21 de dez de 2015

Lisbon Revisited (1926) - Álvaro de Campos


O autor do poema Lisbon Revisited (1926) é Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa.
O tema deste poema é o eu do sujeito lírico, frustrado e desiludido de tudo, revê-se na sua cidade, tão fantasma como ele. Problema de Fernando Pessoa: crise de identidade do eu-ortônimo agora em Álvaro de Campos.
Poema da terceira fase de Álvaro de Campos, é o regresso à abulia, ao tédio, à nostalgia de um bem perdido. Melancólico, devaneador, desiludido, cosmopolita, Campos aproxima-se da poética de Pessoa ortónimo no cepticismo, nas saudades da infância, na dúvida quanto à sua identidade, na fragmentação do eu. 
O verso 1 revela o desencanto pela vida (sentimento abúlico). No primeiro momento do texto, o sujeito poético, abúlico e frustrado, manifesta o seu desencanto pela vida. 
Nos primeiros versos do segundo momento, o sujeito poético revê a cidade da sua infância que ele considera “pavorosamente perdida” e “triste e alegre” neste último exemplo, numa alusão às duas cidades que conheceu, a da infância e da vida de adulto. Evidencia a dúvida sobre a sua identidade (Verso 34) e refere-se à multiplicidade de eus que vivem nele (verso 37 a 39). 
O eu fala da cidade como a revê e de como se sente nela, “Transeunte inútil”, “Estrangeiro”, “Casual” e “Fantasma” (Verso 42 a 48). Do verso 54 ao 58, o final do segundo momento, a perda da imagem está relacionada com a perda de identidade (verso 55 a 56) e pode-se mesmo pensar na recordação da figura materna e da infância quando refere “em que me revia idêntico”. 
No verso 57 tem-se a fragmentação do eu. Ainda no segundo momento do texto encontra-se uma estreita relação entre o título do poema e o desenvolvimento do tema (ver verso 32). 
Os verbos no presente do indicativo denunciam o estado de espírito do sujeito poético, a sua frustração face aos fracassos dos seus projetos / sonhos do passado. 
O texto é narrativo e descritivo com verbos predominantemente no presente do indicativo; substantivos e adjetivos que descrevem a cidade e a alma do poeta: negatividade e tristeza. 
No poema Lisbon Revisited (1926), o espaço relaciona-se com o itinerário interior. O olhar que avista a cidade é filtrado pela subjetividade de um eu que, apesar de revisitá-la, não se encontra mais nela. Mais uma vez a infância aparece como um outrora privilegiado, fissura do eu que tem no agora a solidão, o cansaço e o tédio como determinantes. 
O poema, sem dúvida, estabelece um diálogo de tensão e ruptura, pois, o cansaço toma conta. 
Poema na íntegra: 
1. Nada me prende a nada. 
2. Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo. 
3. Anseio com uma angústia de fome de carne 
4. O que não sei que seja — 
5. Definidamente pelo indefinido... 
6. Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto 
7. De quem dorme irrequieto, metade a sonhar. 
8. Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias. 
9. Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua. 
10. Não há na travessa achada o número da porta que me deram. 
11. Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido. 
12. Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota. 
13. Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados. 
14. Até a vida só desejada me farta — até essa vida... 
15. Compreendo a intervalos desconexos; 
16. Escrevo por lapsos de cansaço; 
17. E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia. 
18. Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme; 
19. Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago; 
20. ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso. 
21. Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma... 
22. E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei, 
23. Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa 
24. (E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas), 
25. Nas estradas e atalhos das florestas longínquas

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10 de jun de 2015

A poesia homoerótica de Judith Teixeira

                                                                       (Nelly Novaes Coelho)

