20 de fev de 2013

Tristão e Isolda e o Mito do Amor-Paixão (Parte IV)


-A história de Tristão e Isolda tem todas as características do mito, seja no plano religioso, seja no plano sociológico:
-Não tem autor definido;( há 5 versões diferentes da história ou lenda)
-Traduz as normas de conduta de um grupo social, na medida em que o desenrolar da ação depende da realização de uma série de regras da cavalaria medieval; bem como de convenções sociais
-Traduz as normas de conduta de um grupo religioso: está preso à heresia dos cátaros, pois Tristão e Isolda foram seres escolhidos e porque pecaram contra um dos preceitos da heresia – a castidade-. Desta forma, no plano religioso, deviam morrer para purificarem-se e alcançarem a luz.
Como adverte Lévi Strauss, “um mito é ao mesmo tempo uma história contada e um esquema lógico que o homem cria para resolver problemas que se apresentam sob planos diferentes, integrando-os numa construção sistemática.”. Diz ainda este autor, reportando-se à história de Tristão e Isolda, que quando um homem e uma mulher recusam o casamento, assemelham-se ao céu e à terra, sempre afastados, porém quando vivem numa eterna lua-de-mel, como Tristão e Isolda, correm o risco de se consumir, sem dar contribuição à sociedade, pondo em risco o equilíbrio do grupo.
 Desta forma, no plano sociológico, Tristão e Isolda deviam morrer porque representavam um perigo.” (4)
Como se vê, o Mito medieval do amor-paixão se manifesta em dois planos: religioso e/ou sociológico


O MITO de TRISTÃO E ISOLDA NA SOCIEDADE HIERÁTICA DO SÉCULO XII.

O mito de Tristão e Isolda, em seu sentido existencial, remete-nos ao século XII – século em que se verifica a primeira crise do matrimônio do mundo ocidental- e nos traz de volta ao século XX, quando se verifica a grande crise do matrimônio. O homem do século XX está, pois, no sentido latente do mito que conseguiu sobreviver até hoje através de várias recriaçõees.
Como esclarece Elizabete Carpinteiro, “o amor cortês nasceu de uma reação a certos costumes feudais. No século XII, os casamentos eram feitos na base dos interesses econômicos, isto é, visando enriquecer os feudos. Contra isso se insurgiram os adeptos de um novo ideal: o ideal cortês que preconizava uma fidelidade independente do casamento legal e fundamentada somente no amor. Assim, se Isolda se casou com Marke, o fez sem amor e por isso o adultério que cometeu com Tristão é perdoável porque exalta o amor cortês. O mito não perde a oportunidade de humilhar o velho marido de Isolda - Marke – e a esposa de Tristão – Isolda a de Mãos Brancas ou Isolda da Bretanha- que permaneceu virgem depois do casamento.
Mas, opondo-se aos casamentos feitos nos moldes feudais, a fidelidade cortês opõe-se também à satisfação completa do amor. Tentando explicar essa idéia de castidade, Denis de Rougemont fez um estudo pormenorizado da heresia dos cátaros à qual, segundo ele, estaria ligada a poesia dos trovadores.
 Os cátaros ( do grego: puro) pregavam a castidade. Sua heresia era baseada no princípio maniqueísta de oposição entre o BEM e o MAL, entre LUZ e TREVAS.
Tanto o mito de Tristão e Isolda como as Cantigas de Amor medievais ligar-se-iam, em suas origens, à HERESIA dos Cátaros, pois desenvolveram-se no mesmo espaço ( Sul da França) e no mesmo período ( Século XII).
A heresia, nos seus inícios, pregava a busca do Amor, da Luz, através da absoluta castidade, mas essa idéia foi-se perdendo e, quando o mito nasceu, já foi sob a influência de um outro sentido ou seja: a busca do amor à mulher – ideal do amor cortês – profanado, mas ainda conservando a idéia de castidade Porém, a luta contra o regime feudal estava implícita nos dois sentidos.
Essa heresia desenvolveu-se na Provença e foi produto de um novo ambiente. É válido, pois, buscar as origens do mito, relacionando-o também a fatores sociais, políticos e econômicos de toda Plena Idade Média.
Na verdade, o mito foi uma manifestação dos anseios do homem medieval do século XII. Neste século, dá-se o apogeu do sistema feudal os castelos fortificam-se, as igrejas são fortalezas de Deus, Paralelamente ao luxo crescente da nobreza, que se torna uma classe fechada, criando seu próprio código de honra e regras de etiqueta, o luxo que tem lugar nos mosteiros faz a Igreja cair em descrédito; reduz-se o sentido do cristianismo. Aparecem as HERESIAS ( especialmente a heresia dos cátaros), desenvolve-se o ideal cortês, exalta-se o heroísmo e surge o mito do amor-paixão

CONTINUA

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