9 de fev de 2013

A Expressão do Mito no Romantismo (Parte X)



Camilo Castelo Branco, com o seu romance Amor de Perdição e Alexandre Herculano com Eurico o presbítero,( e de certo modo com a história de Dulce e Egas no romance O bobo) ofereceram à literatura portuguesa versões românticas do mito do amor-paixão, com a narração dos infelizes amores de Simão e Teresa / Hermengarda e Eurico, respectivamente. No teatro, é Garrett quem oferece , através do drama Frei Luís de Sousa , uma história que retoma os conceitos míticos do amor impossível, do amor ligado à idéia da punição, etc.
O romance de Herculano tem a sua ação no século XII, época da formação da nacionalidade portuguesa. Em relação ao amor-paixão que liga Eurico, o presbítero a Hernengarda, o que se tem inicialmente é o obstáculo social. Quando este deixa de existir, dez anos mais tarde, surge o obstáculo religioso. Tanto o tema heróico quanto o tema amoroso estão configurados neste romance. No primeiro, o Cavaleiro Negro movimenta-se perfeitamente integrado no meio, realizando façanhas admiráveis. Já no tema amoroso, Eurico luta por valores ainda não aceitos: livre escolha da pessoa com quem se casará e, depois, libertação do casamento clerical. A sociedade burguesa-católica e puritana do século XIX ainda não estava preparada para romper definitivamente com o celibato clerical. Por isso Eurico e Hermengarda não podem ficar juntos, devem ser punidos com a morte, porque estavam colocando em perigo o equilíbrio do grupo social e do grupo religioso.
O romance Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, será o nosso objeto de análise na busca de elementos míticos nele presentes.
Neste romance, Camilo apresenta o homem em luta dramática para solucionar os seus problemas dentro da “linha do espiritual”. 
O herói camiliano será regido pela “lei da paixão”, tal como o foi Tristão, Abelardo, Romeu etc.
Tentaremos estabelecer uma relação entre a história de Tristão e Isolda e a de Simão e Teresa, mostrando que há um palarelismo entre ambas as histórias.


AMOR DE PERDIÇÃO: dimensões e planos.

O romance pode ser dividido em 3 partes:O CONHECIMENTO ( vai do nascimento de Simão à descoberta do amor);
O AMOR ( vai da descoberta do amor à morte de Baltasar);
A MORTE ( vai da prisão de Simão à morte deste e de Teresa.)
A narrativa atesta uma progressão, assim como o mito: assiste-se, de um lado, a uma disjunção crescente entre Simão / Teresa e a sociedade, enquanto, por outro lado, assiste-se a uma união cada vez mais profunda entre os dois jovens apaixonados, que vão criando seu mundo afastado dos valores da sociedade patriarcal. Embora os dois quase nunca se encontrem fisicamente, espiritualmente estão muito próximos e essa aproximação e comunicação é feita através das cartas.
No mito, como já vimos, há dois temas distintos: o heróico e o amoroso. Tristão, no tema heróico, já ganha dimensões de herói nacional e age de acordo com os valores aceitos na época. Todavia, não ocorre o mesmo em Amor de Perdição. O tema heróico no romance de Camilo é bem mais reduzido do que o do mito e Simão não realiza nada definitivo quando age contra os valores aceitos na época, lutando por ideais políticos de libertação.
A atividade de Simão no tema heróico serve, apenas, para mostrar seu caráter forte e arrebatado e a incompreensão por parte da família em relação a ele:
“O filho do corregedor de Viseu defendia que Portugal devia regenerar-se num batismo de sangue, para que a hidra dos tiranos não erguesse mais uma das mil cabeças sob a clava do Hércules popular.” (3)
Não há, pois, relações familiares superestimadas entre Simão e os pais,( tal como acontece ,também, com Teresa e Tadeu de Albuquerque).
A troca das cartas, que vão e vêm clandestinamente, sem o consentimento dos pais, será sempre uma relação familiar subestimada, que se estende do início ao fim do romance.
É, entretanto, no plano amoroso que Simão ganhará dimensões de verdadeiro herói, por causa do amor. 
Na Introdução do romance, Camilo diz que a história de Simão pode ser resumida na frase: “Amou, perdeu-se e morreu amando.”
No tema amoroso, Simão apresenta-se como um ser privilegiado: seu sentimento de honra é enorme, nada aceitando da família quando está na prisão. Quando é chamado ao tribunal, no dia do seu julgamento, Simão recusa-se a qualquer defesa (4)
No tema amoroso, o amor , conforme declara o narrador do romance, faz “maravilhosa mudança nos costumes de Simão”, ele procura lugares solitários e ermos: “Nas doces noites de Estio demorava-se por fora até o romper da alva.” (5) Isso não quer dizer que ele perdesse a coragem, mas, sim, que passaria a lutar contra tudo que se opusesse ao novo ideal que regeria a sua vida:

tema heróico: ideal político
tema amoroso: ideal amoroso

O que é comum aos dois temas em relação ao comportamento de Simão, é que ele luta sempre em favor de valores aceitos ainda, manifestando-se como um espírito dramático. E para evidenciar sua qualidade de ser escolhido, Simão também teve seu nascimento marcado por um fato triste. É a mãe quem lhe escreve quando ele está na prisão:

“Que destino o teu! Oxalá que tivesses morrido ao nascer!
Morto me disseram que tinhas nascido; mas o teu fatal destino não o quis largar.

“Por sua vez, Teresa também é especial no seu sentimento. Camilo diz que “... o amor dos quinze anos é uma brincadeira; é a última manifestação do amor às bonecas...” Logo a seguir, explica que “Teresa de Albuquerque devia ser, porventura, uma exceção no seu amor.” (6)
Portanto, no romance, não só o herói realiza façanhas extraordinárias, mas também Teresa luta como pode para vencer a ferocidade do pai, preferindo ir para o convento a casar-se com o primo Baltasar.
Se verificarmos o obstáculo que se apresenta ao amor de Simão e Teresa, veremos que ele é social. É o pai de Teresa que lhe quer impor um casamento com o primo, não cogitando do sentimento da filha por Simão. Tanto em Tristão e Isolda, quanto no romance de Camilo, como ainda não havia perspectiva de aceitação, no momento em que as obras foram feitas, do ideal que buscam os dois casais, ambos foram levados à morte, pois, não podendo sintonizar a realização de seu amor com os desejos da sociedade, colocam em perigo o equilíbrio do grupo social. O mesmo esquema do mito do amor-paixão desenha-se no romance camiliano”:

Teresa Simão
Baltasar Mariana
_______________________________
Embora jovens são rejeitados

Entretanto, embora paralelas, na medida em que Mariana e Baltasar são recusados como pretendentes, há uma oposição que se processa no campo em que a recusa é feita. A recusa de Teresa é feita no campo das relações familiares subestimadas – a relação entre ela e Baltasar é hostil. Já não é assim a recusa de Simão ao amor da filha de João da Cruz: Simão não pode aceitar o amor de Mariana porque simplesmente seu sentimento por Teresa é como o de Tristão por Isolda: amor eterno, fruto do acaso.

“Da janela do seu quarto é que ele a vira a primeira vez, para amá-la sempre.
Não ficara ela incólume da ferida que fizera no coração do vizinho: amou-o também, e com mais seriedade que a habitual nos seus anos.”(7)
Para Simão, tudo seria mais simples se, em vez de amar Teresa, amasse Mariana, como ele próprio diz ao ferrador: “Pudesse eu ser marido de sua filha, meu nobre amigo!”(8)
Assim como Tristão se afastou de Isolda para que esta, depois do julgamento de Deus, pudesse voltar a viver com Marc, também Simão ter-se-ia afastado de Teresa se ela assim o quisesse:
“Se teu pai quisesse que eu me arrastasse a seus pés para te merecer, beijar-lhos-ia. Se tu me mandasses morrer para te não privar de ser feliz com outro homem, morreria, Teresa.”(9)
Assim como Tristão se casou com Isolda, a das Brancas Mãos, mas não a amou, também Simão não corresponde ao amor de Mariana: “Sou infeliz por não poder fazê-la minha mulher.”, diz à filha de João da Cruz, quando ela comunica que vai acompanhá-lo ao desterro. 
Mariana é uma espécie de tentação para colocar à prova o amor de Simão; mas este permanece fiel à sua amada, como o cavalheiro medieval, como Tristão. Vale lembrar que a fidelidade à mulher amada é uma das regras do amor cortês. Mesmo que esta seja inacessível, mesmo que infindos obstáculos se interponham entre ele e a mulher que ama, o amante se mantém fiel..
Considerando, agora, Mariana podemos dizer que ela se opõe a Isolda, a de Brancas Mãos. Enquanto esta foi a causa, no plano literal, da morte de Tristão. Mariana, ao contrário, sempre apoiou Simão, embora sofresse com isso. A fidelidade de Simão a Teresa atinge proporções muito maiores, pois as relações dele com Mariana processam-se no campo positivo e ela, como personagem, é até mais humana que Teresa. A filha de Tadeu de Albuquerque aproxima-se da mulher das cantigas medievais, sempre distante, quase nunca tendo seus atributos físicos referidos explicitamente pelo narrador. Há, no romance, pouquíssimas referências tanto ao físico de Teresa quanto ao do próprio Simão.
Em relação aos planos, não teremos em Amor de perdição o aparecimento do plano mágico, como no mito medieval. A ajuda aos jovens apaixonados é dada sempre por aliados humanos tais como João de Deus e Mariana. Somente a mendiga poderia ligar-se ao plano mágico: ela aparece e desaparece misteriosamente.
Finalmente, o que está em jogo no romance de Camilo é a luta dos jovens contra o poder patriarcal e, por isso, o plano sociológico é o que terá maior destaque. No plano religioso, não haverá punição, como no mito, pois Simão e Teresa não pecaram contra nenhum preceito religioso, nem contra a castidade. O próprio Prior que confessava Teresa, ao ouvir o desejo que esta manifestava de encontrar Simão no céu, preconizando a união eterna das almas, não sabia “... se seria herético contestar uma cláusula não inscrita em algum dos quatro evangelhos.”