Foi com espanto que, em minhas pesquisas sobre a poesia feminina em Portugal, no ano de 1995, encontrei as primeiras informações sobre Judith Teixeira, poetisa contemporânea de Florbela Espanca, da qual nunca ouvira falar, tampouco vira alguma menção nos livros de história da literatura ou em qualquer outro interessado em estudar a produção poética das mulheres portuguesas. O meu espanto deveu-se, não apenas por ter localizado uma obra poética, pois outras relegadas ao esquecimento já havia encontrado, mas sim pela indiscutível qualidade da poesia que tinha diante dos meus olhos. Daí, surgiu em mim o empenho em divulgá-la, o que tenho feito em Congressos e Encontros de Literatura, além de incluí-la em meu livro O Itinerário da poesia feminina portuguesa: Século XX e XXII, do qual selecionei o texto a seguir:
Filha natural de Maria do Carmo e pai desconhecido, nasceu em Viseu no ano de 1880, Pouco se sabe acerca de sua vida, os poucos registros encontrados informam que aos treze anos dedicava-se à composição de versos juvenis. No ano de 1907, aos 28 anos de idade, ainda solteira, foi perfilhada por Francisco dos Reis Ramos, alferes de infantaria. Bem mais tarde, em 1918 e em 1919, lançou-se nas letras, usando pseudônimos, como autora de artigos no Jornal da Tarde de Lisboa. Em data desconhecida, casou-se com Jaime Levy Azancot, empregado comercial. O casamento deve curta duração. Em 1913 o seu marido pede a separação, acusando-a de adultério e de abandono do lar. Um ano após o divórcio, a autora contraiu novas núpcias com Álvaro Virgílio de Franco Teixeira, industrial e advogado. Somente aos 42 anos de idade e usando seu nome próprio, publicou o seu primeiro livro de poesias, intitulado Decadência. Este livro de estréia de Judith Teixeira, lançado ao público em 1923, irrompeu como a erupção de um vulcão em meio a mesmice enfadonha do discurso feminino em voga, causando inevitável impacto no meio literário, perplexo e aturdido com o transbordamento sensual e a audaciosa tematização do desejo e da luxúria em suas poesias, de índole decadentista.
A expressão do homoerotismo nas poesias teixerianas afrontava a estreiteza moral e os bons costumes defendidos ferozmente pelo moralismo burguês, prevalecente nos intolerantes círculos dos censores das obras publicadas em Portugal. Incapazes de compreender e de acatar a liberdade da expressão poética e da criação artística obrigavam os escritores a caminharem pelos trilhos estreitos da aviltante submissão da inteligência e da sensibilidade ao obscurantismo e à estreiteza mental dos que se arvoravam em guardiões dos costumes.

Em lugar da merecida ovação da crítica e da consagração da sua obra, Judith Teixeira teve a edição do seu livro de estréia censurada, confiscada enviada para a lista negra da intolerância apocalíptica de Pedro Teotônio Pereira, porta voz da escatológica fúria moralizante da Liga de Acção dos Estudantes de Lisboa. Empenhado em fiscalizar e meter em ordem os artistas julgados nocivos, encarregara-se de incinerar, em fogueira armada na praça pública, o livro da poetisa juntamente com os de outros poetas julgados obscenos e atentatórios à moral da sociedade. Obstinada, a poetisa publicou no ano seguinte o livro intitulado Castelo de sombras. A este “recatado” livro, seguiu-se, em 1926, sua última publicação em versos: Nua: Poemas de Bizâncio. Livro que retoma as temáticas ousadas e a liberdade de expressão que já levara à execração o seu livro de estréia, Decadência. A reação dos críticos e da imprensa não se fez esperar, desta vez ainda mais incisiva e injuriosa. Como resposta, Judith Teixeira publicou uma conferência intitulada De Mim, na qual explicitava as “suas razões sobre a Vida, a Estética e a Moral” vigentes, afirmando que o artista assume sempre uma atitude alheada dos preconceitos da época e da sociedade em que vive.
As décadas foram se sucedendo, mas pouco mudou a situação de desprezo e esquecimento a que esteve relegada a obra da poetisa. Ainda hoje, ela continua a não ser representada em qualquer antologia e sequer é mencionada nos manuais da história literária.[1]
A edição do livro Poemas, em 1996, reunindo a obra completa da poetisa e ensaísta constitui um ato de justiça e de merecido resgate do silêncio a que estivera relegada durante cerca de 70 anos.
Judith Teixeira, uma das mais talentosas e inovadoras poetisas do seu tempo, faleceu em 1956 sem ter visto o reconhecimento do valor das suas obras Decadência; Castelos de sombras; Nua: Poemas de Bizâncio; Dispersos e o ensaio De Mim.


Voltando ao seu livro de estréia, Decadência, vale acrescentar que o mesmo surpreendeu a crítica e a intelectualidade da década de 20 não apenas pelas ramificações temático-discursivas demasiadamente atrevidas como pelas evidentes relações que revela com o Modernismo em curso e com o Decadentismo retardatário que ainda dominava o imaginário poético da segunda década do século XX. Com efeito, a obra teixeiriana se constrói sobre o alicerce das duas tendências coexistentes no fim do século: Modernismo e Decadentismo. Porém, como escreve alicia Perdomo:
Judith Teixeira revela, ficcionaliza e metaforiza a luxúria como força vital e como força criativa”. Ela, a violentamente passional, não tem a quem escrever e se escreve e se constrói em sua escrita e seu desejo está neste ato. Todavia em Teixeira, também, há o problema típico do fim do século XIX e começo do XX, a construção de um personagem que revela a androginia da beleza e da criação.” [2]

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26 de abr de 2015

Melancolia e tristeza na poesia de Camões.

