6 de fev de 2013

O Mito do Amor-Paixão na poesia do Século XIX



Finalizamos aqui o nosso estudo acerca do Mito do Amor-Paixão na Literatura.
Dentro da “linha do espiritual” passamos ao estudo do poema de António Manuel Couto Viana “Madrigal “,o qual nos revela que a vontade de retornar ao “amor lirismo” é universal.

Ainda é possível este amor
Como um regresso ao paraíso?
Aroma apenas de uma flor?
O beijo apenas de um sorriso?
Ainda é possível este amor?
Qual a resposta que preciso?

E nada digo! E nada dizes!
Tudo nos basta num olhar
E que tu, mão, lisa, deslizes
Por sobre a minha, devagar...
Com pouco somos tão felizes

Que é já demais pedir luar!
E é já demais esta poesia
Se há cada vez menos valor
Nas tais palavras que diria
Para dizer-te o som e a cor
De um coração em harmonia
Que só se diz, dizendo: Amor!

Notar, nos dois primeiros versos, a posição favorável do poeta à idéia de “amor ideal” ligado a “paraíso”.
Assim. a palavra “paraíso” reporta-nos, primeiramente, à história bíblica de Adão e Eva e, depois, a uma passagem do Mito de Tristão e Isolda, na qual o casal vive na floresta o seu amor ideal, numa paisagem também ideal, paradisíaca,

Essa paisagem ideal ( o locus amoenus) está presente no poema, na medida em que o amor se refere a um campo todo espiritual sem menção de materialidade.
Já que evocamos o ambiente da floresta do mito, estaria ele também imbuído de uma espiritualidade? Achamos que sim, pois na passagem da história de Tristão e Isolda em que o rei Marc encontra os dois amantes , na floresta, deitados lado a lado, mas separados pela espada da castidade, Logo a igualdade proposta torna-se válida.
Em relação ao poema, temos presentes os sentidos, mas todos despidos de sensualidade, à moda dos trovadores medievais:

Olfato: Aroma apenas de uma flor
Visão: Tudo nos basta num olhar
Tato: E que tu, mão, lisa, deslizes
Por sobre a minha, devagar...
Audição: E nada digo! E nada dizes!
Tato/visão: O beijo apenas de um sorriso? ( afirmados pela negação)

Com isso, está implícita a oposição entre material ( século XX) e espiritual ( século XII “paraíso”
Século XX : exaltação dos sentidos / luar das paisagens estereotipadas / palavras gastas.
Paraíso: {Aroma de uma flor } / não há necessidade de luar / apenas uma palavra “Amor!”
{Beijo de um sorriso }

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As palavras já estão gastas e também o luar das paisagens estereotipadas sobre o qual já se falou tanto; certo tipo de poesia também é apenas um amontoado de palavras sem nexo que não exprimem o amor, pois este “... só se diz, dizendo: Amor!”
E a oposição continua através de dois advérbios: o que para o mundo representa POUCO, para eles é MUITO: “Com pouco somos tão felizes”
Podemos dizer que o poema é todo construído a partir da duplicação:

Ainda é possível este amor?
Aroma apenas de uma flor?
Beijo apenas de um sorriso? } Todas essas construções binárias são equivalentes
E nada digo! E nada dizes!
Que é já demais pedir luar!
E já é demais esta poesia

Há, portanto, no poema, uma nítida evocação de épocas passadas que entram em oposição à época presente, O próprio título do poema MADRIGAL, refere-se a um gênero nascido provavelmente no século XIV. Na sua origem, é uma peça a duas vozes de caráter profano. Mas os elementos literário e musical assumem nele idêntica importância: foi cultivado por Dante, Petrarca e Boccacio.
Observar o clima de silêncio de que é penetrado o poema. Como as palavras já estão gastas pelo uso, não há necessidade de rebuscamentos, pois para os amantes,

Tudo nos basta num olhar
E que tu, mão, lisa, deslizes
Por sobre a minha, devagar...

Observar ainda que esse clima de silêncio é evocado também pelas aliterações das sibilantes /s/ , /z/ e das chiantes pós-vocálicas que sugerem sussurro, completadas tmbém pelo som das laterais /l/ e /lh/, na segunda estrofe.
Na primeira estrofe o ritmo é mais acelerado, através do enjambement que liga o primeiro verso ao segundo, culminando este numa pergunta. Seguem-se quatro versos interrogativos. Todos eles se referem à procura de um amor diferente do século XX. O quarto reflete a pergunta íntima do poeta “Qual a resposta que preciso?”
Nas duas estrofes seguintes, não há mais interrogações; oróprio poeta incumbe-se de responder ao que perguntou. Usa exclamações, reticências, pausas, reiterando o clima de sussurro evocado pelos sons.
Na terceira estrofe, os versos encadeados, num ritmo crescente que culmina numa parada de dois pontos antes da palavra final “Amor!” que fica soando como um eco.
É interessante notar que tanto a primeira rima do poema, quanto a última, são formadas pela palavra amor.
A repetição do verbo dizer, que aparece nessa estrofe 4 vezes, vai evidenciar a importância de “amor”.
Como Cecília Meireles, o poeta português António Manuel procura revitalizar o mito do amor-paixão no século XX, continuando a “linha do espiritual”. Assim, também, Sophia de Mello Breyner Andresen, com o poema ‘Tristão e Isolda”.