É o plano sociológico, assim, aquele que obtém maior ênfase no romance camiliano: 

                Exaltação____________________________________Punição


Permanência do mundo espiritual criado pelas cartas .  Teresa _ convento
                                                                              - Simão _ prisão

MORTE

Há, no final, a morte passivamente aceita pelos dois amantes, pois, não podendo casar-se na terra, procuram a união após-morte. 
Assim como Tristão e Isolda também se uniram depois da morte, através da simbologia dos arbustos entrelaçados, Simão e Teresa esperam encontrar-se no céu. Nas cartas de Teresa a Simão, há referencias a esse desejo e, quando Simão está prestes a expirar, fala a Mariana sobre tal encontro.
Uma vez ressaltadas as analogias entre o mito do amor-paixão e o romance de Camilo, fica ainda uma pergunta: porque, no mito, há adultério e nos dois romances citados ( o de Camilo e o de Herculano) não há consumação física do amor? Podemos responder a isso, dizendo que o mito do amor-paixão, emergente da história de Tristão e Isolda, precisava causar um impacto na sociedade medieval, uma vez que se insurgia em rebelião, que lutava, contra a organização hierática. Bem diferente é a situação no contexto burguês-capitalista do século XIX e do Romantismo. Este também lutava contra a organização aristocrática em classes fechadas, mas não podia admitir o adultério ou a consumação física do amor antes do casamento religioso, pois suas obras eram dirigidas à burguesia e esta tinha padrões morais muito rígidos. Dá-se, então, a adequação do Mito, aos princípios morais estabelecidos pela classe burguesa no poder. Assim, nos romances escritos na primeira metade do século XIX, no período romântico, não era admitido o adultério ou a consumação do amor antes do casamento. No caso de ocorrer este tipo de delito, haveria sempre uma punição rigorosa, como acontece em Anátema de Camilo Castelo Branco
O que fica bem claro através da análise de Amor de Perdição é que os escritores ( e também compositores de óperas) retomaram os conceitos míticos do amor-paixão, mostrando com isso uma semelhança entre seus próprios anseios e os do grupo social e religioso do século XII.
Na literatura do Romantismo europeu, muitos foram os romances que, tematizando o amor impossível, o amor ligado à morte ou ao sacrifício da renúncia, imposta pelo grupo social ou religioso: O Morro dos ventos uivantes , de Émile Bronte, por exemplo, que já teve duas versões no cinema, ainda hoje seduz as pessoas, do mesmo modo que A dama das Camélias de Alexandre Dumas, também com várias versões para o cinema, além da ópera La Traviatta. Tais histórias seduzem porque tratam do tema Amor e morte, a combinação que mais profundamente sensibiliza o ser humano em qualquer época.
Como bem o diz Denis de Rougemont, O amor feliz não tem história. Só existem romances do amor mortal, ou seja, do amor ameaçado e condenado pela própria vida. O que o lirismo ocidental exalta não é o prazer dos sentidos nem a paz fecunda do par amoroso. É menos o amor realizado que a paixão de amor. E paixão significa sofrimento. Eis o fato fundamental..( Ob. cit., p. 17) 

____________________________________________

1- Maria Elizabeth G. Vasconcelos. O homem no sentido latente do mito do amor-paixão, p. 43.(dissertação)
2-Denis de Rougemont, O amor no Ocidente, Rio de Jan. Ed, Guanabara, p.149,151;
3) Camilo C. Branco. Amor de Perdição, Porto, Porto ed.,s/d, p.35.
5. C.C.Branco, Ob. Cit., p. 36;
6. Idem, p. 148-9;
7. Idem, p. 37;
8. Idem, p. 88-89


CONTINUA...

Nenhum comentário :

Postar um comentário