Quero aqui, num lugar hermo e sobrio,
Como nocturno pássaro ficar 
De meus olhos fazendo um grande rio. 
Fernão Correia de Lacerda 

Claude-Gilbert Dubois lembra que a melancolia constitui “um dos temas mais específicos da época” em que Camões produziu sua obra, ela é “uma obsessão” já presente no início do século XVI. À melancolia maneirista, faz-se acompanhar do saturnismo, 102 daí a conseqüente avalanche de poesias saturnianas, expressando a visão desencantada do real, a exacerbação do tédio existencial, o non sense do mundo, a irracionalidade humana. 
Estado de alma que revela inquieta tristeza, a melancolia manifesta-se não somente entre os artistas como entre os escritores, alastrando-se como uma epidemia, uma espécie de doença da moda. Enfim, fazia parte do pathos maneirista o gosto de ser triste, um certo culto à tristeza, tantas vezes e por vários modos expressados na lírica dos poetas do período, muitos dos quais exaltam a tristeza como a quinta-essência do bem, mórbida e masoquisticamente fruída. 
André Falcão de Resende, na poesia que se segue, descreve muito bem esse mal vivenciado por ele próprio, subjugado à tirania dos seus fantasmas interiores: 

Melancolia é mal, que segue aquilo 
De que foge e se aparta a outra gente. 
Os lugares contrários a ter gosto, 
Nesses sente algum gosto, se o sente, 
E pois eu vim a dar nesta doença 
No cabo de mil outras, e mil nojos, 
Que d’ alegre e contente me fizeram 
Melancólico, triste e pensativo, 
Não é muito também que busque parte. 103

É oportuno lembrar que o melancólico é sempre um ser infeliz e solitário, em estado de absoluta inaptidão para viver normalmente a experiência do cotidiano. Ensimesmado, o seu discurso gravita preferencialmente em torno do “eu”, privilegiando uma linguagem pejada de corrosivo pessimismo e de outros elementos que denunciam a sua natureza saturniana, de ser condenado a irremediável infortúnio.
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25 de abr de 2015

Álvaro de Campos - Tabacaria



Não sou nada. 
Nunca serei nada. 
Não posso querer ser nada. 
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto, 
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?), 
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, 
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, 
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, 
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, 
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, 
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. 
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, 
E não tivesse mais irmandade com as coisas 
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua 
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada 
De dentro da minha cabeça, 
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu. 
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo 
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, 
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo. 
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada. 
A aprendizagem que me deram, 
Desci dela pela janela das traseiras da casa, 
Fui até ao campo com grandes propósitos. 
Mas lá encontrei só ervas e árvores, 
E quando havia gente era igual à outra. 
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? 
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa! 
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos! 
Génio? Neste momento 
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu, 
E a história não marcará, quem sabe?, nem um, 
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras. 
Não, não creio em mim. 
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas! 
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo? 
Não, nem em mim... 
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo 
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando? 
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas - 
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -, 
E quem sabe se realizáveis, 
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente? 
O mundo é para quem nasce para o conquistar 
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão. 
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez. 
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo, 
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu. 
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda, 
Ainda que não more nela; 
Serei sempre o que não nasceu para isso; 
Serei sempre só o que tinha qualidades; 
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta 
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira, 
E ouviu a voz de Deus num poço tapado. 
Crer em mim? Não, nem em nada. 
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente 
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo, 
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha. 
Escravos cardíacos das estrelas, 
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama; 
Mas acordámos e ele é opaco, 
Levantámo-nos e ele é alheio, 
Saímos de casa e ele é a terra inteira, 
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena; 
Come chocolates! 
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. 
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. 
Come, pequena suja, come! 
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! 
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho, 
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei 
A caligrafia rápida destes versos, 
Pórtico partido para o Impossível. 
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas, 
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro 
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas, 
E fico em casa sem camisa.
(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas, 
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva, 
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta, 
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida, 
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua, 
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais, 
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -, 
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire! 
Meu coração é um balde despejado. 
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco 
A mim mesmo e não encontro nada. 
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta. 
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam, 
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam, 
Vejo os cães que também existem, 
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo, 
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até cri, 
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu. 
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira, 
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso); 
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo 
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.
Fiz de mim o que não soube, 
E o que podia fazer de mim não o fiz. 
O dominó que vesti era errado. 
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. 
Quando quis tirar a máscara, 
Estava pegada à cara. 
Quando a tirei e me vi ao espelho, 
Já tinha envelhecido. 
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. 
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário 
Como um cão tolerado pela gerência 
Por ser inofensivo 
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis, 
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse, 
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte, 
Calcando aos pés a consciência de estar existindo, 
Como um tapete em que um bêbado tropeça 
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta. 
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada 
E com o desconforto da alma mal-entendendo. 
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos. 
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também. 
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta, 
E a língua em que foram escritos os versos. 
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu. 
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente 
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas, 
Sempre uma coisa defronte da outra, 
Sempre uma coisa tão inútil como a outra, 
Sempre o impossível tão estúpido como o real, 
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície, 
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?), 
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim. 
Semiergo-me enérgico, convencido, humano, 
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los 
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos. 
Sigo o fumo como uma rota própria, 
E gozo, num momento sensitivo e competente, 
A libertação de todas as especulações 
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira 
E continuo fumando. 
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira Talvez fosse feliz.) 
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?). 
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica. 
(O dono da Tabacaria chegou à porta.) 
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me. 
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo 
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu...


