3 de dez de 2013

A Palavra Mágica, conto de Vergilio Ferreira.



Nunca o Silvestre tinha tido uma pega com ninguém. Se às vezes guerreava, com palavras azedas para cá e para lá, era apenas com os fundos da própria consciência. Viúvo, sem filhos, dono de umas leiras herdadas, o que mais parecia inquietá-lo era a maneira de alijar bem depressa o dinheiro das rendas. Semeava tão facilmente as economias, que ninguém via naquilo um sintoma de pena ou de justiça — mesmo da velha —, mas apenas um desejo urgente de comodidade. Dar aliviava. Pregavam-lhe que o Paulino ia logo de casa dele derretê-lo em vinho, que o Carmelo não comprava nada, livros ou cadernos ao filho, que andava na instrução primária. As moedas rolavam-lhe para dentro da algibeira e com o mesmo impulso fatal rolavam para fora, deixando-lhe, no sítio, a paz.
Ora um domingo, o Silvestre ensarilhou-se, sem querer, numa disputa colérica com o Ramos da loja. Fora o caso que ao falar-lhe, no correr da conversa, em trabalhadores e salários, Silvestre deixou cair que, no seu entender, dada a carestia da vida, o trabalho de um homem de enxada não era de forma alguma bem pago. Mas disse-o sem um desejo de discórdia, facilmente, abertamente, com a mesma fatalidade clara de quem inspira e expira. Todavia, o Ramos, ferido de espora, atacou de cabeça baixa:
— Que autoridade tem você para falar? Quem lhe encomendou o sermão.
— Homem! — clama o Silvestre, de mão pacífica no ar. — Calma aí, se faz favor. Falei por falar.
— E a dar-lhe. Burro sou eu em ligar-lhe importância. Sabe lá você o que é a vida, sabe lá nada. Não tem filhos em casa, não tem quebreiras de cabeça. Assim, também eu.
— Faço o que posso — desabafou o outro.
— E eu a ligar-lhe. Realmente você é um pobre diabo, Silvestre. Quem é parvo é quem o ouve. Você é um bom, afinal. Anda no mundo por ver andar os outros. Quem é você, Silvestre amigo? Um inócuo, no fim de contas. Um inócuo é o que você é.
Silvestre já se dispusera a ouvir tudo com resignação. Mas, à palavra “inócuo”, estranha ao seu ouvido montanhês, tremeu. E à cautela, não o codilhassem por parvo, disse:
— «inoque» será você.
Também o Ramos não via o fundo ao significado de inócuo. Topara por acaso a palavra, num diálogo aceso de folhetim, e gostara logo dela, por aquele sabor redondo a moca grossa de ferros, cravada de puas. Dois homens que assistiam ao barulho partiram logo dali, com o vocábulo ainda quente da refrega, a comunicá-lo à freguesia
— Chamou-lhe tudo, o patife. Só porque o pobre entendia que a jorna de um homem é fraca. Que era um paz-de-alma. E um «inoque».
— Que é isso de «inoque»?
— Coisa boa não é. Queria ele dizer na sua que o Silvestre não trabalhava, que era um lombeiro, um vadio.
Como nesse dia, que era domingo, Paulino entrara em casa com a bebedeira do seu descanso, a mulher praguejou, como estava previsto, e cobriu o homem de insultos como não estava inteiramente previsto:
— Seu bêbado ordinário. Seu «inoque» reles.

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Comentário do conto A Palavra Mágica, de V. Ferreira



