9 de fev de 2013

Don Juan: a imagem invertida de Tristão (Parte XIII))

D. JUAN: A Imagem Invertida de Tristão

O ROMANCE DA ROSA segundo De Lorris e Meung;

Como informa Denis de Rougemont, “A Rosa" de Guilherme de Lorris – na primeira parte do romance, considerada cortês – é o amor da mulher ideal, já mulher verdadeira, mas inacessível no seu jardim orvalhado de alegorias. Perigo, Maledicência e Vergonha defendem Belo Acolhimento contra as investidas dos galanteadores. O obstáculo à união amorosa é representado pela exigência moral e não mais de todo religiosa: já não se trata de uma ascese mística, e sim de um refinamento do espírito que deve conduzir o amante a merecer a dádiva do amor.
De modo inverso, para João de Meung, que terminará o Romance, a Rosa é apenas a volúpia física. O mais franco realismo sucede à sensaboria de Lorris, o sensualismo ao platonismo, o cinismo à exaltação. A Rosa é conquistada através de rude combate. A natureza triunfa sobre o Espírito e a razão sobre a paixão.” (10)
É evidente que cada uma destas partes dará seus frutos em separado na literatura que lhe é posterior, através dos discípulos de De Lorris ou de Meung, que adotarão o idealismo/platonismo ou o realismo/cinismo como fundamento para os seus romances. Não requer muito esforço de nossa parte relacionar o romance de Camilo Castelo Branco Amor de Perdição, escrito no período romântico com a versão doRomance da Rosade De Lorris e o romance realista de Eça de QueirósO Primo Basíliocom a versão de Meung.
Dá-se, assim, na segunda metade do século XIX, principalmente, uma espécie de eclipse do Mito nos costumes e nas relações sentimentais., cuja origem podemos buscar no século XVIII.
Por outro lado, o eclipse do mito daria lugar ao aparecimento da mais absoluta antítese de Tristão: Don Juan. “Se Don Juan não é, historicamente, uma invensão do século XVIII, ao menos esse século imprimiu nesta personagem os dois traços tão típicos da época: a maldade e a perfídia. Antítese perfeita das duas virtudes do amor cavalheiresco: a candura e a cortesia.
O personagem mítico de Don Juan exerce fascínio sobre mulheres e homens, sem sombra de dúvidas. Tal fascínio talvez tenha o seu fundamento na natureza contraditória desse aventureiro amoroso. Como esclarece Rougemont, “Don Juan é ao mesmo tempo a espécie pura, a espontaneidade do instinto, o espírito puro em sua dança desvairada sobre a imensidade do possível. É a infidelidade perpétua, mas também a procura perpétua da mulher única, jamais encontrada pelo erro incansável do desejo.”
A imagem de Don Juan que nos interessa aqui considerar é a que o teatro ( ou a ópera de Mozart) nos oferece: como a imagem invertida de Tristão. “Antes de mais nada, o contraste está na aparência exterior das personagens, em seu ritmo. Sempre imaginamos Don Juan numa atitude altiva e ameaçadora, prestes a investir mesmo quando por acaso interrompe sua perseguição. Ao contrário, Tristão entra em cena com aquela lentidão sonambúlica de alguém que hipinotiza um objeto maravilhoso, cuja riqueza ela jamais esgotará plenamente. Um possuiu mil e três mulheres, o outro uma só mulher. Mas pobre é a multiplicidade, enquanto num ser único e possuído ao infinito se concentra o mundo inteiro. Tristão já não precisa do mundo – porque ama! Enquanto Don Juan, sempre amado, não pode jamais retribuir com amor. Daí sua angústia e sua busca desenfreada.
Um procura no ato do amor a voluptuosidade de uma profanação, o outro realiza a “proeza”divinizante permanecendo casto. A tática de Don Juan é a violação e, uma vez obtida a vitória, abandona o terreno e foge. Ora, a regra do amor cortês fazia da violação precisamente o crime dos crimes, a felonia sem remissão, e da homenagem um compromisso até à morte. Mas Don Juan ama o crime em si, tornando-se assim tributário da moral de que abusa. Ela é imprescindível para que Don Juan sinta o gosto de a violar, enquanto Tristão se sente livre do jogo das regras, dos pecados e das virtudes, pela graça de uma virtude que transcende o mundo da Lei.
Enfim, tudo se resume nesta oposição: Don Juan é o demônio da pura imanência, prisioneiro das aparências do mundo, o mártir da sensação cada vez mais decepcionante e desprezível _ enquanto Tristão é o prisioneiro da infinitude do dia e da noite, mártir de um encantamento que se transforma em pura alegria com a morte.