Comentário do poema A Tabacaria.


Datado de 15/1/1928, o poema "Tabacaria" enquadra-se na terceira fase poética de Álvaro de Campos, denominada a fase pessoal (Jacinto Prado Coelho) ou "Fase Pessimista", que vai de 1916 a 1935 (ano da morte de Pessoa). Desiludido dos esforços das fases anteriores, "Sensacionista" e "Futurista", Campos deixa-se cair num pessimismo intenso, marcado com um forte regresso das memórias da sua infância e a consciência de que ficou (e está) sozinho no mundo.
A linguagem é muito mais moderada do que nas fases anteriores. Campos assume-se agora como um poeta plenamente desiludido com a vida, e muitos dos seus poemas - como Tabacaria - ganham um ritmo deliberadamente lento e retrospectivo, em clara contraposição com, por exemplo, as grandes Odes do seu período futurista.
O tema do poema é a dimensão da solidão interior face à vastidão do Universo exterior. A Tabacaria acaba por ser um símbolo que não tem valor próprio - verdadeiramente importante é que esse símbolo faz nascer em Campos a necessidade de analisar a sua própria existência face à existência da Tabacaria enquanto coisa fixa e real.
Podemos imaginar Pessoa no seu quarto da Rua Coelho da Rocha. Talvez nada disto tenha ocorrido, ou tenha sido um episódio real que se derramou para a literatura. Seja como for, há nisto um leit-motif muito próprio de Pessoa - a ligação do imanente e do transcendente, do real e do ideal, do eu e do vário.
A própria simbologia do quarto e da janela versus a rua e a Tabacaria, representa essa oposição entre o "dentro" e o "fora", uma oposição dialéctica que parte em busca de uma síntese de compreensão.
Mas ao longo de todo o texto, há uma noção clara de diálogo, mesmo sem personagens. É de facto um monólogo, onde Campos fala para si mesmo, e em evidentes momentos de quebra (passagens entre parêntesis) pára mesmo para pensar, intercalando ao discurso racional momentos de delírio momentâneo, irracionais, emocionais, mas complementares. 
O poema pode dividir-se em quatro partes:
A primeira parte corresponde à primeira estrofe, onde é assumido uma espécie de vazio ontológico - "não sou nada", e a contraposição entre o nada exterior e o tudo interior ("tenho em mim..."). Na realidade o vazio ontológico é ilusório e aquele "nada" é apenas o assumir de não ser nada exteriormente - a nulidade não é verdadeiramente ontológica, mas fenomenológica. 
Na segunda parte, estrofes 2-6, Campos estabelece a sua condição actual ao mesmo tempo que nos localiza - sabemos que está no seu quarto e a metáfora do quarto é a metáfora da sua condição humana. Ele é uma mente presa num quarto que olha a realidade do dia-a-dia por uma janela. Simples, mas ao mesmo tempo delicada, a simbologia marcante destas estrofes levam-nos à definição do "eu" de Campos enquanto ser só e abandonado à sua sorte. Ao transferir para metáforas reais os seus sentimentos, Campos concretiza poeticamente uma análise impossível através do raciocínio simples. Mas o que fica é sobretudo um sentido de oposição entre realidade (a rua, a Tabacaria) e irrealidade (a vida de Campos, o quarto). A ligação entre ambas é apenas uma janela, ou seja, permite uma interacção limitada, mas nunca uma passagem concreta de uma para a outra. Campos é um "falhado", mesmo que se saiba um gênio, é afinal Pessoa que fala pela voz da Campos.
Está vencido e sabe que nunca conseguirá ser feliz.
Na terceira parte (estrofes 7-13), até à entrada do homem na Tabacaria, Campos justifica para si mesmo o rumo que tomou na vida e, deixando ainda tomar-se pelo desespero, olha as alternativas que lhe restavam para ser feliz. Aqui a contraposição já não é entre o real e o ideal, entre o fora e o dentro, mas entre ele e os outros, entre a sua condição e a condição dos outros. Choca-lhe sobretudo aqueles que vivem a sua vida numa inconsciência plena - essa é afinal em muitas das passagens de Pessoa, afinal o ideal inatingível de felicidade - porque os vê precisamente como as suas próprias némesis, os seus adversários, os adversários de quem pensa e se preocupa. Começa com a rapariga que come chocolates, suja, perdida na sua gula. Essa passagem é marcante e simples de analisar: "Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! / Mas eu penso". Mas sabe que isso está fora do seu alcance - ele não vai deixar de pensar. Resta-lhe uma atitude nobre vaga: os poemas. Uma atitude nobre que ele espera que o salve, não sabe bem como, de uma mediocridade intensa que lhe vem de não nada fazer sentido na sua vida. 
A quarta parte (estrofe 8 e seguintes) marca o regresso da realidade. Campos deixa de "filosofar" quando um elemento real se intromete entre ele e a Tabacaria. Tudo se desmorona, porque tudo estava apenas no pensamento de Campos e nunca poderia ser real da mesma maneira que o Esteves é real. (haverá também afinal um nome mais real do que Esteves?). Passando subitamente a interveniente na realidade que analisava, Campos, assim que vê um conhecido e que depois lhe acena, deixa de poder estar fora da realidade para ser puxado violentamente para o meio dela. É assim que o Universo se reconstrói subitamente, sem metafísica, ou seja, sem dar mais azo ao pensamento e à análise, é só a verdade dos sentidos e não a idealização do pensamento. 

“Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo 
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu."

(Comentário de autor desconhecido)


19 de abr de 2015

O Espelho, conto de Machado de Assis


Esboço de uma nova teoria da alma humana. Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias questões de alta transcendência, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração aos espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa, a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora. Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas, resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas do universo. Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram quatro os que falavam; mas, além deles, havia na sala um quinto personagem, calado, pensando, cochilando, cuja espórtula no debate não passava de um ou outro resmungo de aprovação. Esse homem tinha a mesma idade dos companheiros, entre quarenta e cinqüenta anos, era provinciano, capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo que a discussão é a forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem, como uma herança bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição espiritual e
eterna. Como desse esta mesma resposta naquela noite, contestou-lha um dos presentes, e desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele) refletiu um instante, e respondeu: - Pensando bem, talvez o senhor tenha razão. Vai senão quando, no meio da noite, sucedeu que este casmurro usou da palavra, e não dois ou três minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa, em seus meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que dividiu radicalmente os quatro amigos. Cada cabeça, cada sentença; não só o acordo, mas a mesma discussão tornou-se difícil, senão impossível, pela multiplicidade das questões que se deduziram do tronco principal e um pouco, talvez, pela inconsistência dos pareceres. Um dos argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião, - uma conjetura, ao menos. - Nem conjetura, nem opinião, redargüiu ele; uma ou outra pode dar lugar a dissentimento, e, como sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas... - Duas? - Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para entro... Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; - e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. Shylock, por exemplo. A alma exterior aquele judeu eram os seus ducados; perdê-los equivalia a morrer. "Nunca mais verei o meu ouro, diz ele a Tubal; é um punhal que me enterras no coração." Vejam bem esta frase; a perda dos ducados, alma exterior, era a morte para ele. Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma... - Não? - Não, senhor; muda de natureza e de estado. Não aludo a certas almas absorventes, como a pátria, com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas enérgicas e exclusivas; mas há outras, embora enérgicas, de natureza mudável. Há cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros anos, foi um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde uma provedoria de irmandade, suponhamos. Pela minha parte, conheço uma senhora, - na verdade, gentilíssima, - que muda de alma exterior cinco, seis vezes por ano. Durante a estação lírica é a ópera; cessando a estação, a alma exterior substitui-se por outra: um concerto, um baile do Cassino, a rua do Ouvidor, Petrópolis... - Perdão; essa senhora quem é? - Essa senhora é parenta do diabo, e tem o mesmo nome; chama-se Legião... E assim outros mais casos. Eu mesmo tenho experimentado dessas trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me ao episódio de que lhes falei. Um episódio dos meus vinte e cinco anos... Os quatro companheiros, ansiosos de ouvir o caso prometido, esqueceram a controvérsia

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Analise do conto O Espelho, de Machado de Assis.