A “Palavra Mágica”, um conto que mostra a face divertida do seu autor, empenhado em nos dá uma visão cômica de uma aldeia portuguesa, através do quase analfabetismo da sua população, que vive segundo os seus preconceitos morais. A linguagem é fluida, direta, quase mimetizando a simplicidade da fala dos provincianos, para que melhor se perceba as peculiaridades do seu mundo tão “sui generis”. 
Com efeito, Virgílio Ferreira criou uma deliciosa história em torno de uma questão lingüística, mostrando como uma palavra mal entendida pode gerar equívocos e desavenças de grandes proporções.
Tudo começou quando Silvestre, um pacato viúvo sem filhos, que vive numa vila onde todos usufruem da sua boa vontade, envolve-se numa discussão com o Ramos da loja, que o trata de “inócuo”, palavra que ouvira num folhetim. O rumor faz com que a palavra maldita se espalhe pela freguesia, conotada de sentidos pejorativos e pronunciada de maneiras diversas. Começa por significar vadio, passando a bêbedo na boca da mulher do Paulino. Mais tarde, quando um vigarista vendedor de drogas entra na aldeia, a palavra ganha o sentido de trampolineiro ou ladrão dos finos e, quando o Rainha mata o marido da amante, sendo catalogado com o mesmo termo, “inoque” já significa devasso e assassino.
Como uma bola de neve, a palavra transforma-se num insulto terrível, chegando ao Perdigão dos Cabritos e, meses depois, a um cabeleireiro que chegou à vila, adquirindo então novos significados como parricida, incendiário, pederasta ou escroque.
Quando começaram a ser julgadas as primeiras queixas no tribunal da vila contra a injúria de “noque”, “inóque” ou “inócuo”, o juiz, apercebendo-se do verdadeiro significado da palavra, fica incrédulo perante a confusão gerada, pois inócuo significa “que não faz dano, inofensivo”. Indiferente aos protestos do advogado dos queixosos que achava que o Juiz deveria considerar a intenção de insultar por parte dos acusados, o Juiz arquivou os processos. E foi assim que Bernardino, um dos primeiros queixosos, perdeu a causa. Todavia, é tão forte o poder de uma palavra depois de assimilado o seu significado, mesmo equivocado que, mesmo sendo esclarecido o seu verdadeiro significado, a comunidade deu continuidade ao uso da palavra mágica que servia para todo tipo de impropério, injúria e insultos. Até o advogado e o filho do Gomes, cientes do significado da palavra, inclusive pronunciado-a de forma correta, jogaram para o lado o dicionário e passaram ao uso da mesma com o falso sentido injurioso, de acordo com seus ímpetos de ódio, desprezo por alguém.
No fundo, “A Palavra Mágica” é um retrato divertido do Portugal genuíno, onde os princípios têm mais valor do que as convenções e onde a honra, um dos raros haveres da população das vilas e aldeias, é a primeira a ser defendida. E nem a decisão do juiz, considerado pelo povo uma pessoa culta, foi capaz de mudar a mentalidade de quem é teimoso, apesar de pouco ou nada saber. Por mais que se tente, naquela aldeia, aquele vocábulo vai ser, para sempre, um vitupério na ponta da língua, pronto a ser cuspido com ódio e rancor.
Sabe-se que todo processo comunicativo é um ato em que devem fazer parte todos os elementos funcionando adequadamente. Qualquer falha no sistema acarretará em problemas na captação da mensagem. Assim, deve-se atentar para que o emissor e o receptor tenham em comum o código, isto é, a linguagem seja conhecida pelos dois, caso contrário poderá ocorrer que uma simples palavra de significação positivo, como a palavra Inócuo (inofensivo), por ser desconhecida por um dos interlocutores por muitas pessoas do lugarejo, tenha sido a causa de toda confusão na aldeia e na vila.
Os contos de Guimarães Rosa, “Famigerado” e Hipotrélico, também tematizam a questão da linguagem. O primeiro está no arquivo do blog, o segundo é um dos contos da coletânea Tutaméia. Nesse conto, o autor faz uso de um neologismo – hipotrélico”- causador de polêmicas quanto ao seu significado. A guisa de exemplificação, segue-se um trecho do conto em que o autor alude a essa questão:
“(...) Já outro, contudo, respeitável, é o caso - enfim - de 'hipotrélico', motivo e base desta fábrica diversa, e que vem do bom português. O bom português, homem de bem e muitíssimo inteligente, mas que, quando ou quando, neologizava, segundo suas necessidades íntimas. Ora, pois, numa roda, dizia ele, de algum sicrano, terceiro, ausente:
-E ele é muito hiputrélico... Ao que, o indesejável maçante, não se contendo, emitiu o veto: -Olhe, meu amigo, essa palavra não existe. Parou o bom português, a olhá-lo, seu tanto perplexo:
-Como? ... Ora ... Pois se eu a estou a dizer?
-É. Mas não existe. Aí, o bom português, ainda meio enfigadado, mas no tom já feliz de descoberta, e apontando para o outro, peremptório:
-O senhor também é hiputrélico... E ficou havendo". (Tutameia - Terceiras estórias)

Segundo o autor, "hipotrélico" significa "indivíduo pedante", "falto de respeito para com a opinião alheia."