Voltando aos romances de Camilo e Eça, antes referidos, podemos dizer que Amor de Perdição filia-se à “linha do espiritual” e O Primo Basílio” segue a “linha do material”, o primeiro é herdeiro das idéias de De Lorris, foi escrito sob o sentido latente do mito do amor-paixão, do qual recupera muitos conteúdos míticos, dentre eles O amor ligado a morte, o amor eterno, etc. Enquanto isso, o romance de Eça radica nas idéias de Meung., repete o mito de Dom Juan e promove a profanação do mito. Enquanto Simão aproxima-se de Tristão, Basílio assemelha-se a D. Juan.
Simão e Teresa têm um objetivo comum a atingir, um mesmo sentimento a uni-los. Com Basílio e Luísa dá-se o contrário, nada em comum os une, nem na área dos sentimentos, nem na área dos objetivos a alcançarem: ela, com a cabeça cheia de sonhos, os sentidos insatisfeitos e ávida de viver as aventuras que lia nos romances românticos, de viver um grande e apaixonante amor, não resiste à corte que Basílio lhe faz , tornando-se a sua amante. Por sua vez, Basílio apenas deseja uma aventurazinha picante com Luísa, um passatempo enquanto está de passagem por Lisboa. Não há sentimento amoroso em sua relação, apenas desejo. Ele obtém o que quer, ela não se vê contemplada com o que sonha: ser amada por Basílio, ao contrário disso percebe que o "amor”do primo em nada se assemelha aos que conhecera nos romances. Conquistada a prima, Basílio abandona-a para não ter de assumir maiores responsabilidades. Luísa morre, Basílio cinicamente dá continuidade à sua vida de conquistador leviano. O caso amoroso de Basílio e Luísa não traz nenhum aperfeiçoamento para ela, apenas a degradação. Trata-se de um amor que avilta e rebaixa o ser. Só um ganhador teve esta história: o vilão Basílio. antítese de Tristão.
Já em amor de perdição, Simão e Teresa têm o mesmo aperfeiçoamento a obter: enquanto Simão deseja ser amado eternamente por Teresa, esta deseja o mesmo com referência a Simão. No processo para alcançar a realização do desejo recíproco de amor eterno, Simão luta contra os preconceitos familiares e chega a matar o rival; Teresa, por sua vez, recusa o casamento com o primo e prefere ir para o convento. O que eles desejam é obtido pelos dois de forma idêntica: Teresa morre de amor e promete encontrar Simão no céu e Simão morre de amor e promete encontrá-la no céu.
Há também a referir o caso das cartas que, em Amor de perdição, propiciaram a criação do mundo de Simão e Teresa, levando-os a uma união espiritual crescente, enquanto em O Primo Basílio são as cartas de amor que precipitam a separação dos amantes.
Na verdade Luís foi apenas a ROSA de MEUNG que deveria ser colhida. Basílio nada mais foi que o duplo de Don Juan, a antítese de Tristão.
Lembrar que os princípios morais da burguesia não admitia o adultério, considerado crime passível de punição com a cadeia e o desprezo do meio social. Por outro lado, vale salientar que Eça ,ao escrever o romance O Primo Basílio, intencionava criticas a dissolução dos costumes, amora, a decadência da família e a crise do casamento em razão do adultério. Lembrar também que cada grupo social tem as suas normas de conduta, os papéis que cada um deve desempenhar, o lugar marcado que cada qual deve ocupar para que se mantenha o equilíbrio do grupo. A cometer o adultério, Luísa infringiu o código estabelecido, desafiando, assim, o equilíbrio do grupo social, não podia continuar viva. Tinha que ser punida com a morte
Encerrando os estudos acerca da expressão do mito na literatura do século XIX, propomos a LEITURA da peça de Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, obra prima do teatro romântico português.
Lida a peça, procuraríamos estabelecer a relação entre a história das personagens Manuel de Sousa Coutinho e D.Madalena de Vilhena, com o mito de Tristão e Isolda,(ou o mito do amor-paixão), bem como com a história de Abelardo e Heloísa, apontando os conteúdos míticos presentes na tragédia do Frei Luís de Sousa .
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09- Cleonice Berardinelli, Para uma análise estrutural da obra de Eça de Queirós, Colóquio, Lisboa, Junho,1971, p. 26.
10- Denis de Rougemont, O amor e o Ocidente, Rio de Jan° , Ed, Guanabara, p. 127-128.
11- Idem, ibidem, p. 149.
12- Soror Mariana Alcoforado, Cartas Portuguesas, Lisboa, Morais, p.17.


CONTINUA...

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