Neste conto, o autor ironiza a sociedade da época em uma das mais arraigadas crenças do povo cristão, que é a existência de uma única alma portadora de expressão única e inabalável até então.
Ao escrevê-lo, Machado de Assis lança a idéia de que o indivíduo está sujeito a duas "almas". Segundo ele, o ser possui uma alma interna, a qual "olha de dentro para fora" transmitindo seus anseios particulares e valorizando sua consciência individual. Além disso, há uma alma externa, que "olha de fora para dentro", composta de valores alheios ao indivíduo que são, porém, indispensáveis para a concepção do mesmo. Machado exemplifica: "a alma exterior daquele judeu (Shylock) eram seus ducados; perdê-los equivalia a morrer".
O conto em questão tem início e fim com o foco narrativo em terceira pessoa; neste intervalo ocorre o discurso do personagem principal, Jacobina, que narra “um caso de sua vida” aos cavalheiros presentes na “casa do morro de Santa Tereza”.
A narrativa de Jacobina é linear, interrompida uma vez ou outra por pequenas perguntas dos outros cavalheiros que o ouviam atentamente, mas significativamente interrompida uma única vez pelo narrador em terceira pessoa que denuncia: “Santa Curiosidade! tu não és só a alma da civilização, és também o pomo da concórdia”(p. 347).
Na trajetória de sua narrativa, o personagem percorre o caminho da tradição bíblica, mitológica, literária e filosófica para melhor expor os acontecimentos, afinal,como ele mesmo diz, “os fatos são tudo”.
Trata-se da história de Jacobina, rapaz pobre que se torna alferes aos 25 anos, nomeação que gerava status e despertava inveja em muitas pessoas, “Houve choro e ranger de dentes”. Era um rapaz pobre; seu fardamento foi dado por amigos e depois disso passou a ser visto como o cargo que ocupava na guarda nacional, “o alferes eliminou o homem”.
Sua tia Marcolina convidou-o a passar uns dias em seu sítio e cercando-o de mimos por todos os lados, mandou colocar um grande espelho, relíquia da casa,
em seu quarto, “obra rica e magnífica”. Tudo corria bem, até que sua tia Marcolina recebe notícias da doença de sua filha e viaja para vê-la, deixando-o sozinho com os escravos.
Jacobina sentiu uma grande tristeza, “coisa semelhante ao efeito de quatro paredes de um cárcere”, e os escravos o trataram muito bem, era “nhô alferes, de minuto a minuto”. Mas no dia seguinte Jacobina estava só, os escravos haviam fugido, e com eles todos os paparicos, não havendo ninguém mais no sítio, “nenhum ente humano” para reconhecer nele o “alferes”. Jacobina perdera então sua motivação para a vida, “nunca os dias foram mais compridos”. Tinha medo de olhar-se no espelho, “era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois”. Não era mais possível ver sua imagem refletida no grande espelho. Sua imagem era agora difusa, e sua figura era completa apenas nos sonhos, “o sono, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava atuar a alma interior”. Até que ele tem a idéia de colocar a farda e olhar-se diante do espelho. Assim fardava-se uma vez ao dia e colocava-se diante do espelho, retomando sua identidade, já “não era mais um autômato, era um ente animado”.
Revela-se no início da narrativa um tom de incerteza e volubilidade das coisas, que permeia toda a estrutura do texto. O conto começa com “quatro ou cinco cavalheiros" que debatem acerca da natureza da alma, sobre metafísica enfim.
“Por que quatro ou cinco?” Porque o quinto personagem, Jacobina, mantém-se quieto durante a conversa e somente se propõe a contar um caso de sua vida se os outros lhe ouvirem calados.
“Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias questões de alta transcendência, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração aos espíritos” (p. 345).
Na caracterização do ambiente, assim como da narrativa, cria-se uma atmosfera difusa na descrição da casa do morro de Santa Tereza, cuja “luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora”. Também, quando o narrador se refere a “quatro ou cinco cavalheiros”, ou lhes atribui a idade de “quarenta ou cinqüenta anos”, desencadeia-se no texto uma duplicidade, um turvamento de imagens.
“Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céu, em que as estrelas pestanejavam através de uma atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de cousas metafísicas” (v. 2, p. 345). 
Com esta frase, “Entre a cidade..., e o céu...”, o narrador machadiano faz uma alusão, a qual nos remete, embora com o uso de outras palavras, à célebre frase de Shakespeare, “Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”.
A seguir, Jacobina descarta a possibilidade de conjeturar sobre coisas metafísicas e assim se dispõe a contar aos cavalheiros um caso concreto de sua vida e inicia seu relato:
"Mas, se querem ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida em que ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas...
- Duas?
- Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro(...)." (p. 346).
E assim, Jacobina define a alma “metafisicamente falando”, como “uma laranja”. Utilizando-se da citação literária para melhor expor seus argumentos, e melhor
esclarecer sobre a alma exterior das pessoas, o narrador machadiano cita Shylock, personagem da peça O Mercador de Veneza de Shakespeare.

