9 de fev de 2013

O Mito do Amor-Paixão na Literatura Romântica. (Parte IX)



Na literatura e no teatro portugueses dos finais do século XV até o século XVI foram dominados e nutridos pelo tema do amor-paixão de Pedro de Portugal e Inês de Castro, em cujo história transitam os ecos do mito de Tristão e Isolda, tão bem retomado pelos escritores que dela fizeram tema para as suas obras. Podemos assim dizer que, nos domínios da Literatura Portuguesa, até o século atual, a história ( tematizada na poesia, na epopéia e no teatro) que se liga ao mito do amor-paixão, ao mito surgido com Tristão e Isolda, é a história de Inês de Castro e Pedro. Desde Garcia de Resende até os poetas modernos, é ainda o Mito de Inês de Castro que continua invadindo o imaginário dos poetas e dramaturgos. Daí ter merecido um estudo à parte em nossa trajetória através dos caminhos percorridos pelo mito do amor-paixão, ligado a Tristão e Isolda, na literatura portuguesa.
Encerrada a unidade dedicada ao Mito do amor-paixão no drama de Inês de Castro, passaremos agora ao exame da presença ou dos ecos do mito do amor-paixão na literatura, desvinculado do tema de Inês de Castro.
Nos períodos barroco, arcádico e pré-romântico não surgem obras que se liguem ao mito de Tristão e isolda. A mais dramática história de amor que invade o imaginário da época barroca é a que oferecem As Cartas Portuguesas de Sóror Mariana Alcoforado, freira do convento de Beja que viveu um romance clandestino com um oficial francês. Todavia, o oficial francês a quem Mariana se devota apaixonadamente, é incapaz de paixão, é uma espécie de D. Juan, é a antítese de Tristão, é o homem dos encontros sem futuro, leviano por definição, como seria, no século XIX, “Basilio” de Eça de Queirós.
O Século XVIII, domínio da volúpia e da sensualidade solta, assista ao que Rougemont denomina de “eclipse do Mito”, apesar das obras pré-romântica, como a Nova Heloísa de Rousseau e do Werther de Goethe ( uma perfeita recriação do mito medieval do amor-paixão), por exemplo, provarem a persistência do mito nos corações dos homens do século XVIII. Todavia, no âmbito da literatura portuguesa, nada acontece que mereça um destaque especial, fora da expressão do mito de Tristão e Isolda no já estudado mito de Inês de Castro.
Até o advento do romance no século XIX, é, portanto, a história de Inês de Castro e as obras que a tematizam o que se liga ao mito de Tristão e Isolda.
Na Europa, o eclipse do mito, no século XVIII, propiciou o surgimento da personagem que constituiria a antítese perfeita de Tristão: D, Juan. Este personifica a maldade e a perfídia, antítese das virtudes do amor cavalheiresco: a candura e a cortesia. A este assunto, retornaremos mais adiante, quando abordarmos o Mito no Realismo.
O Romantismo europeu recupera, através da ópera, também difusora do mito, a obra Werther do alemão Goethe , composta por Jules Massenet. O alemão Richard Wagner, em q865, apresenta a ópera Tristão e Isolda ao público europeu. Outras óperas estão ligadas ,também, à retomada do mito no século XIX, principalmente no Romantismo: Romeu e Julieta ( Gounod), La Traviata , Um baile de máscaras e A força do destino ( Verdi). Todas apresentam os mesmos traços definidores do mito: amor que leva à morte, amor impossível, amor infeliz.
Como observa Maria Elizabeth de Vasconcellos, no século XIX assistimos a uma “explosão contra a sociedade aristocrática” do século XVIII, semelhante a que se verificou no século XII , contra a sociedade hierática dos seniores feudais. Os romances no século XIX passaram a refletir uma luta contra os preconceitos, contra a idéia de honra e de tradição mantidas pela sociedade aristocrática absolutista. O obstáculo à realização do amor que era, no mito, religioso e social, agora passa a ter uma evidência única que diz respeito ao plano social: os jovens reclamam a si o direito de escolherem o companheiro de casamento, recusando as uniões arranjadas pelos pais ou parentes e pautadas em interesses outros que nada tinham a ver com o amor. E o mito reaparece com toda a sua força.(1)
A partir do final do século XVII e ao longo do século XVIII, Os casamentos se faziam como as “alianças” ou acordos diplomáticos, não interessando as afinidades afetivas. Como informa Denis de Rougemont, “a conveniência das classes e a conformidade das “qualidades” tornam-se a medida ideal do bom casamento [...].(2)
Na sociedade libertina, especialmente na França setecentista, “ quando todo o obstáculo ao amor é destruído, a paixão não tem onde se agarrar”. Já quase nada é proibido.” Todavia, neste século da volúpia e não da sensualidade saudável, embora se julgasse curado do mito, este irrompe aqui e ali, quando o sentimento sobrepõe-se à mera relação devassa, como bem o exemplifica o romance de Lacros As ligações perigosas, que tão bem retrata a sociedade da época.
A reviravolta originada na sociedade européia a partir Revolução Francesa, iria consequentemente refletir-se na sociedade burguesa-liberal-capitalista século XIX. Os valores da burguesia em ascensão, os ideais de liberdade individual, a instauração do capitalismo resultaram em mudanças irreversíveis nos costumes, nas mentalidades e na cultura da sociedade da época.
A Classe burguesa no poder em nada se assemelha à aristocracia desprestigiada pela Revolução. As obras literárias do período romântico obedecem ao “gosto” da burguesia endinheirada, conquista um público numerosíssimo, ocioso e com poder de compra, basicamente constituído por mulheres, perde os “mecenas” e passa a se submeter aos caprichos e exigências das leis do mercado capitalista, ou seja às leis da oferta e da procura, perante às quais um livro é uma mercadoria como qualquer outra. Ao contrário da literatura do período neoclássico, toda ela condizente com o refinado gosto e cultura da aristocracia, vinculada ao mecenatismo que assegurava a sobrevivência do escritor e voltada para os valores desta mesma aristocracia.

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