“Tristão e Isolda".
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sobre o mar de Setembro velado de bruma
O sol velado desce
Impregnando de oiro a espuma
Onde a mais vasta aventura floresce.
Tristão e Isolda que eu sempre vi passar

Num fundo de horizontes marítimos
Trespassados como o mar
Pela fatalidade fantástica dos ritmos
Caminham na agonia desta tarde
Onde uma ânsia irmã da sua arde.

Tristão e Isolda que como o Outono
Rolando de abandono em abandono
Traziam em si suspensa
Indizivelmente a presença
Extasiada da morte.

Ao qualificar o episódio de Tristão e Isolda como a “mais vasta aventura”, Sophia já atribui ao fato uma dimensão mítica. E essa “aventura”deve ser analisada no plano simbólico, pois é trazida desde a Idade Média até o século XX, “rolando de abandono em abandono”.
Notar que o verbo no gerúndio sugere o escoamento do tempo e a eternidade e a continuidade do mito.
A segunda e a terceira estrofes iniciam-se da mesma maneira, isto é, com a anáfora “Tristão e Isolda” que adquire um segundo sentido , através da leitura mais aberta que deve ser dada ao poema.
A palavra “aventura” remete para a atmosfera dos grandes romances de cavalaria, ao mundo lendário das estórias medievais e ao clima do próprio mito.
Vejamos os sentidos que assume a anáfora “Tristão e Isolda”

Sentido 1- Tristão e Isolda trazidos para o século XX através da evocação de Sophia,

Caminham na agonia desta tarde
Onde uma ânsia irmã da sua arde.

Sentido 2 –Tristão e Isolda do mito medieval

....que como o Outono
Rolando de abandono em abandono
Traziam em si suspensa
Indizivelmente a presença
Extasiada da morte.

O poema pode ser lida através de 3 movimentos, de acordo com a divisão de estrofes:

1- localização do espaço
2- Tristão e Isolda do mito trazidos para o século XX,
3- Tristão e Isolda do Mito medieval.

No primeiro movimento, a autora situa o espaço. A atmosfera é velada e misteriosa. Até o sol, que naturalmente é luminoso, aparece acompanhado do adjetivo “velado” que qualifica tanto o “sol” quanto o “mar”. Vale lembrar que , na Europa, o mês de Setembro assinala o início do Outono e o fim do Verão.
Notar que o espaço evocado não está imerso em uma obscuridade total, pois se trata de um cenário de final da tarde, ou seja, o ocaso, com o sol se pondo na linha do horizonte que se reúne ao mar. o jogo de claro X escuro é que vai sugerir o clima de mistério.
É mais misterioso o que apenas vem sugerido do que aquilo que se esconde de forma total. A bruma que desce sobre o mar onde o sol de deita, acrescenta uma nota de serenidade ao mistério do momento, mágico em que o dia se encontra com a noite e o sol banha de luz o mar, derramando ouro sobre a brancura da espuma. O poema se abre, assim, envolvendo-nos numa atmosfera de densa poeticidade, levantando um vasto campo de beleza, quase de sonho, mas também gerando uma atmosfera de morte, se associarmos o ocaso com a morte do dia, a agonia da tarde, o entristecer do fim do dia, O verso final da primeira estrofe, a palavra “vasta” concede à “aventura” um sentido de prolongamento no tempo e de grandeza associada à história de Tristão e Isolda, ao amor eterno que os liga e se expande através dos séculos.
No segundo movimento ( segunda estrofe) , a autora define o tempo “na agonia da tarde “ precisando que tudo se passa num crepúsculo. Neste segundo movimento, Tristão e Isolda são imagens suscitadas e presentificadas pela imaginação da autora. O advérbio de tempo “sempre” conota o tempo da eternidade que a autora confere ao casal mítico. Ela, a autora, se coloca como a própria Isolda do século XX, pois tem “uma ânsia irmã da sua”. O pronome demonstrativo “desta”, por sua vez, vai trazer o mito para o século XX.
Quando Sophia diz “que eu sempre vi passar”, o verbo VER não precisa ser entendido no sentido literal, mas pode remeter a um sentido simbólico de recordação.
Tristão e Isolda vêm para o presente através da lembrança, da recriação poética, do imaginário lírico. Pode-se dizer que ocorre uma contemplação evocativa de Sophia que vê através do tempo. O passado que ela procura trazer para o presente não está longe, nem terminou, porque é mítico. Portanto se renova sempre, renasce, ressurge ao longo dos tempos.
O primeiro movimento, que diz respeito à colocação do espaço, é a própria natureza que faz a autora “recordar”. Tristão e Isolda são comparados ao mar porque, como as ondas, eles também rolam fatalmente, irreversivelmente, num ritmo continuado de vai e vem contínuo

“MAR ......rolando para praia = Tristão e Isolda .......rolando pelas gerações, para o futuro.
Final do ensaio.

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