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18 de abr de 2015

Os Gestos, conto de Osman Lins


Do leito, o velho André via o céu nublar-se, através da janela, enquanto as folhas da mangueira brilhavam com surda refulgência, como se absorvessem a escassa luz da manhã. Havia um segredo naquela paisagem. Durante minutos, ficou a olhá-la e sentiu que a sua grave serenidade o envolvia, trazendo-lhe um bem-estar como não sentia há muito. “E eu não o posso exprimir – lamentou”. Não posso dizer. “Se agitasse a campainha, viria a esposa ou uma das filhas, mas seu gesto em direção à janela não seria entendido”. E ele voltaria a cabeça, contendo a raiva.
Para sempre exilado – pensou. Minhas palavras morreram, só os gestos sobrevivem. Afogarei minhas lembranças, não voltarei a escrever uma frase sequer. Igualmente remotos os que me ignoram e os que me amam. Só os gestos, pobres gestos...
Os pensamentos fatigaram-no. Veio, como de outras vezes, a ideia de que tudo aquilo poderia cessar, restituindo-o à companhia dos seus, mas ele recusou a esperança. Nunca mais - insistiu. Nunca. Esta é que é a verdade. “Súbita, febril impaciência fê-lo agitar-se, trazendo-lhe à mente o seu despertar um mês antes e o horror ao perceber que estava sem voz, mas ele tentou afastar a lembrança. “Esquecer todas as palavras”. Resignar-me ao silêncio.
Um casal de pássaros esvoaçou, além da árvore, dando a impressão de que as asas tocavam o céu cinzento, levantando um ondular de ondas que se cruzavam e extinguiram-se. A ilusão embalou-o, durante segundos achou-se debruçado ante uma paisagem lacustre, vinculada à sua juventude, ignorava por que laços; mas quando um vento agitou a mangueira, o instante presente retomou-o com tal suavidade e de modo tão repentino, que não o surpreendeu: a aspereza da barba sobre o dorso da mão, o desapontamento abafado, o calor do leito e os sons vadios ressurgiram sem choque, como se o distante lago não houvesse fremido e se dissipado num segundo.
Na sala de jantar, a mulher gritou para que apanhassem a roupa estendida no quintal: ele ouviu a irritada exclamação da filha mais nova e seus pés descalços afastarem-se correndo. Sorriu: distraía-se agora imaginando grandes panos brancos soprados pelo vento – uma fila interminável de lençóis túmidos, camisas bracejantes e lenços -, nítidos, reais, arrebatados uma a um por invisíveis que os faziam desaparecer. Algumas pancadas extinguiram-nos: ele reencontrou o céu mais escuro, a copa mais virente: mas só percebeu que haviam batido à porta da rua, quando a mulher cruzou o corredor, magra, lépida, sem olhar para o quarto.
“Uma visita. Inútil imaginar-lhe o rosto. É uma visita. “E ficou a olhar para a entrada, coração aos saltos, buscando reconhecer a voz masculina que se alternava com a da esposa e se avizinhava”. “Rodolfo”! Cinco ou seis dias talvez mais!” Queria abraçar o recém-chegado e quando este se aproximou, ele não conteve o impulso: estendeu os braços e o reteve junto a si, emitindo um gemido nasal, a suportar uma onda de felicidade transbordante, cujos motivos desconhecia. Antes, os encontros com Rodolfo lhe davam prazer, mas não provocavam efusões. Agora, o rosto largo, de maçãs salientes, o semblante sem malícia, o torso amplo, a alva roupa de linho e o ar de vida que ele desprendia, eram coisas inestimáveis e André continuava a estreitá-lo, gemendo, até que o olhar indecifrável da esposa, visto por sobre a nuca do amigo fê-lo afrouxar o amplexo.
Sentado junto à cama, o rapaz se esforçava para não fazer perguntas nem ficar em silêncio: o rosto móbil oscilava entre a gravidade e o riso, detendo-se, às vezes a olhá-lo entre apreensivo e cismático – a expressão que deveria ter ante um filho doente – e o homem indagava se era a sua vitalidade ou a roupa branca o que o fazia repousante. Rodolfo lembrava um marinheiro, sua presença tinha uma amplitude de viagens. Como era diferente daquela mulher por trás dele, em seu vestido escuro, fria e vigilante, pronta a insinuar que a visita se alongava!

