz num crescendo que as duas quadras e o último terceto paralelamente acentuam nas duas formas interrogativas. E é na chave do soneto que conclui, empolgadamente, qual poderá ser o estado de alma que resultará de uma certeza, se só a dúvida já é suficiente para a matar. A poetisa desdobra essa idéia obcecante, insistindo nela três vezes, apenas mudando a forma de expressão que traduz o seu estado de espírito presente e deixa subentendido o que poderá acontecer se a dúvida se transformar em certeza. A idéia está condensada nos dois primeiros versos e no último terceto: 

Amor, se uma mudança imaginada 
É com tanto rigor minha homicida, 
Que fará, se passar de ser temida, 
A ser, como temida, averiguada? 

Se, só por ser de mim tão receada, 
Com dura execução me tira a vida, 
Que fará, se chegar a ser sabida? 
Que fará, se passar de suspeitada? 

Porém, já que se mata, sendo incerta, 
Somente o imaginá-la e presumi-la 
Claro está, pois da vida o fio corta. 

Que me fará depois, quando for certa: 
Ou tornar a viver para senti-la, 
Ou senti-la também depois de morta. 

O refinamento do amor traduz-se no último terceto, nos dois versos finais. Num requinte de sentimento, acentua-se a continuidade do sofrimento, mesmo além da morte, que pode levar a um renascer contínuo a serviço do mesmo amor, sempre tomado por dúvidas angustiantes: “Ou tornar a viver, para senti-la. / Ou senti-la também depois de morta”. 
A inspiração de Sóror Violante do Céu não se voltava apenas para a expressão de seus sentimentos, da sua religiosidade e da sua visão de mundo. Coexistia com esse lado grave da poetisa um outro jovial, irreverente e irônico, através do qual dava vazão ao “estilo jocoso”, tão do gosto da ludicidade e do espírito crítico dos barrocos. A guisa de exemplificação, segue-se a décima, escrita decerto em data anterior ao ingresso da poetisa no convento, com a qual respondeu a um certo doutor que caíra na infeliz idéia de fazer um trocadilho com o nome da autora, associando-o ao nome da viola ou violeta, respectivamente, instrumento musical e flor: 

Contradizer a um doutor, 
Bem sei que é temeridade; 
Porém com uma verdade 
Quero pagar um louvor: 
Nem instrumento, nem flor 
Sou, porém se o posso ser, 
Ninguém trate de empreender 
O que não há-de alcançar, 
Pois nenhum me há-de tocar, 
Pois nenhum me há-de colher. 

Celebrada, como já foi dito, por personalidades importantes do mundo das letras, da aristocracia e do clero, as composições de Sóror Violante eram recebidas com aplausos pelos seus admiradores, eram lidas, recitadas, e tinham as suas edições rapidamente esgotadas em Portugal e no estrangeiro.
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[1] Sóror Mariana Alcoforado,
[2] Maria Lucília G. Pires, Op. cit., p. 108.
Zenóbia Collares Moreira. O Barroco no Feminino. Ensaio.


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