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Comentário do conto Os Gestos, de Osman Lins.

Osman Lins ocupa um lugar muito especial no panorama da ficção brasileira contemporânea. Com uma produção literária dicotomizada em duas fases distintas, uma tributária da tradição inovadora e outra, a derradeira, absolutamente revolucionária, ímpar e sem precedentes na literatura produzida no Brasil até então. Resumindo: Osman Lins deixou uma obra extraordinária, digna de merecer destaque entre os mais importantes e notáveis escritores de sua geração, como Guimarães Rosa e Clarice Lispector.
Os Gestos pertence à primeira fase da escrita linsiana. Nessa fase, o autor já produz uma literatura avançada, com componentes bem individualizadores de um estilo rico, que apresenta sensibilidade para o intimismo, psicologismo e “ascendeu à fusão clima regional” e “sondagem interior”, conforme sentenciou A. Bosi
No conto, Os gestos, Osman Lins revela de forma altamente sensível à condição existencial do homem – André - enclausurado no reduzido limite de um quarto, dependente dos familiares, incapacitado para comunicar-se verbalmente, por ter perdido a voz. Ele é um ser solitário e carente de afeto. A impossibilidade de comunicação tem alterado as suas relações com a família e com o mundo. O personagem protagonista André, um homem velho, doente, exilado em si mesmo, contra o silêncio que o angustia e também o desprende, passa a manifestar-se somente através de gestos, às vezes, não entendidos.
André é um homem que fez do silêncio sua linguagem dentre a estranheza dos acontecimentos externos “Do leito o velho André via o céu nublar-se, através da janela, enquanto as folhas da mangueira brilhavam com surda refulgência, como se absorvessem a escassa luz da manhã. Havia um segredo naquela paisagem” (O. Lins, 1994, Os gestos, p. 11). Ele habituou-se a ouvir os sons ao redor, dentro e fora da casa. Os resmungos da mulher e o desespero das filhas, mediante a sua mudez, e desinteresse pelos seus gestos, que não eram lidos.
André encontrava-se derrotado desde que perdera a voz. “Para sempre exilado” (OG, p. 11), era assim que se sentia. Exilado em si mesmo, sem retorno aparente. A ausência da comunicação transita para o ambiente familiar onde ele vive. Na família ninguém esconde ou disfarça a irritabilidade gerada por tanta lida e pela permanência de visitas, como a do amigo Rodolfo: “Queria abraçar o recém-chegado e, quando este se aproximou, ele não conteve o impulso: estendeu os braços e o reteve junto a si, emitindo em gemido nasal, a suportar uma onda de felicidade transbordante, cujos motivos desconhecia” (OG, p 12). O Contato físico funciona como demonstração de aproximação e vínculo comunicativo. O abraço representa uma manifestação de carinho entre as pessoas.
O diálogo não parece ser comum naquela casa, cada um parecia que falava para si, cada um fechado em seu mundinho individual. Essa atmosfera fria do ambiente leva o próprio André a manifesta-se interiormente “Minhas palavras morreram, só os gestos sobrevivem. Afogarei minhas lembranças, não voltarei a escrever uma frase sequer. Igualmente remotos os que me ignoram e os que me amam. Só os gestos, pobres gestos...” (OG, p. 11). A reação das pessoas era a mesma diante daquele quadro. Segundo o narrador, o protagonista preferia essa situação “Nunca mais” (OG, p. 11). Era a sua decisão “Esquecer todas as palavras. Resignar-me ao silêncio” (OG, p. 11). André reconstrói o seu estar no mundo solitário e quase ignorado, numa linguagem que se reduz aos gestos. Não quer saber dos membros da família “Veio-lhe então o desejo de estar só, sem aquelas presenças inúteis, escorraçou-as com um gesto brutal e deitou-se” (OG, p. 13).

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